
Minha Luta
(Mein Kampf)
Adolf Hitler
APRESENTAÇÃO
Nélson Jahr Garcia
Minha Luta
(Mein Kampf) foi a melhor obra já escrita contra o nazismo. Já se escreveram
livros, artigos, crônicas; fizeram-se filmes, peças de teatro. Por mais que
demonstrassem o totalitarismo, a crueldade e a desfaçatez daquele regime, nada
conseguiu superar o original.
A comunidade
judaica, pelo menos alguns de seus setores, batalham por proibir a divulgação do
livro. Não entendo. Quanto mais se conhecer, maior se tornará o repúdio e
aversão.
É certo que os filhos de Israel foram
perseguidos, mas não só. Também o foram os negros, os eslavos, membros das
"Resistências", maçons, todos originários de qualquer raça que não fossem
considerados "arianos". Em suma, perseguiu-se tantos quanto se opuseram aos
planos megalomaníacos do pequeno austríaco que resolveu tornar-se rei do
universo.
Certa vez perguntei a um ex-capitão
do exército mecanizado nazista: "Como foi possível que um dos povos mais cultos
da Europa apoiasse um projeto neurótico e genocida como o dos nazis?"
Respondeu-me, com certa simplicidade: "Perdêramos a I Grande Guerra,
engenheiros, médicos e tantos reviravam latas de lixo para encontrar comida, os
judeus, comerciantes em sua maioria, expunham suas mercadorias sugerindo serem
beneficiados pela situação, era solo fértil para as pregações
anti-semitas".
Quanto ao anti-semitismo, além
da postura racista inquestionável e confessa, havia uma estratégia de
propaganda. Hitler entendia que qualquer movimento precisava de inimigos para
fortalecer-se. Subestimando a capacidade intelectual do povo, afirmava
explicitamente, que as massas tinham dificuldades de entendimento e compreensão.
Daí a necessidade de reduzir os vários adversários a um inimigo único: os
judeus. As críticas da imprensa eram escritas por judeus, que também dominavam a
literatura, as artes e o teatro. França e Inglaterra estavam controladas pelo
capitalismo judaico. Os judeus levavam imigrantes negros para contaminar as
raças européias. Os marxistas e revolucionários russos eram judeus. A maçonaria
era controlada por judeus. Uma generalização absurda que, infelizmente,
funcionou.
Penso que "Minha Luta" deva ser
amplamente conhecido, um texto preconceituoso, presunçoso e que traz embutidos
neuroses e psicoses indiscutíveis, conhecê-lo talvez seja a melhor forma de
impedir que aquelas idéias ressuscitem. Além disso sou contra qualquer forma de
censura. Os romanos incendiaram a Biblioteca de Alexandria, Hitler e Stalin
queimaram livros, Getúlio Vargas também, os militares de nossa recente ditadura
inclusive, e outros tantos, a humanidade só
perdeu.
Por isso tudo divulgo o livro, uma peça
de propaganda bastante eficiente, mas apenas no seu tempo e contexto. Devemos
ler, analisar, discutir e produzir vacinas. Como os vírus, as idéias absurdas
tendem a retornar fortalecidas e resistentes; só conhecendo poderemos
enfrentá-las.
PREFÁCIO
No dia 1.° de abril de 1924,
por força de sentença do Tribunal de Munique, tinha eu entrado no presídio
militar de Landsberg sobre o Lech.
Assim se me
oferecia, pela primeira vez, depois de anos de ininterrupto trabalho, a
possibilidade de dedicar-me a uma obra, por muitos solicitada e por mim mesmo
julgada conveniente ao movimento nacional
socialista.
Decidi-me, pois, a esclarecer, em
dois volumes, a finalidade do nosso movimento e, ao mesmo tempo, esboçar um
quadro do seu desenvolvimento.
Nesse trabalho
aprender-se-á mais do que em uma dissertação puramente
doutrinária.
Apresentava-se-me também a
oportunidade de dar uma descrição de minha vida, no que fosse necessário à
compreensão do primeiro e do segundo volumes e no que pudesse servir para
destruir o retrato lendário da minha pessoa feito pela imprensa
semítica.
Com esse livro eu não me dirijo aos
estranhos mas aos adeptos do movimento que ao mesmo aderiram de coração e que
aspiram esclarecimentos mais substanciais.
Sei
muito bem que se conquistam adeptos menos pela palavra escrita do que pela
palavra falada e que, neste mundo, as grandes causas devem seu desenvolvimento
não aos grandes escritores mas aos grandes
oradores.
Isso não obstante, os princípios de
uma doutrinação devem ser estabelecidos para sempre por necessidade de sua
defesa regular e contínua.
Que estes dois
volumes valham como blocos com que contribuo à construção da obra coletiva.
O
AUTOR
Landsberg sobre o Lech
Presídio Militar
DEDICATÓRIA
No dia 9 de novembro de
1923, na firme crença da ressurreição do seu povo, às 12 horas e 30 minutos da
tarde, tombaram diante do quartel general assim como no pátio do antigo
Ministério da Guerra de Munique os seguintes
cidadãos:
Alfarth (Felix). Negociante, nascido
a 5 de julho de 1901.
Bauriedl (Andreas).
Chapeleiro, nascido a 4 de maio de
1879.
Casella (Theodor). Bancário, nascido a 8
de agosto de 1900.
Ehrlich (Wilhelm). Bancário,
nascido a 19 de agosto de 1894.
Faust (Martin).
Bancário, nascido a 27 de janeiro de
1901.
Hechenberger (Ant.). Serralheiro, nascido
a 28 de setembro de 1902.
Kõrner (Oskar).
Negociante, nascido a 4 de janeiro de
1875.
Kuhn (Karl). Garção.Cehfe, nascido a 26
de julho de 1897.
Laforce (Karl). Estudante de
engenharia, nascido a 28 de outubro de
1904.
Neubauer (Kurt). Doméstico, nascido a 27
de março de 1899.
Pope (Claus von). Negociante,
nascido a 16 de agôsto de 1904.
Pforden
(Theodor von der). Membro do Supremo Tribunal, nascido a 14 de maio de
1873.
Rickmers (Joh.). Capitão de Cavalaria,
nascido a 7 de maio de 1881.
Scheubner-Richter
(Max Erwin von). Engenheiro, nascido a 9 de janeiro de
1884.
Stransky (Lorenz Ritter von). Engenheiro,
nascido a 14 de março de 1899.
Wolf (Wilhelm).
Negociante, nascido a 19 de outubro de 1898.
As
chamadas autoridades nacionais recusaram aos heróis mortos um túmulo
comum.
Por isso eu lhes dedico, para a
lembrança de todos, o primeiro volume desta obra, a fim de que esses mártires
iluminem para sempre os adeptos do nosso
movimento.
Landsberg sobre o Lech, Presídio
Militar, 16 de outubro de 1924.
Adolf Hitler
PRIMEIRA PARTE
CAPÍTULO I - NA CASA PATERNA
Considero
hoje como uma feliz determinação da sorte que Braunau no Inn tenha sido
destinada para lugar do meu nascimento. Essa cidadezinha está situada nos
limites dos dois países alemães cuja volta à unidade antiga é vista, pelo menos
por nós jovens, como uma questão de vida e de
morte.
A Áustria alemã deve voltar a fazer
parte da grande Pátria germânica, aliás sem se atender a motivos de ordem
econômica. Mesmo que essa união fosse, sob o ponto de vista econômico, inócua ou
até prejudicial, ela deveria realizar-se. Povos em cujas veias corre o mesmo
sangue devem pertencer ao mesmo Estado. Ao povo alemão não assistem razões
morais para uma política ativa de colonização, enquanto não conseguir reunir os
seus próprios filhos em uma pátria única. Somente quando as fronteiras do Estado
tiverem abarcado todos os alemães sem que se lhes possa oferecer a segurança da
alimentação, só então surgirá, da necessidade do próprio povo, o direito,
justificado pela moral, da conquista de terra estrangeira. O arado, nesse
momento será a espada, e, regado com as lágrimas da guerra, o pão de cada dia
será assegurado à posteridade.
Por isso, essa
cidadezinha da fronteira aparece aos meus olhos como o símbolo de uma grande
missão. Sob certo aspecto, ela se apresenta como uma exortação nos tempos que
correm. Há mais de cem anos, esse modesto ninho, cenário de uma tragédia cuja
significação todo o povo alemão compreende, conquistou, pelo menos, na história
alemã, o direito à imortalidade. No tempo da maior humilhação infligida à nossa
Pátria, tombou ali, por amor à sua idolatrada Alemanha, Johannes Palm, de
Nuremberg, livreiro burguês, obstinado nacionalista e inimigo dos franceses.
Tenazmente recusara-se, como Leo Schlagter, a denunciar os seus cúmplices, ou
melhor os cabeças do movimento. Como este, ele foi denunciado à França, por um
representante do governo. Um chefe de polícia de Ausburgo conquistou para si
essa triste glória e serviu assim de modelo às autoridades alemãs no governo de
Severing.
Nessa cidadezinha do Inn,
imortalizada pelo martírio de grandes alemães, bávara pelo sangue, austríaca
quanto ao governo, moravam meus pais no fim do ano 80 do século passado, meu pai
como funcionário público, fiel cumpridor dos seus deveres, minha mãe toda
absorvida nos afazeres domésticos e, sobretudo, sempre dedicada aos cuidados da
família. Na minha memória, pouco ficou desse tempo, pois, dentro de alguns anos,
meu pai teve que deixar a querida cidadezinha e ir ocupar novo lugar em Passau,
na própria Alemanha.
A sorte de empregado
aduaneiro austríaco se traduzia, naquele tempo, por uma constante peregrinação.
Pouco tempo depois, meu pai foi para Linz, para onde finalmente se dirigiu
também depois de aposentado. Essa aposentadoria não devia, porém, significar um
verdadeiro descanso para o velho funcionário. Filho de um pobre lavrador, já
noutros tempos ele não tolerava a vida inativa em casa. Ainda não contava treze
anos e já o jovem de então fazia os seus preparativos e deixava a casa paterna
no Waldviertel. Apesar dos conselhos em contrário dos "experientes" moradores da
aldeia, o jovem dirigiu-se para Viena, como objetivo de aprender um ofício
manual. Isso aconteceu entre 1850 e 1860. Arrojada resolução essa de afrontar o
desconhecido com três florins para as despesas de viagem. Aos dezessete anos,
tinha ele feito as provas de aprendiz. Não estava, porém, contente. Muito ao
contrário. A longa duração das necessidades de outrora, a miséria e o sofrimento
constantes fortaleceram a resolução de abandonar de novo o ofício, para vir a
ser alguma coisa mais elevada. Naquele tempo, aos olhos do pobre jovem, a
posição de pároco de aldeia parecia a mais elevada a que se podia aspirar;
agora, porém, na esfera mais vasta da grande capital, a sua ambição maior era
entrar para o funcionalismo. Com a tenacidade de quem, na meninice, já era um
velho, por eleito da penúria e das aflições, o jovem de dezessete anos insistiu
na sua resolução e tornou-se funcionário público. Depois dos Vinte e três anos,
creio eu, estava atingido o seu objetivo. Parecia assim estar cumprida a
promessa que o pobre rapaz havia feito, isto é, de não voltar para a aldeia
paterna sem que tivesse melhorado a sua
situação.
Agora estava atingido o seu ideal. Na
aldeia, porém ninguém mais dele se lembrava e a ele mesmo a aldeia se tornara
desconhecida.
Quando, aos cinqüenta e seis
anos, ele se aposentou, não pôde suportar esse descanso na ociosidade. Comprou,
então, uma propriedade na vila de Lambach, na alta Áustria, valorizou-a e voltou
assim, depois de uma vida longa e trabalhosa, à mesma origem dos seus
pais.
Nesse tempo, formavam-se no meu espírito
os primeiros ideais. As correrias ao ar livre, a longa caminhada para a escola,
as relações com rapazes extremamente robustos - o que muitas vezes causava a
minha mãe os maiores cuidados - esses hábitos me poderiam preparar para tudo
menos para uma vida sedentária. Embora, mal pensasse ainda seriamente sobre a
minha futura vocação, de nenhum modo as minhas simpatias se dirigiam para a
linha de vida seguida por meu pai. Eu creio que já nessa. época meu talento
verbal se adestrava nas discussões com os
camaradas.
Eu me tinha tornado um pequeno chefe
de motins, que, na escola, aprendia com facilidade, mas era difícil de ser
dirigido.
Quando, nas minhas horas livres, eu
recebia lições de canto no coro paroquial de Lambach, tinha a melhor
oportunidade de extasiar-me ante as pompas festivas das brilhantíssimas festas
da igreja. Assim como meu pai via na posição de pároco de aldeia o ideal na
vida, a mim também a situação de abade pareceu a aspiração mais elevada. Pelo
menos temporariamente isso se deu.
Desde que
meu pai, por motivos de fácil compreensão, não podia dar o devido apreço ao
talento oratório do seu bulhento filho, para daí tirar conclusões favoráveis ao
futuro do seu pimpolho, é óbvio que ele não concordasse com essas idéias de
mocidade. Apreensivo, ele observava essa disparidade da
natureza.
Na realidade a vocação temporária por
essa profissão desapareceu muito cedo, para dar lugar a esperanças mais
conformes com o meu temperamento.
Revolvendo a
biblioteca paterna, deparei com diversos livros sobre assuntos militares, entre
eles uma edição popular da guerra franco-alemã de 1870-1871. Eram dois volumes
de uma revista ilustrada daquele tempo. Tornaram-se a minha leitura favorita.
Não tardou muito para que a grande luta de heróis se transformasse para mim em
um acontecimento da mais alta significação. Daí em diante, eu me entusiasmava
cada vez mais por tudo que, de qualquer modo, se relacionasse com guerra ou com
a vida militar. Sob outro aspecto, isso também deveria vir a ser de importância
para mim. Pela primeira vez, embora ainda de maneira confusa, surgiu no meu
espírito a pergunta sobre se havia alguma diferença entre estes alemães que
lutavam e os outros e, em caso afirmativo, qual era essa diferença. Por que a
Áustria não combateu com a Alemanha nesta guerra? Por que meu pai e todos os
outros não se bateram também? Não somos iguais a todos os outros alemães? Não
formamos todos um corpo único? Esse problema começou, pela primeira vez, a
agitar o meu espírito infantil. Com uma inveja intima, deveria às minhas
cautelosas perguntas aceitar a resposta de que nem todo alemão possuía a
felicidade de pertencer ao império de Bismarck. Isso era inconcebível para
mim.
Estava decidido que eu deveria
estudar.
Considerando o meu caráter e,
sobretudo o meu temperamento, pensou meu pai poder chegar à conclusão de que o
curso de humanidades oferecia uma contradição com as minhas tendências
intelectuais. Pareceu-lhe que uma escola profissional corresponderia melhor ao
caso. Nessa opinião, ele se fortaleceu ainda mais ante minha manifesta aptidão
para o desenho, matéria cujo estudo, no seu modo de ver, era muito negligenciado
nos ginásios austríacos. Talvez estivesse também exercendo influência decisiva
nisso a sua difícil luta pela vida, na qual, aos seus olhos, o estudo de
humanidades de pouca utilidade seria. Por princípio, era de opinião que, como
ele, seu filho naturalmente seria e deveria ser funcionário público. Sua amarga
juventude fez com que o êxito na vida fosse por ele visto como tanto maior
quanto considerava o mesmo como produto de uma férrea disposição e de sua
própria capacidade de trabalho. Era o orgulho do homem que se fez por si que o
induzia a querer elevar seu filho a uma posição igual ou, se possível, mais alta
que a do seu pai, tanto mais quando por sua própria diligência, estava apto a
facilitar de muito a evolução deste.
O
pensamento de uma repulsa aquilo que, para ele, se tornou o objetivo de uma vida
inteira, parecia-lhe inconcebível. A resolução de meu pai era, pois, simples,
definida, clara e, a seus olhos, compreensível por si mesma. Finalmente para o
seu temperamento tornado imperioso através de uma amarga luta pela existência,
no decorrer da sua vida inteira, parecia coisa absolutamente intolerável, em
tais assuntos, entregar a decisão final a um jovem que lhe parecia inexperiente
e ainda sem responsabilidade.
Seria impossível
que isso se coadunasse com a sua usual concepção do cumprimento do dever, pois
representava uma diminuição reprovável de sua autoridade paterna. Além disso, a
ele cabia a responsabilidade do futuro do seu
filho.
E, não obstante, coisa diferente deveria
acontecer. Pela primeira vez na vida fui, mal chegava aos onze anos, forçado a
fazer oposição.
Por mais firmemente decidido
que meu pai estivesse na execução dos planos e propósitos que se formara, não
era menor a teimosia e a obstinação de seu filho em repelir um pensamento que
pouco ou nada lhe agradava.
Eu não queria ser
funcionário.
Nem conselhos nem "sérias"
admoestações conseguiram demover-me dessa
oposição.
Nunca, jamais, em tempo algum, eu
seria funcionário público.
Todas as tentativas
para despertar em mim o amor por essa profissão, inclusive a descrição da vida
de meu pai, malogravam-se, produziam o efeito
contrário.
Era para mim abominável o pensamento
de, como um escravo, um dia sentar-me em um escritório, de não ser senhor do meu
tempo mas, ao contrário, limitar-me a ter como finalidade na vida encher
formulários! Que pensamento poderia isso despertar em um jovem que era tudo
menos bom no sentido usual da palavra? O estudo extremamente fácil na escola
proporcionava-me tanto tempo disponível que eu era mais visível ao ar livre do
que em casa.
Quando hoje, meus adversários
políticos examinam com carinhosa atenção a minha vida até aos tempos da minha
juventude para, finalmente, poder apontar com satisfação os maus feitos que esse
Hitler já na mocidade havia perpetrado, agradeço aos céus que agora alguma coisa
me restitua à memória daqueles tempos
felizes.
Campos e florestas eram outrora a sala
de esgrima na qual as antíteses de sempre vinham à
luz.
Mesmo a freqüência à escola profissional
que se seguiu a isso em nada me serviu de
estorvo.
Uma outra questão deveria, porém, ser
decidida.
Enquanto a resolução de meu pai de
fazer-me funcionário público encontrou em mim apenas uma oposição de princípios,
o conflito foi facilmente suportável. Eu podia, então dissimular minhas idéias
íntimas, não sendo preciso contraditar constantemente. Para minha tranqüilidade,
bastava-me a firme decisão de não entrar de futuro para a burocracia. Essa
resolução era, porém, inabalável. A situação agravou-se quando ao plano de meu
pai eu opus o meu. Esse fato aconteceu já aos treze anos. Como isso se deu, não
sei bem hoje, mas um dia pareceu-me claro que eu deveria ser artista,
pintor.
Meu talento para o desenho,
inquestionavelmente, continuava a afirmar-se, e foi até uma das razões por que
meu pai me mandou à escola profissional sem contudo nunca lhe ter ocorrido
dirigir a minha educação nesse sentido. Muito ao contrário. Quando eu, pela
primeira vez, depois de renovada oposição ao pensamento favorito de meu pai, fui
interrogado sobre que profissão desejava então escolher e quase de repente
deixei escapar a firme resolução que havia adotado de ser pintor, ele quase
perdeu a palavra.
"Pintor! Artista!" exclamou
ele.
Julgou que eu tinha perdido o juízo ou
talvez que eu não tivesse ouvido ou entendido bem a sua
pergunta.
Quando compreendeu, porém, que não
tinha havido mal-entendido, quando sentiu a seriedade da minha resolução,
lançou-se com a mais inabalável decisão contra a minha
idéia.
Sua resolução era demasiado firme.
Inútil seria argumentar com as minhas aptidões para essa
profissão.
"Pintor, não! Enquanto eu viver,
nunca!" terminou meu pai.
O filho que, entre
outras qualidades do pai, havia herdado a teimosia, retrucou com uma resposta
semelhante mas no sentido contrário.
Cada um
ficou irredutível no seu ponto de vista. Meu pai não abandonava o seu nunca e eu
reforçava cada vez mais o meu não obstante.
As
conseqüências disso não foram muito agradáveis. O velho tornou-se irritado e eu
também, apesar de gostar muito dele. Afastou-se para mim qualquer esperança de
vir a ser educado para a pintura. Fui mais adiante e declarei então
absolutamente não mais estudar. Como eu, naturalmente, com essa declaração teria
todas as desvantagens, pois o velho parecia disposto a fazer triunfar a sua
autoridade sem considerações de qualquer natureza, resolvi calar daí por diante,
convertendo, porém, as minhas ameaças em
realidade.
Acreditava que quando meu pai
observasse a minha falta de aproveitamento na escola profissional, por bem ou
por mal consentiria na minha sonhada
felicidade.
Não sei se meus cálculos dariam
certo. A verdade é que meu insucesso na escola verificou-se. Só estudava o que
me agradava, sobretudo aquilo de que eu poderia precisar mais tarde como pintor.
O que me parecia sem significação para esse objetivo ou o que não me era
agradável, eu punha de lado inteiramente.
Nesse
tempo os meus certificados de estudos, apresentavam sempre notas extremas, de
acordo com as matérias e o apreço em que eu as tinha. Digno de louvor e ótimo,
de um lado; sofrível ou péssimo do
outro.
Incomparavelmente melhores eram os meus
trabalhos em geografia e, sobretudo, em história. Eram essas as duas matérias
favoritas, nas quais eu fazia progressos na
classe.
Quando, depois de muitos anos, examino
o resultado daqueles tempos, vejo dois fatos de muita
significação:
1.° Tornei-me
nacionalista.
2.° Aprendi a entender a história
pelo seu verdadeiro sentido.
A antiga Áustria
era um "estado de muitas nacionalidades".
O
cidadão do império alemão, pelo menos outrora, não podia, em última análise,
compreender a significação desse fato na vida diária do indivíduo, em um Estado
assim organizado como a Áustria.
Depois do
maravilhoso cortejo triunfal dos heróis da guerra franco-prussiana, os alemães
que viviam no estrangeiro eram vistos como cada vez mais estranhos à vida da
nação, que, em parte, não se esforçavam por apreciar ou mesmo não o
podiam.
Confundia-se, na Alemanha, sobretudo em
relação aos austro-alemães, a desmoralizada dinastia austríaca com o povo que,
na essência, se mantinha são.
Não se concebe
como o alemão na Áustria - não fosse ele da melhor têmpera - pudesse possuir
força para exercer a sua influência em um Estado de 52 milhões. Não se concebe
também, sem essa hipótese, que, até na Alemanha, se tenha formado a opinião
errada de que a Áustria era um Estado alemão, disparate de sérias conseqüências
que constitui, porém, um brilhante atestado em favor dos dez milhões de alemães
da fronteira oriental.
Só hoje, que essa triste
fatalidade caiu sobre muitos milhões dos nossos próprios compatriotas, que, sob
o domínio estrangeiro, acham-se afastados da Pátria e dela se lembram com
angustiosa saudade e se esforçam por ter ao menos o direito à sagrada língua
materna, compreende-se, em maiores proporções, o que significa ser obrigado a
lutar pela sua nacionalidade.
Só então um ou
outro poderá, talvez, avaliar a grandeza do sentimento alemão na velha fronteira
oriental, sentimento que se manteve por si mesmo, e que, durar te séculos,
protegera o Reich na fronteira oriental para finalmente se resumir a pequenas
guerras destinadas apenas a conservar as fronteiras da língua. Isso se dava em
um tempo em que o governo alemão se interessava por uma política colonial,
enquanto se mantinha indiferente pela defesa da carne e do sangue de seu povo,
diante de suas portas.
Como sempre acontece em
todas as lutas, havia na campanha pela língua três classes distintas: os
lutadores, os indiferentes e os traidores.
Já
na escola se começava a notar essa separação, pois o mais digno de nota na luta
pela língua é que é justamente na escola, como viveiro das gerações futuras, que
as ondas do movimento se fazem sentir mais
vibrantes.
Em torno da criança empenha-se a
luta, e a ela é dirigido o primeiro
apelo:
"Menino de sangue alemão, não te
esqueças de que és um alemão; menina, pensa que um dia deverás ser mãe
alemã".
Quem conhece a alma da juventude poderá
compreender que são justamente os moços que com mais intensa alegria ouvem tal
grito de guerra. De centenas de maneiras diferentes costumam eles dirigir essa
luta em que empregam os seus próprios meios e armas. Eles evitam canções não
alemães, entusiasmam-se pelos heróis alemães, tanto mais quanto maior é o
esforço para deles afastá-los, sacrificam o estômago para economizarem dinheiro
para a luta dos grandes Em relação ao estudante não-alemão, são incrivelmente
curiosos e ao mesmo tempo intratáveis. Usam as insígnias proibidas da nação e
sentem-se felizes em ser por isso castigados ou mesmo batidos. São, em pequenas
proporções, um quadro fiel dos grandes, freqüentemente com melhores e mais
sinceros sentimentos.
A mim também se ofereceu
outrora a possibilidade de, ainda relativamente muito jovem, tomar parte na luta
pela nacionalidade da antiga Áustria. Quando reunidos na associação escolar,
expressávamos os nossos sentimentos usando lóios e as cores preta, vermelha e
ouro, que, entusiasticamente, saudávamos com urras. Em vez da canção imperial,
cantávamos "Deutschland über alles", apesar das admoestações e dos castigos. A
juventude era assim politicamente ensinada em um tempo em que os membros de uma
soi-disant nacionalidade, na maioria da sua nacionalidade conhecia pouco mais do
que a linguagem. Que eu então não pertencia aos indiferentes, compreende-se por
si mesmo. Dentro de pouco tempo, eu me tinha transformado em um fanático
Nacional-Alemão, designação que, de nenhuma maneira, é idêntica à concepção do
atual partido com esse nome.
Essa evolução fez
em mim progressos muito rápidos, tanto que, aos quinze anos, já tinha chegado a
compreender a diferença entre patriotismo dinástico e nacionalismo racista. O
último conhecia eu, então, muito mais.
Para
quem nunca se deu ao trabalho de estudar as condições internas da monarquia dos
Habsburgos, um tal acontecimento poderá não parecer claro. Somente as lições na
escola sobre a história universal deveriam, na Áustria, lançar o germe desse
desenvolvimento, mas só em pequenas proporções existe uma história austríaca
específica.
O destino desse Estado é tão
intimamente ligado à vida e ao crescimento do povo alemão, que uma separação
entre a história alemã e a austríaca parece impossível. Quando, por fim, a
Alemanha começou a separar-se em dois Estados diferentes, até essa separação
passou para a história alemã.
As insígnias do
Imperador, sinais do esplendor antigo do Império, preservadas em Viena, parecem
atuar mais como um poder de atração do que como penhor de uma eterna
solidariedade.
O primeiro grito dos austro-alemães, nos dias do
desmembramento do Estado dos Habsburgos, no sentido de uma união com a Alemanha,
era apenas efeito de um sentimento adormecido mas de raízes profundas no coração
dos dois povos o anelo pela volta à mãe-pátria nunca
esquecida.
Nunca seria isso, porém,
compreensível, se a aprendizagem histórica dos austro-alemães não fosse a causa
de uma aspiração tão geral. Ai está a fonte que nunca se estanca, a qual,
sobretudo nos momentos de esquecimento, pondo de parte as delícias do presente,
exorta o povo, pela lembrança do passado, a pensar em um novo
futuro.
O ensino da história universal nas
chamadas escolas médias ainda hoje muito deixa a desejar. Poucos professores
compreendem que a finalidade do ensino da história não deve consistir em
aprender de cor datas e acontecimentos ou obrigar o aluno a saber quando esta ou
aquela batalha se realizou, quando nasceu um general ou quando um monarca quase
sempre sem significação, pôs sobre a cabeça a coroa dos seus avós. Não, graças a
Deus não é disso que se deve tratar.
Aprender
história quer dizer procurar e encontrar as forças que conduzem às causas das
ações que vemos como acontecimentos históricos. A arte da leitura como da
instrução consiste nisto: conservar o essencial, esquecer o
dispensável.
Foi talvez decisivo para a minha
vida posterior que me fosse dada a felicidade de ter como professor de história
um dos poucos que a entendiam por esse ponto de vista e assim a ensinavam. O
professor Leopold Pötsch, da escola profissional de Linz, realizara esse
objetivo de maneira ideal. Era ele um homem idoso, bom mas enérgico e, sobretudo
pela sua deslumbrante eloqüência, conseguia não só prender a nossa atenção mas
empolgar-nos de verdade. Ainda hoje, lembro-me com doce emoção do velho
professor que, no calor de sua exposição, fazia-nos esquecer o presente,
encantava-nos com o passado e do nevoeiro dos séculos retirava os áridos
acontecimentos históricos para transformá-los em viva realidade. Nós o ouvíamos
muitas vezes dominados pelo mais intenso entusiasmo, outras vezes comovidos até
às lágrimas. O nosso contentamento era tanto maior quanto este professor
entendia que o presente devia ser esclarecido pelo passado e deste deviam ser
tiradas as conseqüências para dai deduzir o presente. Assim fornecia ele, muito
freqüentemente, explicações para o problema do dia, que outrora nos deixava em
confusão. Nosso fanatismo nacional de jovens era um recurso educacional de que
ele, freqüentemente apelando para o nosso sentimento patriótico, se servia para
completar a nossa preparação mais depressa do que teria sido possível por
quaisquer outros meios. Esse professor fez da história o meu estudo favorito.
Assim, já naqueles tempos, tornei-me um jovem revolucionário, sem que fosse esse
o seu objetivo.
Quem, com um tal professor,
poderia aprender a história alemã, sem ficar inimigo do governo que, de maneira
tão nefasta, exercia a sua influência sobre os destinos da
nação?
Quem poderia, finalmente, ficar fiel ao
imperador de uma dinastia que no passado e no presente sempre traiu os
interesses do povo alemão, em beneficio de mesquinhos interesses
pessoais?
Já não sabíamos, nós jovens, que esse
Estado austríaco nenhum amor por nós possuía e sobretudo não podia
possuir?
O conhecimento histórico da atuação
dos Habsburgos foi reforçado pela experiência diária. No norte e no sul, o
veneno estrangeiro devorava o nosso sentimento racial, e até Viena tornava-se, a
olhos vistos e cada vez mais, estranha ao espírito
alemão.
A Casa da Áustria tchequizava-se, por
toda parte, e foi por efeito do punho da deusa do direito eterno e da inexorável
lei de Talião que o inimigo mortal da Áustria alemã, arquiduque Franz
Ferdinando, foi vítima de uma bala que ele próprio havia ajudado a fundir. Era
ele o patrono da eslavização da Áustria, que se operava de cima para baixo, por
todas as formas possíveis.
Enormes foram os
ônus que se exigiam do povo alemão, inauditos os seus sacrifícios em impostos e
em sangue, e, não obstante, quem quer que não fosse cego, deveria reconhecer que
tudo isso seria inútil.
O que nos era mais
doloroso era o fato de ser esse sistema moralmente protegido pela aliança com a
Alemanha, e que a lenta extirpação do sentimento alemão na velha monarquia até
certo ponto tinha a sanção da própria
Alemanha.
A hipocrisia dos Habsburgos com a
qual se pretendia dar no exterior a aparência de que a Áustria ainda era um
Estado alemão, fazia crescer o ódio contra a Casa Austríaca, até atingir a
indignação e, ao mesmo tempo, o desprezo.
Só no
Reich os já então predestinados" nada viam de tudo
isso.
Como atingidos pela cegueira, caminhavam
eles ao lado de um cadáver e, nos sinais da decomposição, acreditavam descobrir
indícios de nova vida.
Na fatal aliança do
jovem império alemão com o arremedo de Estado austríaco estava o germe da Grande
Guerra, mas também o do desmembramento.
No
decurso deste livro terei que me ocupar mais demoradamente deste problema. Basta
que aqui se constate que, já nos primeiros anos da juventude, eu havia chegado a
uma opinião que nunca mais me abandonou, mas, pelo contrário, cada vez mais se
fortificou. E essa era que a segurança do germanismo pressupunha a destruição da
Áustria e que o sentimento nacional não era idêntico ao patriotismo dinástico e
que, antes de tudo, a Casa dos Habsburgos estava destinada a fazer a
infelicidade do povo alemão.
Dessa convicção eu
já tinha outrora tirado as conseqüências: amor ao meu berço austro-alemão,
profundo ódio contra o governo austríaco.
A
arte de pensar pela história, que me tinha sido ensinada na escola, nunca mais
me abandonou. A história universal tornou-se para mim, cada vez mais, uma fonte
inesgotável de conhecimentos para agir no presente, isto é, para a política. Eu
não quero aprender a história por si, mas, ao contrário, quero que ela me sirva
de ensinamento para a vida.
Assim como logo
cedo tornei-me revolucionário, também tornei-me
artista.
A capital da alta Áustria possuía
outrora um teatro que não era mau. Nêle se representava quase tudo. Aos doze
anos, vi pela primeira vez "Guilherme Te!!" e, alguns meses depois, "Lohengrin",
a primeira ópera que assisti na minha vida. Senti-me imediatamente cativado pela
música. O entusiasmo juvenil pelo mestre de Bayreuth não conhecia
limites.
Cada vez mais me sentia atraído pela
sua obra, e considero hoje uma felicidade especial que a maneira modesta por que
foram as peças representadas na capital da província me tivesse deixado a
possibilidade de um aumento de entusiasmo em representações posteriores mais
perfeitas.
Tudo isso fortificava minha profunda
aversão pela profissão que meu pai me havia escolhido. Essa aversão cresceu
depois de passados os dias da meninice, que para mim foram cheios de pesares.
Cada vez mais eu me convencia que nunca seria feliz como empregado público.
Depois que, na escola profissional, meus dotes de desenhista se tornaram
conhecidos, a minha resolução ainda mais se
afirmou.
Nem pedidos nem ameaças seriam capazes
de modificar essa decisão.
Eu queria ser pintor
e, de modo algum, funcionário público.
E, coisa
singular, com o decorrer dos anos aumentava sempre o meu interesses pela
arquitetura.
Eu considerava isso, outrora, como
um natural complemento da minha inclinação para a pintura e regozijava-me
intimamente com esse desenvolvimento da minha formação
artística.
Que outra coisa, contrário a isso,
viesse acontecer, não previa eu.
O problema da
minha profissão devia, porém, ser decidido mais rapidamente do que eu
supunha.
Aos treze anos perdi repentinamente
meu pai. Ainda muito vigoroso, foi vítima de um ataque apoplético que, sem
provocar-lhe nenhum sofrimento, encerrou a sua peregrinação na terra,
mergulhando-nos na mais profunda dor.
O que
mais almejava, isto é, facilitar a existência de seu filho, para poupar-lhe a
vida de dificuldades que ele próprio experimentara, não havia sido alcançado, na
sua opinião. Apenas sem o saber, ele lançou as bases de um futuro que não
havíamos previsto, nem ele, nem
eu.
Aparentemente, a situação não se modificou
logo.
Minha mãe sentia-se no dever de, conforme
aos desejos de meu pai, continuar minha educação, isto é, fazer-me estudar para
a carreira de funcionário. Eu, porém, estava ainda mais decidido do que antes, a
não ser burocrata, sob condição alguma. A proporção que a escola média, pelas
matérias estudadas ou pela maneira de ensiná-las, afastava-se do meu ideal, eu
me tornava indiferente ao
estudo.
Inesperadamente, uma enfermidade veio
em meu auxílio e, em poucas semanas, decidiu do meu futuro, pondo termo à
constante controvérsia na casa paterna.
Uma
grave afecção pulmonar fez com que o médico aconselhasse a minha mãe, com o
maior empenho, a não permitir absolutamente. que, de futuro, eu me entregasse a
trabalhos de escritório. A freqüência à escola profissional deveria também ser
suspensa pelo menos por um ano.
Aquilo que eu,
durante tanto tempo, almejava, e por que tanto me tinha batido, ia, por força
desse fato, uma vez por todas, transformar-se em
realidade.
Sob a impressão da minha moléstia,
minha mãe consentiu finalmente em tirar-me, tempos depois, da escola
profissional e em deixar-me freqüentar a Academia.
Foram os dias mais felizes
da minha vida, que me pareciam quase que um sonho e na realidade de sonho não
passaram.
Dois anos mais tarde, o falecimento
de minha mãe dava a esses belos projetos um inesperado
desenlace.
A sua morte se deu depois de uma
longa e dolorosa enfermidade que, logo de começo, pouca esperança de cura
oferecia. Não obstante isso, o golpe atingiu-me atrozmente. Eu respeitava meu
pai, mas por minha mãe tinha verdadeiro amor.
A
pobreza e a dura realidade da vida forçaram-me a tomar uma rápida resolução. Os
pequenos recursos econômicos deixados por meu pai foram quase esgotados durante
a grave enfermidade de minha mãe. A pensão que me coube como órfão, não era
suficiente nem para as necessidades mais imperiosas. Estava escrito que eu, de
uma maneira ou de outra, deveria ganhar o pão com o meu
trabalho.
Tendo na mão unia pequena mala de
roupa e, no coração, uma vontade imperturbável, viajei para
Viena.
O que meu pai, cinqüenta anos antes,
havia conseguido, esperava eu também obter da sorte. Eu queria tornar-me
"alguém", mas, em caso algum, empregado público.
CAPÍTULO II - ANOS DE APRENDIZADO E DE SOFRIMENTO EM
VIENA
Quando minha mãe morreu, meu destino
sob certo aspecto já se tinha decidido.
Nos
seus últimos meses de sofrimento eu tinha ido a Viena para fazer exame de
admissão à Academia. Armado de um grosso volume de desenhos, dirigi-me à capital
austríaca convencido de poder facilmente ser aprovado no exame. Na escola
profissional eu já era sem nenhuma dúvida, o primeiro aluno de desenho da minha
classe. Daquele tempo para cá a minha aptidão se tinha desenvolvido
extraordinariamente. de maneira que, contente comigo mesmo, esperava, orgulhoso
e feliz, obter o melhor resultado da prova a que me ia
submeter.
Só uma coisa me afligia: meu talento
para a pintura parecia sobrepujado pelo talento para o desenho, sobretudo no
domínio da arquitetura. Ao mesmo tempo, crescia cada vez mais meu interesses
pela arte das construções. Mais vivo ainda se tornou esse interesse quando, aos
dezesseis anos incompletos, fiz minha primeira visita a Viena, visita que durou
duas semanas. Ali fui para estudar a galeria de pintura do "Hofmuseum", mas
quase só me interessava o próprio edifício do museu. Passava o dia inteiro,
desde a manhã até tarde da noite, percorrendo com a vista todas as raridades
nele contidas, mas, na realidade, as construções é que mais me prendiam a
atenção. Durante horas seguidas, ficava diante da Ópera ou admirando o edifício
de Parlamento. A "Ringstrasse" atuava sobre mim como um conto de mil-e-uma
noites.
Achava-me agora, pela segunda vez, na
grande cidade, e esperava com ardente impaciência, e, ao mesmo tempo, com
orgulhosa confiança, o resultado do meu exame de admissão. Estava tão convencido
do êxito do meu exame que a reprovação que me anunciaram feriu-me como um raio
que caísse de um céu sereno. Era, no entanto, uma pura verdade. Quando me
apresentei ao diretor para pedir-lhe os motivos da minha não aceitação à escola
pública de pintura, assegurou-me ele que, pelos desenhos por mim trazidos,
evidenciava-se a minha inaptidão para a pintura e que a minha vocação era
visivelmente para a arquitetura. No meu caso, acrescentou ele, o problema não
era de escola de pintura mas de escola de
arquitetura.
Não se pode absolutamente
compreender, em face disso, que eu até hoje não tenha freqüentado nenhuma escola
de arquitetura nem mesmo tomado sequer uma
lição.
Abatido, deixei o magnífico edifício da
"Shillerplatz", sentindo-me. pela primeira vez na vida, em luta comigo mesmo. O
que o diretor me havia dito a respeito da minha capacidade agiu sobre mim como
um raio deslumbrante a revelar uma luta íntima, que, de há muito, eu vinha
sofrendo, sem até então poder dar-me conta do porquê e do
como.
Em pouco tempo, convenci-me de que um dia
eu deveria ser arquiteto. O caminho era, porém, dificílimo, pois o que eu, por
teimosia, tinha evitado aprender na escola profissional, ia agora fazer-me
falta. A freqüência da Escola de Arquitetura da Academia dependia da freqüência
da escola técnica de construções e a entrada para essa exigia um exame de
madureza em uma escola média. Tudo isso me faltava completamente. Dentro das
possibilidades humanas, já não me era mais lícito esperar a realização dos meus
sonhos de artista.
Quando, depois da morte de
minha mãe, pela terceira vez, e desta vez para demorar-me muitos anos, fui a
Viena, a tranqüilidade e uma firme resolução tinham voltado a mim, com o tempo
decorrido nesse intervalo.
A antiga teimosia
também tinha voltado e com ela a persistência na realização do meu objetivo. Eu
queria ser arquiteto. Obstáculos existem não para que capitulemos diante deles
mas para os vencermos. E eu estava disposto a arrostar com todas essas
dificuldades, sempre tendo, diante dos olhos, a imagem de meu pai, que, de
simples aprendiz de sapateiro de aldeia, tinha subido até ao funcionalismo
público. O chão sobre que eu pisava era mais firme, as possibilidades na luta,
maiores. O que, outrora, me parecia aspereza da sorte, aprecio hoje como
sabedoria da Providência. Enquanto a necessidade me oprimia e ameaçava
aniquilar-me, crescia a vontade de lutar. E, finalmente, foi vitoriosa a
vontade. Agradeço àqueles tempos o ter-me tornado forte e poder sê-lo ainda. E
ainda mais agradeço o ter-me livrado do tédio da vida fácil e ter-me tirado do
conforto despreocupado do lar, para dar-me o sofrimento como substituto de minha
mãe e lançar-me na luta de um mundo de misérias e de pobreza, que aprendi a
conhecer e pelo qual mais tarde deveria
lutar.
Nesse tempo, abriram-se-me os olhos para
dois perigos que eu mal conhecia pelos nomes e que, de nenhum modo, se me
apresentavam nitidamente na sua horrível significação para a existência do povo
germânico: marxismo e judaísmo.
Viena, a cidade
que para muitos reputada como um complexo de inocentes prazeres, como lugar para
homens que se querem divertir, vale para mim, infelizmente, como uma viva
lembrança dos mais tristes tempos da minha vida. Ainda hoje, essa capital só
desperta em mim pensamentos sombrios. Cinco anos de miséria e de sofrimentos,
eis o que significa a minha estadia nessa cidade de prazeres. Cinco anos em que,
primeiro como ajudante de operário, depois como aprendiz de pintor, vime forçado
a trabalhar pelo pão quotidiano, mesquinho pão que nunca bastava para saciar a
minha fome habitual, A fome era então minha companheira fiel que nunca me
deixava sozinho e que de tudo igualmente participava. Cada livro que eu comprava
aumentava a sua participação na minha vida. Uma visita à Ópera fazia com que ela
me fizesse companhia o dia inteiro. Era uma eterna luta com o meu impiedoso
companheiro. E, não obstante isso, nesse tempo aprendi mais do que nunca. Além
do meu trabalho em construções, das raras visitas à Ópera, - feitas com o
sacrifício do estômago - tinha como único prazer a leitura. Li muito e
profundamente. No tempo livre, depois do trabalho, subia imediatamente ao meu
quarto de estudo. Em poucos anos, lancei os alicerces de conhecimentos de que
ainda hoje me utilizo. Mais importante do que tudo isso: naqueles tempos adquiri
uma noção do mundo que serviu de fundamento granítico para o meu modo de agir de
então. A essa noção precisei acrescentar pouca coisa, mudar
nada.
Ao
contrário.
Estou firmemente convencido de que,
em conjunto, várias idéias criadoras que hoje possuo, já na mocidade apareciam
fundadas em princípios. Faço diferença entre a sabedoria da velhice, que vale
pela sua maior profundidade e prudência, resultantes da experiência de uma longa
vida, e a genialidade da juventude que, em inesgotável proliferação, cria
pensamentos e idéias sem poder logo elaborá-las definitivamente, em conseqüência
do tumulto em que elas se sucedem. A mocidade fornece o material de construção e
os pia-nos de futuro, dos quais a velhice toma os blocos, trabalha-os e levanta
a construção, isso quando a chamada sabedoria dos velhos não sufoca a
genialidade dos moços.
A vida que eu até ali
tinha levado na casa paterna diferenciava-se em pouco ou em nada da vida dos
outros. Sem cuidados, podia esperar pelo dia seguinte, e para mim não havia
questão social. As relações da minha juventude compunham-se de pequenos
burgueses, por conseguinte de um mundo que mantinha muito poucas relações com o
verdadeiro operário. Por mais estranho que isso possa parecer à primeira vista,
o abismo entre essa camada social, cuja situação econômica nada tem de
brilhante, e o trabalhador manual, é freqüentemente mais profundo do que se
pensa. A razão dessa quase inimizade jaz no receio que tem um grupo social que,
apenas há pouco tempo, elevou-se acima do nível do proletariado, de descer à
antiga e pouco prezada posição ou de, pelo menos, ser visto como pertencendo a
essa classe. A isso se acrescente, entre muitos, a desagradável lembrança da
ignorância dessa baixa classe, a constante brutalidade nas suas relações uns com
os outros e compreender-se-á porque a pequena burguesia, em uma posição social
ainda inferior, considera todo contato com essas ínfimas camadas sociais como um
fardo insuportável.
Isso explica porque é mais
freqüente a uma pessoa altamente colocada, do que a um parvenu, nivelar-se, sem
afetação, com os mais humildes. O parvenu é o que, por sua própria força de
vontade, passa, na luta pela vida, de uma posição social a outra mais elevada.
Essa luta, as mais das vezes áspera, mata a compaixão no coração humano e
estanca a simpatia pelos sofrimentos dos que ficam
atrás.
Sob esse aspecto, a sorte foi comigo
compassiva. Enquanto me compelia a voltar para esse mundo de pobreza e de
incertezas, que, no decurso de sua vida, meu pai já havia abandonado, punha, ao
mesmo tempo, diante dos meus olhos, com todos os seus aspectos repugnantes, a
educação estreita dos pequenos burgueses. Só então aprendi a conhecer os homens,
aprendi a fazer a diferença entre ocas aparências, exteriorizações brutais e a
essência íntima das coisas.
Já no fim do século
passado, Viena pertencia ao número das cidades em que era visível o
desequilíbrio social.
Brilhante riqueza e
degradante pobreza revezavam-se em contrastes violentos. No centro da cidade e
nas suas adjacências sentia-se o bater do pulso do Império de cinqüenta e dois
milhões, com todo o seu poder mágico de atração, nesse Estado de várias
nacionalidades. A Corte no seu deslumbrante esplendor, agia como ímã sobre a
riqueza e a inteligência do resto do Estado. A isso deve-se juntar a forte
centralização da política da monarquia dos Habsburgos. Nessa concentração,
estava a única possibilidade de manter-se em firme união essa salada de povos. A
conseqüência disso foi, porém, uma exagerada concentração das autoridades
governamentais na capital, na residência da
Corte
Além disso, Viena era, não só espiritual
e politicamente, mas também economicamente, o centro da antiga monarquia
danubiana. Em frente ao exército de oficiais superiores, funcionários públicos,
artistas e sábios, estendia-se um exército ainda maior, composto de
trabalhadores; em frente da riqueza da aristocracia e do comércio, uma pobreza
atroz. Diante dos palácios da Ringstrasse perambulavam milhares de sem-trabalho
e, por baixo dessa via triunfal da velha Áustria, amontoavam-se os sem-teto, no
lusco-fusco e na imundície dos
canais.
Dificilmente em uma cidade alemã se
poderia tão bem estudar a questão social como em Viena. Mas ninguém se iluda.
esse estudo não pode ser feito de cima para baixo. Quem não se viu nas garras
dessa víbora nunca aprenderá a conhecer os seus dentes venenosos. Sem essa
etapa, tudo redunda em palavreado superficial ou sentimentalismo hipócrita. Um e
outro caso são de conseqüências nocivas: no primeiro, porque não se pode descer
ao âmago da questão, no segundo, porque se passa sobre
ela.
Não sei o que é mais desolador: a
indiferença pela miséria social que se nota diariamente na maioria dos que foram
favorecidos pela sorte ou que subiram pelos seus próprios méritos, ou a
afabilidade soberba, importuna, sem tato, embora sempre compassiva, de certas
senhoras da moda que afetam sentir com o povo. Essa gente peca por falta de
instinto mais do que se pode supor. Por isso, com surpresa sua, o resultado de
sua atividade social é sempre nulo, freqüentemente provoca repulsa, o que é
interpretado como prova da ingratidão do
povo.
Dificilmente entra na cabeça dessa gente
que uma atividade social não consiste nisso e que, sobretudo, não se deve
esperar gratidão, pois, no caso, não se trata de distribuição de favores mas
apenas de restabelecimento de direitos.
Por
isso, escapei de entender a questão social por essa forma. Quando ela me
arrastou aos seus domínios parecia não me convidar para aprender mas sim para
pôr-me à prova. Não foi por seu merecimento que a cobaia, ainda sadia, suportou
a operação.
Na maior parte dos casos não era
muito difícil, naquele tempo, encontrar trabalho, uma vez que eu não era
operário técnico, mas devia conquistar o pão de cada dia, como ajudante de
operário e muitas vezes como trabalhador de.
emergência.
Colocava-me, por isso, no ponto de
vista daqueles que sacodem dos pés a poeira da Europa, com o irremovível
propósito de, rio Novo Mundo, criar uma nova vida, construir uma nova pátria.
Libertados de todas as noções até aqui falhas sobre profissão, ambiente e
tradições, pegam-se a todo ganho que se lhes oferece, agarram-se a todo
trabalho, lutando sempre, com a convicção de que nenhuma atividade envergonha,
pouco importando de que natureza esta possa ser. Assim estava eu também decidido
a lançar-me de corpo e alma no mundo para mim novo e abrir-me um caminho,
lutando.
Cedo me convenci de que trabalho há
sempre, mas perdemo-lo com a mesma facilidade com que o
encontramos.
A incerteza do ganho do pão
quotidiano, dentro de pouco tempo pareceu-me ser o aspecto mais sombrio da nova
vida.
O operário técnico não é lançado tão
freqüentemente na rua, como os que não o são, mas ele também não está
inteiramente ao abrigo dessa sorte. Entre eles, ao lado da perda do pão por
falta de trabalho, podem concorrer o chômage e as suas próprias
greves.
Nesses casos, a incerteza do ganho do
pão diário tem fortes reações sobre toda a
economia.
O camponês que se dirige às grandes
cidades atraído pelo trabalho que imagina fácil ou que o é realmente, mas sempre
trabalho de pouca duração, ou o que é atraído pelo esplendor da grande cidade, o
que sucede na maioria dos casos, esse ainda está habituado a uma certa segurança
do pão. Ele costuma só abandonar os antigos postos, quando tem outro pelo menos
em perspectiva.
A falta de trabalhadores do
campo é grande e, por isso, a probabilidade de falta de trabalho é ali muito
pequena.
É pois, um erro acreditar que o jovem
trabalhador que se dirige à cidade seja inferior ao que fica trabalhando na
aldeia. A experiência mostra que acontece o contrário com todos os elementos de
emigração, quando são sadios e ativos. Entre esses emigrantes devem-se contar
não só os que vão para a América mas também os jovens que se decidem a abandonar
sua aldeia para se dirigirem as grandes capitais desconhecidas. Esses também
estão dispostos a aceitar uma sorte incerta. Na maioria, trazem algum dinheiro,
e, por isso, não se vêem na contingência de ser arrastados ao desespero logo nos
primeiros dias, se, por infelicidade, de começo não encontram trabalho. O pior
é, porém, quando perdem, em pouco tempo, o trabalho que haviam encontrado.
Encontrar outro, sobretudo no inverno, é difícil, se não impossível. Nas
primeiras semanas, a situação é ainda insuportável, pois ele recebe da caixa do
sindicato a proteção dada ao seu trabalho e atravessa como pode os dias de
desemprego. Quando o seu último vintém é gasto, quando a caixa, em conseqüência
da longa duração da falta de trabalho, também suspende o pagamento, vem a grande
miséria. Então, faminto, erra para cima e para baixo, empenha ou vende os
objetos que lhe restam e cada vez mais sensível se lhe torna a falta de roupas.
Desce a uma Convivência que acaba por envenenar-lhe o corpo e a alma. Fica sem
casa e, se isso acontece no inverno como é comum, então a miséria aumenta.
Finalmente, encontra algum trabalho, mas o jogo se repete. Uma segunda vez
atingiu de maneira semelhante à primeira, a terceira vez as coisas se tornaram
ainda mais difíceis, e assim, pouco a pouco, ele aprende a suportar com
indiferença a eterna insegurança. Por fim, a repetição adquire força de
hábito.
E assim o homem, outrora diligente,
abandona inteiramente a sua antiga concepção da vida, para, pouco a pouco,
transformar-se em um instrumento cego daqueles que dele se utilizam apenas na
satisfação dos mais baixos proveitos. Sem nenhuma culpa sua ele ficou tantas
vezes sem trabalho, que, mais uma vez, menos uma vez, pouco lhe importa. Assim
mesmo quando não se trata da luta pelos direitos econômicos do operariado mas de
destruição dos valores políticos, sociais ou culturais, ele será então, quando
não entusiasta de greves, pelo menos indiferente a
elas.
Essa evolução eu tive oportunidade de
acompanhar cuidadosamente em milhares de exemplos. Quanto mais eu observava
esses fatos, tanto mais aumentava a minha aversão pela cidade dos milhões que os
homens, cheios de cobiça, acumulavam para, depois, tão cruelmente,
desperdiçá-los.
Eu também fui fustigado pela
vida na grande metrópole e à minha própria custa submeti-me a essa provação,
experimentando, uma por uma todas essas dolorosas
sensações.
Observei ainda que essa rápida
mudança do trabalho para a ociosidade forçada e vice-versa, essa eterna
oscilação do emprego para o desemprego, com o tempo, haveria de destruir o
sentimento de economia e as razões para um prudente equilíbrio de vida.
Lentamente o corpo parece acostumar-se a viver à farta nos bons tempos e a
passar fome nos maus. A fome destrói todos os projetos dos operários no sentido
de um melhor e mais razoável modus vivendi. Nos bons tempos eles se deixam
embalar por uma constante miragem pelo sonho de uma vida melhor, sonho que
empolga de tal modo a sua existência que eles esquecem as antigas privações,
logo que recebem os seus salários. Dai resulta que o que consegue trabalho,
imediatamente, da maneira mais desrazoável, esquece uma prudente distribuição de
suas despesas, para viver à larga, apenas nos dias imediatos. Isso conduz ao
transtorno da manutenção da casa durante a semana, tornando não mais possível
uma razoável distribuição da receita. O dinheiro da semana, de começo, dá para
cinco dias em vez de sete, mais tarde para três em vez de quatro, finalmente
apenas para um dia e, por fim, logo na primeira noite é inteiramente gasto em
prazeres.
Em casa, as mais das vezes, há mulher
e crianças. Também elas recebem a influência dessa maneira de viver,
principalmente se o chefe de família é bom para os seus. Nesse caso, o ganho da
semana é esbanjado com todos em casa nos três primeiros dias. Come-se e bebe-se
enquanto o dinheiro dura, e, nos últimos dias, todos passam fome. Então a mulher
percorre humildemente a vizinhança e os arredores, pede emprestado alguma coisa,
faz pequenas dividas no vendeiro e procura assim manter-se com os seus nos
últimos dias da semana. Ao meio-dia, sentam-se todos juntos, diante de magros
pratos, muitas vezes até esses faltam, e, fazendo planos, esperam pelo dia do
pagamento. Enquanto passam fome sonham de novo com a felicidade. E assim as
crianças desde a mais tenra idade, acostumam-se a essa miséria, o pior, porém, é
quando, desde o começo, o marido segue o seu caminho e a mulher, por amor aos
filhos, levanta-se contra isso. Então surgem as brigas, as disputas constantes.
E à proporção que o marido se afasta da mulher, aproxima-se do álcool. Todos os
sábados ele se embriaga. Por instinto de conservação, por si e pelos filhos, a
mulher briga para tomar os últimos vinténs do marido quando este se dirige da
fábrica para a espelunca. Por fim, domingo ou segunda-feira, à noite, ele volta
para casa, embriagado e brutal, sempre sem vintém. Então desenrolam-se
freqüentemente cenas lastimáveis.
Assisti tudo
isso em centenas de casos. No começo sentia-me enojado ou irritado para, mais
tarde, compreender toda a tragédia dessa miséria e as suas causas mais
profundas. Infelizes vitimas de péssimas condições
sociais.
Tão tristes, talvez, eram, outrora, as
condições das habitações. A crise de casas para os ajudantes de operários de
Viena era horrível. Ainda hoje sinto calafrios quando penso naqueles horríveis
covis, as estalagens e nas habitações coletivas, naqueles sombrios quadros de
sujeira e de escândalos. Que poderia resultar daí, quando desses covis de
miséria a torrente de escravos abandonados se lançasse sobre a outra parte da
humanidade, livre de cuidados,
despreocupada?
Sim, o resto do mundo é
despreocupado. Despreocupado fica, deixando que as coisas sigam o seu caminho,
sem pensar que, na sua falta de intuição, a revanche terá lugar, mais cedo ou
mais tarde, se em tempo os homens não modificarem essa triste
realidade.
Quanto agradeço hoje à Providência o
ter-me lançado nessa escola! Aí eu não podia mais sabotar o que não me era
agradável. Essa escola educou-me depressa e
solidamente.
A menos que eu não quisesse perder
a esperança nos homens com quem convivia outrora, deveria fazer a diferença
entre a vida que aparentavam e as razões da mesma. Tudo isso deveria, pois, ser
suportado sem desânimo. Então, de toda essa infelicidade e miséria, de toda essa
sujidade e degradação, deveriam surgir na minha mente não mais homens, mas
miseráveis produtos de leis miseráveis. Por isso, a gravidade da luta pela vida
que sustentei, evitou que eu capitulasse por mero sentimentalismo ante os pecos
resultados desse processo de evolução.
Não,
isso não deveria ser compreendido assim.
Já,
naqueles tempos, eu havia chegado à conclusão de que só um caminho duplo poderia
conduzir ao objetivo da melhoria dessa situação: um mais profundo sentimento de
responsabilidade no sentido do estabelecimento de melhores bases para a nossa
evolução, combinado isso com a brutal resolução de demolir todas as
incorrigíveis excrescências.
Assim como a
natureza concentra os seus maiores esforços não na conservação do que existe mas
no cultivo do que cria, para continuação da espécie, assim também na vida humana
trata-se menos de melhorar artificialmente o que há de mau - o que, pela
natureza humana, em noventa e nove por cento dos casos é impossível - do que,
desde o início, assegurar, por melhores métodos, a evolução das novas
criações
Já durante a minha luta pela vida em
Viena, tornou-se evidente ao meu espírito que a atividade social nunca deverá
ser vista como uma obra de proteção sem- finalidade e irrisória, mas sim na
remoção de defeitos substanciais na organização de nossa vida econômica e
cultural que possam concorrer para a degeneração dos indivíduos ou pelo menos
para o seu desvio.
A dificuldade dessa maneira
de proceder em face dos últimos e brutais meios contra os delitos dos inimigos
do Estado, jaz justamente na incerteza do julgamento sobre os. motivos íntimos
ou causas principais dos fenômenos
contemporâneos.
Essa incerteza é fundada na
convicção da culpa de cada um nessas tragédias do passado e inutiliza toda séria
e firme resolução. Causa ao mesmo tempo, a fraqueza e a indecisão na execução
até mesmo das mais necessárias medidas de
conservação.
Quando um tempo vier não mais
empanado pela sombra da consciência da própria culpabilidade, a conservação de
si mesmo criará a tranqüilidade íntima, a força exterior, brutal e sem
considerações, para matar os maus rebentos da erva
ruim.
Como o Estado Austríaco praticamente
desconhecia qualquer legislação social, sua incapacidade para o combate de morte
aos maus germes saltava diante dos nossos olhos em toda sua
evidência.
Eu não sei o que naqueles tempos
mais me horrorizava, se 'a miséria econômica dos meus camaradas, se a sua
grosseria espiritual .e moral e o nível baixo de sua
cultura.
Quantas vozes não se tomava de cólera
a nossa burguesia, quando, da boca de algum miserável vagabundo, ouvia a
declaração de que lhe era indiferente ser ou não alemão, contanto que ele
tivesse a sua subsistência garantida.
Essa
falta de orgulho nacional, é, então, censurada da maneira mais incisiva e a
repulsa por um tal modo de sentir é expressa em termos
enérgicos.
Quantos, porém, já se fizeram a
pergunta sobre quais eram as causas de possuírem eles próprios melhores
sentimentos?
Quantos compreendem a infinidade
de recordações pessoais sobre a grandeza da pátria, da nação,' em todas as
fronteiras da vida artística e cultural que lhes inspiram o justo orgulho de
poderem pertencer a um povo tão
favorecido?
Quantos pensam na dependência do
orgulho nacional em relação ao conhecimento das grandezas da Pátria em todos
esses domínios?
Refletem nossos círculos
burgueses em que irrisória extensão esses motivos de orgulho nacional se
apresentam ao povo?
Ninguém se desculpe com o
argumento de que "em outros países a coisa não se passa de outra maneira" e que,
não obstante, o trabalhador orgulha-se da sua nacionalidade. Mesmo que isso
fosse assim, não poderia servir como desculpa para a nossa própria negligência.
Tal, porém, não se dá. O que nós sempre pintamos como uma educação
"chauvinística" dos franceses, por exemplo, não é mais do que a exaltação das
grandezas da França em todos os domínios da Cultura, ou da "civilisation", como
a denominam os nossos vizinhos.
O jovem francês
não é educado para o objetivismo, mas para as opiniões subjetivas, que a gente
só pode avaliar, quando se trata da significação das grandezas políticas ou
culturais da sua pátria.
Essa educação terá que
ser sempre restrita aos grandes e gerais pontos de vista que, se preciso, por
meio de eterna repetição, se gravem na memória e nos sentimentos do
povo.
Entre nós, aos erros por omissão,
junta-se ainda a destruição do pouco que o indivíduo tem a felicidade de
aprender na escola. O envenenamento político do nosso povo elimina ainda esse
pouco do coração e da memória das vastas massas, quando a necessidade e os
sofrimentos já não o tinham feito.
Pense-se no
seguinte.
Em um alojamento subterrâneo,
composto de dois quartos abafados, mora uma família proletária de sete pessoas.
Entre os cinco filhos, suponhamos um de três anos. É esta a idade em que a
consciência da criança recebe as primeiras impressões. Entre os mais dotados
encontra-se, mesmo na idade madura, vestígio da lembrança desse tempo. O espaço
demasiado estreito para tanta gente não oferece condições vantajosas para a
convivência. Brigas e disputas, só por esse motivo, surgirão freqüentemente. As
pessoas não vivem umas com as outras, mas se comprimem umas contra as outras.
Todas as divergências, sobretudo as menores, que, nas habitações espaçosas,
podem ser sanadas por um ligeiro isolamento, conduzem aqui a repugnantes e
intermináveis disputas. Para as crianças isso é ainda suportável. Em tais
situações, elas brigam sempre e esquecem tudo depressa e completamente. Se,
porém, essa luta se passa entre os pais, quase todos os dias, e de maneira a
nada deixar a desejar em matéria de grosseria, o resultado de uma tal lição de
coisas faz-se sentir entre as crianças. Quem tais meios desconhece dificilmente
pode fazer uma idéia do resultado dessa lição objetiva, quando essa discórdia
recíproca toma a forma de grosseiros desregramentos do pai para com a mãe e até
de maus tratos nos momentos de embriaguez. Aos seis anos, já o jovem conhece
coisas deploráveis, diante das quais até um adulto só horror pode sentir.
Envenenado moralmente, mal alimentado, com a pobre cabecinha cheia de piolhos, o
jovem "cidadão" entra para a escola.
A custo
ele chega a ler e escrever. Isso é quase tudo. Quanto a aprender em casa, nem se
fale nisso. Até na presença dos filhos, mãe e pai falam da escola de tal maneira
que não se pode repetir e estão sempre mais prontos a dizer grosserias do que
pôr os filhos nos joelhos e dar-lhes conselhos. O que a criança ouve em casa não
é de molde a fortalecer o respeito às pessoas com que vai conviver. Ali nada de
bom parece existir na humanidade; todas as instituições são combatidas, desde o
professor até às posições mais elevadas do Estado. Trata-se de religião ou da
moral em si, do Estado ou da sociedade, tudo é igualmente ultrajado da maneira
mais torpe e arrastado na lama dos mais baixos sentimentos. Quando o rapazinho,
apenas com quatorze anos, sai da escola, é difícil saber o que é maior nele: a
incrível estupidez no que diz respeito a conhecimentos reais ou a cáustica
imprudência de suas atitudes, aliada a uma amoralidade que, naquela idade, faz
arrepiar os cabelos.
Esse homem, para quem já
quase nada é digno de respeito, que nada de grande aprendeu a conhecer, que, ao
contrário, conhece todas as vilezas humanas, tal criatura, repetimos, que
posição poderá ocupar na vida, na qual ele está à
margem?
De menino de treze anos ele passou, aos
quinze, a um desrespeitador de toda
autoridade.
Sujidade e mais sujidade, eis tudo
o que ele aprendeu. E isso não é de molde a estimulá-lo a mais elevadas
aspirações.
Agora entra ele, pela primeira vez,
na grande escola da vida.
Então começa a mesma
existência que nos anos da - meninice ele aprendeu de seus pais. Anda para cima
e para baixo, entra em casa Deus sabe quando, para variar bate ele mesmo na
alquebrada criatura que foi outrora sua mãe, blasfema contra Deus e o mundo e,
enfim, por qualquer motivo especial, é condenado e arrastado a uma prisão de
menores.
Lá recebe ele os últimos
polimentos.
O mundo burguês admira-se, no
entanto, da falta de "entusiasmo nacional" deste jovem
"cidadão".
A burguesia vê, como no teatro e no
cinema, no lixo da literatura e na torpeza da imprensa, dia a dia, o veneno se
derramar sobre o povo, em grandes quantidades, e admira-se ainda do precário
"valor moral", da "indiferença nacional" da massa desse povo, como se a sujeira
da imprensa e do cinema e coisas semelhantes pudessem fornecer base para o
conhecimento das grandezas da Pátria, abstraindo-se mesmo a educação individual
anterior. Pude então bem compreender a seguinte verdade, em que jamais havia
pensado:
O problema da "nacionalização" de um
povo deve começar pela criação de condições sociais sadias como fundamento de
uma possibilidade de educação do indivíduo. Somente quem, pela educação e pela
escola, aprende a conhecer as grandes alturas, econômicas e, sobretudo,
políticas da própria Pátria, pode adquirir e adquirirá, certamente, aquele
orgulho íntimo de pertencer a um tal povo. Só se pode lutar pelo que se ama, só
se pode amar o que se respeita e respeitar o que pelo menos se
conhece.
Logo que o interesses pela questão
social foi em mim despertado, comecei a estudá-la profundamente. Aos meus olhos
surgia um novo mundo até então desconhecido.
No
ano de 1909 para 1910, minha própria situação modificou se um pouco porque não
precisava mais ganhar o pão de cada dia como ajudante de operário. Já
trabalhava, por minha conta, como desenhista e aquarelista. Continuava a ganhar
muito pouco - o essencial para viver - mas em compensação tinha lazeres para
aperfeiçoar-me na profissão que havia escolhido. Já não entrava em casa, à
noite, como antigamente, cansado ao extremo, incapaz de parar a vista em um
livro sem adormecer dentro de pouco tempo. Meu trabalho de agora corria paralelo
com a minha profissão artística. Podia, então, como senhor do meu próprio tempo,
dividi-lo melhor do que antes.
Eu pintava para
ganhar o pão e estudava por prazer.
Assim foi
possível às minhas observações sobre a questão social juntar o complemento
teórico indispensável. Eu estudava quase tudo que sobre esse assunto se podia
assimilar em livros, dando assim às minhas próprias idéias base mais
sólida.
Creio que os que comigo conviviam
naquele tempo tinham-me por um tipo
esquisito.
Era natural que eu, com ardor,
satisfizesse à minha paixão pela arquitetura. Ao lado da música, a arquitetura
me parecia a rainha das artes. Minha atividade, em tais condições, não era um
trabalho, mas um grande prazer. Podia ler ou desenhar até tarde da noite, sem
cansar-me absolutamente. Assim fortalecia-se a convicção de que o meu belo
sonho, depois de longos anos, transformar-se-ia em realidade. Estava
inteiramente convencido de um dia conquistar um nome como
arquiteto.
Não me parecia muito significativo
que eu também tivesse o maior interesse por tudo que se relacionasse com a
política. Ao contrário, isso era, em minha opinião, um dever natural de cada ser
pensante. Quem nada entende de política perde o direito a qualquer critica, a
qualquer reivindicação.
Também sobre esse
assunto li e aprendi muito.
Sob o nome de
leitura, concebo coisa muito diferente do que pensa a grande maioria dos
chamados intelectuais.
Conheço indivíduos que
lêem muitíssimo, livro por livro letra por letra, e que, no entanto, não podem
ser apontados como "lidos". Eles possuem uma multidão de "conhecimentos", mas o
seu cérebro não consegue executar uma distribuição e um registro do material
adquirido. Falta-lhes a arte de separar, no livro, o que lhes é de valor e o que
é inútil, conservar para sempre de memória o que lhes interessa e, se possível,
passar por cima, desprezar o que não lhes traz vantagens, em qualquer hipótese
não conservar consigo esse peso sem finalidade. A leitura não deve ser vista
como finalidade, mas sim como meio para alcançar uma finalidade. Em primeiro
lugar, a leitura deve auxiliar a formação do espírito, a despertar as
disposições intelectuais e inclinações de cada um. Em seguida, deve fornecer o
instrumento, o material de que cada um tem necessidade na sua profissão, tanto
para o simples ganha-pão como para a satisfação de mais elevados desígnios. Em
segundo lugar, deve proporcionar uma idéia de conjunto do mundo. Em ambos os
casos, é, porem, necessário que o conteúdo de qualquer leitura não seja confiado
à guarda da memória na ordem de sucessão dos livros, mas como pequenos mosaicos
que, no quadro de conjunto, tomem o seu lugar na posição que lhes é destinada,
assim auxiliando a formar este quadro no cérebro do leitor. De outra maneira,
resulta um bric-á-brac de matérias aprendidas de cor, inteiramente inúteis, que
transformam o seu infeliz possuidor em um presunçoso, seriamente convencido de
ser um homem instruído, de entender alguma coisa da vida, de possuir cultura, ao
passo que a verdade é que, a cada acréscimo dessa sorte de conhecimentos, mais
se afasta do mundo, até que acaba em um sanatório ou, como "político", em um
parlamento.
Nunca um cérebro assim formado
conseguirá, da confusão de sua "ciência", retirar o que é apropriado às
exigências de determinado momento, pois seu lastro espiritual está arranjado não
na ordem natural da vida mas na ordem de sucessão dos livros, como os leu e pela
maneira por que amontoou os assuntos no cérebro. Quando as exigências da vida
diária dele reclamam o justo emprego do que outrora aprendeu então precisará
mencionar os livros e o número das páginas e, pobre infeliz, nunca encontrará
exatamente o que procura.
Nas horas críticas,
esses "sábios", quando se vêem na dolorosa contingência de pesquisar casos
análogos para aplicar às circunstâncias, só descobrem receitas
falsas.
Não fosse assim e não se poderiam
conceber os atos políticos dos nossos sábios heróis do Governo que ocupam as
mais elevadas posições, a menos que a gente se decidisse a aceitar as suas
soluções não como conseqüências de disposições intelectuais patológicas, mas
como infâmias e trapaçarias.
Quem possui,
porém, a arte da boa leitura, ao ler qualquer livro, revista ou brochura,
dirigirá sua atenção para tudo o que, no seu modo de ver, mereça ser conservado
durante muito tempo, quer porque seja útil, quer porque seja de valor para a
cultura geral.
O que por esse meio se adquire
encontra sua racional ligação no quadro sempre existente que a representação
desta ou daquela coisa criou, e corrigindo ou reparando, realizará a justeza ou
a clareza do mesmo. Se qualquer problema da vida se apresenta para exame ou
contestação, a memória, por esta arte de ler, poderá recorrer ao modelo do
quadro de percepção já existente, e por ele todas as contribuições coligidas
durante dezenas de anos e que dizem respeito a esse problema são submetidas a
uma prova racional e ao nosso exame, até que a questão seja esclarecida ou
respondida.
Só assim a leitura tem sentido e
finalidade.
Um leitor, por exemplo, que, por
esse meio, não fornecer à sua razão os fundamentos necessários, nunca estará na
situação de defender os seus pontos de vista ante uma contradita, correspondam
os mesmos mil vezes à verdade. Em cada discussão a memória o abandonará
desdenhosamente. Ele não encontrará razões nem para o fortalecimento de suas
afirmações, nem para a refutação das idéias do adversário. Enquanto isso
acarreta, como no caso de um orador o ridículo da própria pessoa, ainda se pode
tolerar; de péssimas conseqüências é, porém, que esses indivíduos que "sabem"
tudo e não são capazes de coisa alguma, sejam colocados na direção de um
Estado.
Muito cedo esforcei-me por ler por
aquele processo e fui, da maneira mais feliz, auxiliado pela memória e pela
razão. Observadas as coisas por esse aspecto, foi me fecundo e proveitoso,
sobretudo o tempo que passei em Viena. A experiência da vida diária servia de
estímulo para sempre novos estudos dos mais diversos problemas. Quando eu, por
fim, cheguei à situação de poder fundamentar a realidade na teoria e tirar a
prova da teoria na experiência, na prática, estava em condições de evitar o
excesso de apego à teoria, ou descer demais à
realidade.
Assim, a experiência da vida diária,
nesse tempo, em dois dos mais importantes problemas, além do social, tornou-se
definitiva e serviu de estimulante para sólido estudo
teórico.
Quem sabe se eu algum dia me teria
aprofundado na teoria e na vida do marxismo, se, outrora, eu não tivesse
quebrado a cabeça com esse problema? O que eu, na minha mocidade, conhecia sobre
a social democracia era muito pouco e muito
errado.
Causava-me intenso prazer que a social
democracia dirigisse a luta pelo direito do voto secreto e universal. A minha
razão já me dizia, porém, que essa conquista deveria levar a um enfraquecimento
do regime dos Habsburgos, por mim já tão
odiado.
Na convicção de que o Estado danubiano
nunca se manteria sem o sacrifício do espírito alemão, e que o mesmo prêmio de
uma lenta eslavização do elemento germânico de modo algum ofereceria garantia de
um governo verdadeiramente viável, pois a força criadora do Estado dos eslavos é
muito hipotética, via eu com prazer todo movimento que, na minha imaginação,
poderia contribuir para o desmembramento desse Estado de dez milhões de alemães,
inviável e condenado à morte. Quanto mais o palavrório corroía o parlamento,
mais próximo deveria estar a hora da ruína desse Estado babilônico e com ela
também a hora da libertação dos meus compatriotas austro-alemães. Só assim se
poderia voltar à antiga anexação à
mãe-pátria.
Por isso, a atividade da
social-democracia não me parecia antipática. Como esse movimento se preocupava
em melhorar as condições vitais do operariado - como eu acreditava na minha
ingenuidade de outrora - pareceu-me melhor falar a seu favor do que contra. O
que mais me afastava da social-democracia era sua posição de adversária em
relação ao movimento pela conservação do espírito germânico, a deplorável
inclinação em favor dos "camaradas" eslavos que só aceitavam esse alerta quando
era acompanhado de concessões práticas, repelindo-o, arrogantes e orgulhosos,
quando não viam interesses. Davam, assim, ao importuno mendigo a paga
merecida.
Na idade de dezessete anos, a palavra
marxismo era-me pouco conhecida, enquanto socialismo e social-democracia
pareciam-me concepções idênticas. Foi preciso, também, nesse caso, que o punho
forte do destino me abrisse os olhos para essa maldita maneira de ludibriar o
povo.
Até então eu só tinha contato com a
social-democracia como observador em algumas demonstrações coletivas, sem
possuir nenhuma idéia da mentalidade de seus adeptos ou da essência da doutrina.
De repente. pude sentir os efeitos de sua doutrinação e de sua maneira de
encarar o mundo. O que, talvez só depois de dezenas de anos, tivesse acontecido,
aprendi agora no decurso de poucos meses, isto é, a verdadeira significação de
uma peste ambulante sob a máscara de virtude social e amor ao próximo e da qual
se deve depressa libertar a terra, pois, ao contrário, muito facilmente a
humanidade será por ela imolada.
No serviço de
construções teve lugar o meu primeiro encontro com os sociais-democratas. Logo
de começo, não foi muito agradável. Minhas roupas ainda estavam em ordem, minha
linguagem era cuidada, minha vida comedida. Tinha tanto que lutar com a minha
sorte que pouco podia cuidar do que me cercava. Só procurava trabalho para não
passar fome e para ter a possibilidade de continuar, mesmo lentamente, a minha
educação. Talvez eu não me tivesse absolutamente preocupado com o novo meio em
que me achava, se, 1á no terceiro ou quarto dia, não se tivesse dado um fato que
me forçou a tomar imediatamente uma posição definida: fui intimado a entrar no
sindicato.
Meus conhecimentos sobre organização
sindical eram então quase nulos. Nem a sua utilidade nem a sua inutilidade podia
eu aquilatar. Quando me esclareceram que eu deveria entrar, recusei-me.
Fundamentava a minha resolução com a razão de que eu não entendia do assunto e
que, sobretudo, não me deixava levar à força para parte alguma. Talvez fosse a
primeira a razão por que não me puseram imediatamente na rua. Talvez esperassem
que, dentro de alguns dias, eu estivesse convertido ou pelo menos mais
dócil.
Haviam-se enganado
radicalmente.
Depois de quatorze dias, eu não
poderia mais entrar para o sindicato, mesmo que o tivesse desejado. Nestes
quatorze dias, pude conhecer de mais perto os que me cercavam, de modo que
nenhuma força do mundo poderia mais arrastar-me a uma organização, cujos esteios
me apareceram sob uma luz tão desfavorável.
Nos
primeiros dias fiquei indignado. Ao meio-dia, uma
parte dos operários ia para a estalagem próxima, enquanto a outra ficava no
local da- construção e aí tinha o seu magro almoço. Estes eram casados, para os
quais as mulheres, em miseráveis vasilhas, traziam a sopa do meio-dia. Para o
fim da semana, o número desses era sempre maior. A razão disso só mais tarde
compreendi.
Então conversava-se política.
Eu bebia minha garrafa de leite e comia o meu
pedaço de pão, conservando-me sempre afastado, e estudava com atenção meus novos
conhecidos ou refletia sobre a minha triste sorte. Não obstante isso, ouvia mais
do que o suficiente. Pareceu-me freqüentemente que se aproximavam de mim de
propósito para me forçarem a tomar uma posição. Em todo caso, como vim a saber,
isso visava o efeito de me provocar.
Ali tudo
se negava: a nação era uma invenção das classes capitalistas (que número
infinito de vezes ouvi essa palavra!); a Pátria era um instrumento da burguesia
para exploração das massas trabalhadoras; a autoridade da lei era simples meio
de opressão do proletariado; a escola era instituto de cultura do material
escravo e mantenedor da escravidão; a religião era vista como meio de atemorizar
o povo para melhor exploração do mesmo; a moral não passava de uma prova da
estúpida paciência de carneiro do povo. Não havia nada, por mais puro, que não
fosse arrastado na lama mais asquerosa.
De
começo, tentei manter-me em silêncio. Por fim, não podia mais. Comecei a tomar
posição, comecei a contraditar. Então passei a compreendei- que essa oposição de
nada valia, enquanto eu não possuísse conhecimentos seguros sobre os pontos
debatidos. Comecei a pesquisar nas próprias fontes, de onde eles extraíam a sua
fictícia sabedoria. Li livros sobre livros, brochuras sobre brochuras. No local
do serviço, as coisas chegavam freqüentemente à exaltação. Eu discutia cada vez
melhor, até que um dia foi empregado um meio que facilmente levava de vencida a
razão: o terror, a força. Alguns dos defensores do lado contrário intimaram-me a
abandonar a construção imediatamente ou a ser jogado do andaime. Como estava
sozinho e a resistência seria impossível, preferi seguir o primeiro alvitre,
adquirindo assim mais uma experiência.
Saí,
enojado, mas, ao mesmo tempo, tão impressionado que já agora seria inteiramente
impossível para mim abandonar a questão. Não. Depois da eclosão da primeira
revolta, a obstinação de novo venceu. Estava firmemente resolvido a voltar,
apesar de tudo para outro serviço de construção. Essa decisão foi fortalecida
pela situação precária em que me encontrei algumas semanas mais tarde, depois de
gastar as pequenas economias. Não me restava outra saída, quer eu quisesse quer
não. E cena idêntica desenrolou-se, para acabar da mesma forma que a
primeira.
Travou-se uma luta no meu íntimo, que
se define nesta pergunta: isso é gente digna de pertencer a um grande
povo?
Eis uma pergunta angustiosa. Se a
respondermos afirmativamente, a luta por uma nacionalidade merecerá os trabalhos
e os sacrifícios que os melhores fazem por um tal rebotalho? Se a resposta for
negativa, então o nosso povo já está muito pobre em
homens.
Com desânimo inquietador via eu,
naqueles dias críticos e atormentados, a massa, que já não pertencia a seu povo,
tornar-se um exército ameaçador.
Com que
sentimentos diferentes fitava, então, as filas sem fim dos trabalhadores
vienenses em um dia de demonstração coletiva! Durante quase duas horas, de pé,
um dia, observei, com a respiração suspensa, a monstruosa onda humana que rolava
lentamente. Tomado de um desânimo inquieto, abandonei a praça e dirigi-me para
casa. No caminho, vi em uma tabacaria o "Arbeiterzeitung", órgão central da
antiga social-democracia. Em um café popular, que eu freqüentava constantemente
a fim de ler os jornais, esse periódico também era exposto à venda. Eu não
podia, porém, fazer o sacrifício de passar uma vista por mais de dois minutos na
folha infame, que, para mim, tinha o efeito do
vitríolo.
Debaixo da acabrunhadora impressão
que a demonstração coletiva havia produzido, senti uma voz íntima que me
incitava a comprar o jornal e lê-lo inteiramente. À noite tratei disso, vencendo
a crescente repulsa que sempre experimentava ao ver essa torneira de mentiras
concentradas. Melhor do que em toda a literatura teórica, pude, pela leitura
diária da imprensa social-democrática, estudar a essência do movimento e o curso
das suas idéias.
Que diferença entre as
cintilantes frases de liberdade, beleza e dignidade da literatura teórica, entre
o fogo-fátuo do palavrório que, laboriosamente, aparenta a mais profunda e
irresistível sabedoria, pregada com uma segurança profética, e a brutal
virtuosidade da mentira da imprensa diária que trabalhava pela salvação da nova
humanidade sem recuar ante nenhuma objeção, usando de todos os recursos da
calúnia!
Uma é destinada aos estúpidos das
camadas intelectuais médias e superiores, a outra às
massas.
A meditação sobre a literatura e a
imprensa dessa doutrinação, servia-me para descobrir de novo a minha
gente.
O que, a princípio, me parecia um abismo
intransponível, devia tornar-se motivo para amar cada vez mais o meu
povo.
Só um louco poderia, depois de conhecer
esse monstruoso trabalho de envenenamento, condenar ainda as vítimas do mesmo.
Quanto mais independente eu me tornava nos anos seguintes, tanto mais longe
alcançava a minha vista as causas íntimas do êxito da social-democracia. Então
compreendendo a significação da exigência brutal feita ao operário para só ler
jornais vermelhos, só freqüentar assembléias vermelhas, só ler livros vermelhos,
etc., vi, muito claro, os efeitos violentos dessa doutrinação da
intolerância.
A psique das massas é de natureza
a não se deixar influenciar per meias medidas, por atos de
fraqueza.
Assim como as mulheres, cuja
receptividade mental é determinada menos por motivos de ordem abstrata do que
por uma indefinível necessidade sentimental de uma força que as complete e, que,
por isso preferem curvar-se aos fortes a dominar os fracos, assim também as
massas gostam mais dos que mandam do que dos que pedem e sentem-se mais
satisfeitas com uma doutrina que não tolera nenhuma outra do que com a tolerante
largueza do liberalismo. Elas não sabem o que fazer da liberdade e, por isso,
facilmente sentem-se abandonadas.
A impudência
do terrorismo espiritual passa-lhes despercebida, assim como os crescentes
atentados contra a sua liberdade que as deveriam levar à revolta. Elas não se
apercebem, de nenhum modo, dos erros intrínsecos dessa doutrinação. Elas vêem
apenas a força incontrastável e a brutalidade de suas resolutas manifestações
externas, ante as quais sempre se curvam.
Se
uma doutrina que encerrasse mais inveracidade ao lado de idêntica brutalidade na
propaganda, fosse oposta à social-democracia, triunfaria, do mesmo modo, por
mais áspera que fosse a luta.
Em menos de dois
anos, não só a doutrina da social-democracia mas também o seu emprego como
instrumento prático, tornaram-se-me claros.
Eu
compreendi o infame terror espiritual que esse movimento exerce especialmente
sobre a burguesia.
A um dado sinal, os seus
propagandistas lançam um chuveiro de mentiras e calúnias contra o adversário que
lhes parece mais perigoso, até que se rompam os nervos dos agredidos que, para
terem tranqüilidade, se rendem ao inimigo.
Mas
é do destino dos tolos nunca alcançarem o
sossego.
O jogo recomeça e repete-se inúmeras
vozes, até que o pavor ante os monstros selvagens provoca uma significativa
imobilidade do adversário.
Como a social
democracia, por experiência própria, conhece muito bem o valor da força,
lança-se mais violentamente contra aqueles em cuja individualidade descobre
algum sistema de resistência. Por outro lado, incensa todos os fracos do lado
oposto, a princípio cautelosamente e depois abertamente, conforme essas
qualidades morais sejam reais ou
imaginárias.
Eles receiam menos um gênio
impotente e sem vontade do que uma natureza forte, mesmo intelectualmente
modesta.
A social-democracia se recomenda
sobretudo aos fracos de espírito e de
caráter.
Esse partido sabe aparentar que só ele
conhece o segredo da paz e tranqüilidade, enquanto, cautelosamente mas de
maneira decidida, conquista uma posição depois da outra, ora por meio de
discreta pressão, ora através de requintadas escamoteações em momentos em que a
atenção geral está dirigida para outros assuntos, não quer por ele ser
despertada ou tem a oportunidade como não merecendo grande interesses ou receia
provocar o perverso adversário.
Essa é uma
tática que, tendo em conta exatamente tidas as fraquezas humanas, é coroada de
êxito matemático, quando o adversário não aprende a usar gás venenoso contra gás
venenoso, isto é, as mesmas armas do
agressor.
É preciso que se diga às naturezas
fracas que se trata de uma luta de vida ou de
morte.
Não menos compreensível para mim
tornou-se a significação do terror material em relação aos indivíduos e às
massas.
Aqui também havia um cálculo exato de
atuação psicológica. O terror nos lugares de trabalho, nas fábricas, nos locais
de reunião e por ocasião das demonstrações coletivas, era sempre coroado de
êxito, enquanto um terror maior não se lhe
opunha.
Quando acontece essa última hipótese, o
partido, em gritos de pavor, embora habituado a desrespeitar a autoridade do
Estado, em altos berros pedirá seu auxílio, para, na maioria dos casos, no meio
da confusão geral, alcançar o seu verdadeiro objetivo, isto é: encontrar
covardes autoridades que, na tímida esperança de poder de futuro contar com o
temível adversário, auxiliem-no a combater o
inimigo.
Que impressão um tal êxito exerce
sobre o espírito das vastas massas e dos seus adeptos, assim como sobre o
vencedor, só pode avaliar quem conhece a alma do povo, não através de livros mas
pelo estudo da própria vida, pois, enquanto, no círculo dos vencedores, o
triunfo alcançado é tido como uma vitória do direito de sua causa, o adversário
batido, na maioria dos casos, duvida do êxito de uma outra
resistência.
Quanto melhor eu conhecia os
métodos da violência material, tanto mais me inclinava a desculpar as centenas
de milhares de proletários que cediam ante a força
bruta.
A compreensão desse fato devo
principalmente aos meus antigos tempos de sofrimentos, os quais me fizeram
entender o meu povo e fazer a diferença entre as vítimas e os seus
condutores.
Como vítimas devem ser vistos os
que foram submetidos a essa situação corruptora. Quando eu me esforçava por
estudar, na vida real, a natureza íntima dessas camadas "inferiores", não podia
delas fazer uma idéia justa, sem a segurança de que, nesse meio, também
encontrava qualidades recomendáveis, como sejam capacidade de sacrifício, fiel
camaradagem, extraordinária sobriedade, discreta modéstia, virtudes essas muito
comuns, sobretudo nos antigos sindicatos. Se é verdade que essas virtudes se
diluíam cada vez mais nas novas gerações, sob a atuação das grandes cidades,
incontestável é também que muitas conseguiam triunfar sobre as vilezas comuns da
vida. Se esses homens, bons e bravos, na sua atividade política, entravam nas
fileiras dos inimigos do nosso povo e a estes auxiliavam, era porque não
compreendiam e nem podiam compreender a vileza da nova doutrina ou porque, em
ultima ratio, as injunções sociais eram mais fortes do que todas as vontades em
contrário. As contingências da vida a que, de um modo ou de outro, estavam
fatalmente sujeitos, faziam-nos entrar no acampamento da
social-democracia.
Como a burguesia, inúmeras
vezes, da maneira mais inepta e também a mais imoral, fazia frente às mais
justas aspirações coletivas, sem muitas vezes retirar ou esperar retirar
qualquer proveito de uma tal atitude, mesmo o mais ordeiro trabalhador saia da
organização sindical para tomar parte na atividade
política.
Milhões de proletários, na
intimidade, foram, sem dúvida, de começo, inimigos do partido
social-democrático. Foram, porém, derrotados na sua oposição pela conduta idiota
do partido burguês combatendo todas as reivindicações da massa dos
trabalhadores.
A impugnação cega da burguesia a
todos os ensaios por uma melhoria nas condições do trabalho, tais como um
aparelhamento de defesa contra as máquinas, a proteção ao trabalho das crianças
e a proteção da mulher, pelo menos nos últimos meses de gravidez, tudo isso
auxiliou a social-democracia a pegar as massas nas suas redes. Esse partido
sabia aproveitar todos os casos em que pudesse manifestar sentimentos de piedade
para com os oprimidos. Nunca mais poderá a nossa burguesia política reparar os
seus erros, pois, enquanto ela se opunha a todas as tentativas por uma remoção
dos males sociais, semeava ódio e justificava mesmo as afirmações dos inimigos
da nacionalidade, segundo as quais só o Partido Social Democrata defendia os
interesses das classes produtoras.
Aí estão as
razões morais da resistência dos sindicatos e os motivos por que prestaram os
melhores serviços àquele partido político.
Nos
meus anos de aprendizado em Viena fui forçado, quer quisesse quer não, a tomar
posição no problema dos sindicatos.
Como eu os
via como parte integral e indivisível do Partido Social Democrata, minha decisão
foi rápida e falsa.
Como era natural,
recusei-me a entrar para o sindicato.
Também
nesta importante questão foi a vida real que me serviu de
mestre.
O resultado foi uma reviravolta nos
meus primeiros julgamentos.
Aos vinte anos, já
fazia a diferença entre o sindicato como meio de defesa dos direitos sociais dos
empregados e de luta pela melhoria das condições de vida dos mesmos e o
sindicato como instrumento do partido na luta política de
classes.
Como a social-democracia compreendeu a
enorme significação do movimento sindicalista, assegurou para si a colaboração
desse instrumento e dai o seu êxito; como a burguesia não a compreendeu, isso
lhe custou a sua posição política. Na sua teimosa oposição, imaginou a burguesia
fazer parar uma evolução fatal e, na realidade, conseguiu apenas forçá-la a
tomar um caminho ilógico. Dizer-se que o movimento sindical em si é inimigo da
Pátria é uma idiotice, e além disso, uma inverdade. O contrário é que é a
verdade. Se uma atividade sindical tem como objetivo a melhoria de uma classe
que constitui uma das colunas mestras da nação e se esforça por realizá-lo, essa
atividade não só não se exerce contra a Pátria e o Estado mas, no verdadeiro
sentido da palavra, consulta os interesses nacionais. É fora de qualquer dúvida
que essa atuação auxilia a criar programas sociais, sem o que nem se deve pensar
em uma educação nacional coletiva. Esse movimento atinge seu maior mérito
quando, pelo combate aos cancros sociais existentes, ataca as causas das
moléstias do corpo e do espírito, contribuindo para a conservação da saúde do
povo. É ociosa a discussão sobre as vantagens dessas
agitações.
Enquanto, entre os que distribuírem
trabalho, houver homens que não compreendam a questão social ou possuam idéias
erradas de direito e de justiça, é não só direito mas dever dos por eles
empregados, - que aliás formam uma parte do nosso povo - proteger os interesses
da quase totalidade contra a avidez ou a irracionalidade de poucos, pois a
manutenção da fé na massa do povo é para o bem-estar da nação tão importante
quanto a conservação da sua saúde.
Ambos esses
interesses serão seriamente ameaçados pelos indignos empregadores que não têm os
mesmos sentimentos da coletividade, de que vivem divorciados. Devido à sua
condenável atitude, inspirada na ambição ou na intransigência, nuvens
ameaçadoras anunciam tempestades
futuras.
Remover as causas de uma tal evolução
é conquistar um mérito em relação à Pátria. Agir ao contrário é trabalhar contra
os interesses da nação.
Não se diga que cada um
tem independência suficiente para tirar todas as conclusões das injustiças reais
ou fictícias que lhe são feitas. Não, isso é hipocrisia e deve ser visto como
tentativa para desviar a atenção das soluções
justas.
A alternativa é a seguinte: evitar
acontecimentos nocivos à coletividade consulta ou não os interesses da nação? Na
primeira hipótese, a luta deve ser aceita com todas as armas que possam
assegurar o triunfo.
O trabalhador,
individualmente, não está nunca em condições de empenhar-se, com êxito, em uma
luta contra o poder do grande empregador. Nesse conflito não se trata do
problema da vitória do direito. Se assim fosse, o simples reconhecimento desse
direito faria cessar toda luta, pois desapareceria, em ambas as partes, o desejo
de combater. Trata-se, porém, de uma questão de força. Naquele caso, o
sentimento de justiça por si só faria terminar a luta de modo honroso, ou
melhor, nunca se chegaria a ela. Se atos indignos ou contrários aos interesses
sociais arrastam à -reação, a luta só poderá ser decidida em favor do lado mais
forte, salvo se a justiça se dispuser à solução desses
males.
Além disso, é evidente que o empregador,
apoiado na força concentrada de suas empresas, terá que enfrentar o corpo de
empregados, se não quiser ser compelido a perder, desde o início, qualquer
esperança de vitória.
Assim a organização
sindical pode produzir o fortalecimento dos ideais sociais por unia atuação mais
prática e, com isso, o afastamento de causas de irritação que sempre dão motivo
a descontentamentos e a queixas. Se isso não acontece deve-se em grande parte
àqueles que a todas as soluções legais das dificuldades do povo julgam opor
obstáculos ou impedi-las por meio de sua influência
política.
Enquanto a burguesia não compreendia
a significação da organização sindical, ou, melhor, não queria entendê-la, e
insistia em fazer-lhe oposição, a social-democracia punha-se ao lado do
movimento combatido.
Vendo longe, ela criou
para si uma base firme que nos momentos críticos, já lhe havia servido de último
esteio. A verdade, porém, é que a antiga finalidade era, pouco a pouco,
abandonada, para dar lugar a outros
objetivos.
A social-democracia nunca pensou em
solucionar os problemas reais do movimento
profissional.
Em poucas décadas, nas mãos
espertas da social-democracia, o movimento sindical de instrumento de defesa dos
direitos sociais passou a ser instrumento de destruição da economia
nacional.
Os interesses dos trabalhadores não
deveriam em nada obstar a sua ação, pois, politicamente, o emprego de meios de
compressão econômica sempre permite a extorsão e o exercício de violências a
toda hora, sempre que, de um lado, há a necessária falta de escrúpulos e, do
outro, a suficiente estupidez junta a uma paciência de cordeiro. E isso acontece
nos dois campos em luta.
Já no começo deste
século o movimento sindical, de há muito, havia deixado de servir ao seu
objetivo de outrora.
De ano a ano, ele, cada
vez mais, caía nas mãos dos políticos da social-democracia, para, por fim, ser
utilizado apenas como pára-choque na luta de classes. Em conseqüência de
permanentes conflitos deveria, finalmente, levar à ruína toda a organização
econômica, pacientemente construída, arrastando o edifício do Estado à mesma
sorte, pela destruição de suas fundações
econômicas.
Cogitava-se cada vez menos da
defesa de todos os interesses reais do proletariado, até chegar-se à conclusão
de que a prudência política considerava como não aconselhável melhorar as
condições sociais e culturais das grandes massas, pois, ao contrário, corria-se
o perigo de que essas, tendo seus desejos satisfeitos, não mais poderiam ser
eternamente utilizadas como tropas de combate facilmente
manejáveis.
Essa evolução atemorizou de tal
maneira os guias da luta de classes que eles, por fim, se opuseram a todas as
salutares reformas sociais e, da maneira mais decidida, tomaram posição de
combate às mesmas.
Na justificação dos
fundamentos dessa atitude negativa e incompreensível nada deviam
recear.
No campo burguês estava se
escandalizado com essa visível falta de sinceridade da tática da social
democracia, sem que, porém, dai se tirassem as mínimas conclusões para um
acertado plano de ação. Justamente o receio da social-democracia diante de cada
melhoria real da situação do proletariado em relação à profundidade de sua até
então miséria cultural e social, talvez tivesse concorrido a arrancar esse
instrumento das mãos dos representantes de
classes
Isso não aconteceu, porém. Em vez de
tomar a ofensiva, a burguesia deixou apertar-se cada vez mais o cerco em torno
de si para, enfim, adotar providências inadequadas que, por muito tardias,
tornaram-se sem eficiência, e, por isso mesmo, eram facilmente repelidas. Assim
ficou tudo como antes, apenas o descontentamento tornou-se cada vez
maior.
Os "sindicatos independentes", como uma
nuvem tempestuosa, obscureciam o horizonte político, ameaçando também a
existência dos indivíduos. Essas organizações se transformaram no mais temível
instrumento de terror contra a segurança e independência da economia nacional, a
solidez do Estado e a liberdade dos
indivíduos.
Foram eles, sobretudo, que
transformaram a concepção da democracia em uma frase asquerosa e ridícula, que
profanava a liberdade e escarnecia, de maneira imperecível, da fraternidade,
nesta proposição: "Se não quiseres ser dos nossos, nós te arrebentaremos a
cabeça".
Assim começava eu a conhecer esses
inimigos do "gênero humano".
No decurso dos
anos, a opinião sobre eles desenvolveu-se e aprofundou-se, sem modificar-se,
porém.
Quanto mais eu estudava o aspecto
exterior da social-democracia, tanto mais crescia o desejo de penetrar na
estrutura íntima dessa doutrina.
A literatura
oficial do Partido de pouca utilidade me poderia ser na realização desse
objetivo. Ela é, no que diz respeito a questões econômicas, falsa nas suas
afirmações e conclusões e mentirosa quanto à finalidade
política.
Daí a razão por que eu me sentia, de
coração, afastado dos novos modos de expressão da eterna rabulice política e da
sua maneira de descrever as coisas.
Com um
inconcebível luxo de palavras de significação obscura, gaguejavam sentenças que
deveriam ser ricas de pensamento como eram falhas de
senso.
Só a decadência dos nossos intelectuais
das grandes cidades poderia, neste labirinto da razão, sentir-se
confortavelmente, para, no nevoeiro deste dadaismo literário, compreender a
"vida íntima", apoiado na proverbial inclinação de uma parte do nosso povo, para
sempre farejar a sabedoria profunda no meio dos paradoxos
pessoais.
Enquanto eu, na realidade de suas
demonstrações, pesava todas as mentiras e desatinos teóricos dessa doutrina,
chegava, pouco a pouco, a uma compreensão mais clara da sua
vontade.
Nestas horas apoderavam-se de mim
idéias tristes e maus presságios. Vi diante de mim uma doutrina, constituída de
egoísmo e de ódio, que, por leis matemáticas, poderá ser levada à vitória mas
arrastará a humanidade à ruína.
Nesse ínterim,
eu já tinha compreendido a ligação entre essa doutrina de destruição e o caráter
de uma certa raça para mim até então
desconhecida.
Só o conhecimento dos judeus
ofereceu-me a chave para a compreensão dos propósitos íntimos e, por isso, reais
da social-democracia. Quem conhece este povo vê cair-se-lhe dos olhos o véu que
impedia descobrir as concepções falsas sobre a finalidade e o sentido deste
partido e, do nevoeiro do palavreado de sua propaganda, de dentes arreganhados,
vê aparecer a caricatura do marxismo.
Hoje é-me
difícil, senão impossível, dizer quando a palavra judeu pela primeira vez foi
objeto de minhas reflexões. Na casa paterna, durante a vida de meu pai, não me
lembro de tê-la ouvido. Creio que ele já via nessa palavra a expressão de uma
cultura retrógrada. No curso de sua vida, ele chegou a uma concepção mais ou
menos cosmopolita do mundo combinada a um nacionalismo radical que, também,
exercia seus efeitos sobre mim.
Na escola
também não encontrei oportunidade que me pudesse levar a uma modificação desse
modo de encarar as coisas, que me havia transmitido meu
pai.
É verdade que, na escola profissional, eu
havia conhecido um jovem judeu que era tratado por nós com certa prevenção, mas
isso somente porque não tínhamos confiança nele, devido ao seu todo taciturno e
a vários fatos que nos haviam escarmentado. Nem a mim nem aos outros despertou
isso quaisquer reflexões.
Só dos meus quatorze
para os quinze anos deparei freqüentemente com a palavra judeu, ligada em parte
a conversas sobre assuntos políticos. Sentia contra isso uma ligeira repulsa e
não podia evitar essa impressão desagradável que, aliás, sempre se apoderava de
mim quando discussões religiosas se travavam na minha
presença.
Nesse tempo eu não via a questão sob
qualquer outro aspecto.
Em Linz havia muito
poucos judeus. Com o decorrer dos séculos, o aspecto do judeu se havia
europeizado e ele se tornara parecido com gente. Eu os tinha por alemães, Não me
era possível compreender o erro desse julgamento, porque o único traço
diferencial que neles via era o aspecto religioso diferente do nosso. Minha
condenação a manifestações contrárias a eles, a perseguição que se lhes movia,
por motivos de religião como eu acreditava, levavam-me à irritação, Eu não
pensava absolutamente na existência de um plano regular de combate aos
judeus.
Com essas idéias vim para
Viena.
Absorvido pela avalancha de impressões
que a arquitetura despertava, abatido pelo peso da minha própria sorte, eu não
tinha olhos para observar a estrutura da população da grande
cidade.
Embora Viena, já naquele tempo,
possuísse duzentos mil judeus em uma população de dois milhões, não me apercebi
desse fato. Nas primeiras semanas, os meus sentidos não puderam abarcar o
conjunto de tantos valores e idéias novas. Só depois que, pouco a pouco, a
serenidade voltou e as imagens confusas dos primeiros tempos começaram a
esclarecer-se, é que mais acuradamente pude ver em torno de mim o novo mundo que
me cercava e, então, deparei também com o problema
judaico.
Não quero afirmar que a maneira por
que eu os conheci me tenha sido particularmente agradável. Eu só via no judeu o
lado religioso. Por isso, por uma questão de tolerância, considerava injusta a
sua condenação por motivos religiosos. O tom, sobretudo da imprensa
anti-semítica de Viena, parecia me indigno das tradições de cultura de um grande
povo, Causava-me mal-estar a lembrança de certos fatos da Idade Média, cuja
reprodução não desejava ver. Como esses jornais não valiam grande coisa - e a
razão disso eu então não conhecia - via neles mais o produto de mesquinha inveja
do que o resultado de uma questão de princípios, embora
falsos.
Fortaleci-me nessa maneira de pensar
pela forma infinitamente mais digna (assim pensava eu então) por que a grande
imprensa respondia a todos esses ataques ou - o que me parecia de mais mérito
ainda pelo silêncio de morte em que se
mantinha.
Lia com fervor a chamada grande
imprensa ("Neue Freie Presse", "Wiener Tageblatt", etc.) e ficava admirado ante
a extensão dos assuntos que oferecia ao leitor assim como diante da objetividade
das suas manifestações em cada caso particular. Apreciava o seu estilo elegante,
distinto. Os exageros de forma não me agradavam,
chocavam-me.
Porque eu tenha visto Viena assim,
apresento como desculpa o esclarecimento que me dei a mim
mesmo.
O que repetidamente me causava
repugnância era a maneira indigna pela qual a imprensa bajulava a
corte.
Não havia acontecimento na corte que não
fosse comunicado aos leitores em tom do mais intenso entusiasmo ou da mais
lamurienta consternação, prática essa que, mesmo tratando-se do "mais sábio
monarca" de todos os tempos, podia ser comparada aos excessos incontidos de um
galo silvestre.
Isso me parecia exagerado e era
por mim visto como uma mancha para a Democracia liberal.
Pretender as graças desta corte e de maneira
tão indigna era o mesmo que trair a dignidade da
nação.
Esta foi a primeira sombra que devia
perturbar as minhas afinidades espirituais com a grande imprensa de
Viena.
Como sempre, também em Viena, eu
acompanhava todos os acontecimentos da Alemanha com o maior ardor, quer se
tratasse de questões políticas ou de problemas
culturais.
Com uma admiração a que se juntava o
maior orgulho, eu comparava a elevação do Reich com a decadência do Estado
austríaco, Enquanto os acontecimentos da política externa, na sua maior parte,
provocavam geral contentamento, a política interna freqüentemente dava margem a
sombrias aflições. A campanha que, naquele tempo, se movia contra Guilherme II,
não tinha a minha aprovação, Nele eu não via só o Imperador dos Alemães mas
também o criador da frota alemã. A imposição feita pelo Reichstag de não
permitir ao Kaiser fazer discursos indignava-me de modo tão extraordinário,
porque essa proibição partia de uma fonte que, aos meus olhos, nenhuma
autoridade possuía, atendendo a que, em um só período de sessão, esses gansos do
parlamento haviam grassitado mais idiotices do que o poderia fazer, durante
séculos, uma inteira dinastia de imperadores, dado o seu muito menor
número.
Eu me encolerizava com o fato de, em um
país em que qualquer imbecil não só reivindicava para si o direito de crítica
mas, no Parlamento, tinha até a permissão de decretar leis para a Pátria, o
detentor da coroa imperial pudesse receber admoestações da mais superficial das
instituições de palavrório de todos os
tempos.
Irritava-me ainda mais com o fato de
ver que a mesma imprensa "vienense" que, diante de um cavalo da corte, se
desfazia nas mais respeitosas mesuras a um acidental movimento da cauda do
mesmo, aparentando cuidados que para mim não passavam de mal encoberta maldade,
pudesse exprimir o seu pensamento contra o imperador dos
alemães!
Em tais casos o sangue me subia à
cabeça.
Foi isso o que, pouco a pouco, me fez
olhar com mais atenção a grande imprensa.
Fui
forçado a reconhecer uma vez que um dos jornais anti-semíticos, o "Deutsche
Volksblatt", em uma oportunidade idêntica, portara se de maneira mais
decente.
O que também me enervava era a nojenta
bajulação com que a grande imprensa se referia à
França.
Éramos forçados a nos envergonhar de
sermos alemães quando nos chegavam aos ouvidos esses açucarados hinos de louvor
à "grande nação da cultura".
Essa lastimável
galomania mais de uma vez me levou a deixar cair das mãos um desses grandes
jornais.
Freqüentemente, procurava o
"Volksblatt" que, apesar de muito menor, parecia-me mais limpo nesses
assuntos.
Não concordava com a sua atitude
radicalmente anti-semítica, mas, de vez em quando, eu encontrava argumentações
que me faziam refletir.
De qualquer modo, por
meio de "Volksblatt", eu pude conhecer aos poucos o homem e o movimento de que
dependiam a sorte de Viena: o Dr. Karl Lueger e o Partido Social
Cristão.
Quando vim para Viena era francamente
contrário a ambos.
O movimento e o seu líder me
pareciam reacionários.
O habitual sentimento de
justiça deveria, porém, modificar esse julgamento, à proporção que se me
oferecia oportunidade de conhecer o homem e a sua atuação. Com o tempo,
tornei-me de franco entusiasmo por ele. Hoje, vejo-o, mais do que antes, como o
mais forte burgo-mestre alemão de todos os
tempos,
Quantas de minhas arraigadas convicções
caíram por terra com essa mudança de modo de ver a respeito do movimento
social-cristão!
A minha maior metamorfose foi,
porém, a que experimentei em relação ao movimento
anti-semítico.
Isso me custou, durante meses,
as maiores lutas íntimas, entre os meus sentimentos e as minhas idéias, luta em
que as idéias acabaram por triunfar.
Por
ocasião dessa áspera luta entre a educação sentimental e a razão pura, a
observação da vida de Viena prestou-me serviços
inestimáveis.
Eu já não errava pelas ruas da
importante cidade como um cego que nada vê. Com os olhos bem abertos, observava
não mais somente os monumentos arquitetônicos mas também os
homens.
Um dia em que passeava pelas ruas
centrais da cidade, subitamente deparei com um indivíduo vestido em longo caftan
e tendo pendidos da cabeça longos caches
pretos.
Meu primeiro pensamento foi: isso é um
judeu?
Em Linz eles não tinham as
características externas da raça.
Observei o
homem, disfarçada mas cuidadosamente, e quanto mais eu contemplava aquela
estranha figura, examinando-a traço por traço, mais me perguntava a mim mesmo:
isso é também um alemão?
Como acontecia sempre
em tais ocasiões, tentei remover as minhas dúvidas recorrendo aos livros. Pela
primeira vez na minha vida, comprei, por poucos pfennigs, alguns panfletos
anti-semíticos. Infelizmente, todos partiam do ponto de vista de já ter o leitor
algum conhecimento da questão semítica. O tom da maior parte desses folhetos era
tal que, de novo, fiquei em dúvida. As suas afirmações eram apoiadas em
argumentos tão superficiais e anticientíficos que a ninguém
convenciam.
Durante semanas, talvez meses,
permaneci na situação primitiva. O assunto
parecia-me tão vasto, as acusações tão excessivas, que, torturado pelo receio de
fazer uma injustiça, de novo fiquei em um estado de incerteza e ansiedade.
Não me era lícito duvidar que, no caso, não se
tratava de uma questão religiosa, mas de raça, pois logo que comecei a estudar o
problema e a observar os judeus, Viena apareceu-me sob um aspecto diferente. Já
agora, para qualquer parte que me dirigisse, eu via judeus e quanto mais os
observava mais firmemente convencido ficava de que eles eram diferentes das
outras raças. Sobretudo no centro da cidade e na parte norte do canal do
Danúbio, notava-se um verdadeiro enxame de indivíduos que, por seu aspecto
exterior, em nada se pareciam com os alemães. Mesmo, porém, que me assaltassem
ainda algumas dúvidas, todas as hesitações se dissipavam em face da atitude de
uma parte dos judeus.
Surgiu entre eles um
grande movimento de vasta repercussão em Viena que muito concorreu para um juízo
seguro sobre o caráter racial dos judeus. esse movimento foi o
Sionismo.
Parecia, à primeira vista, que só uma
parte dos judeus aprovava essa atitude e que a grande maioria condenava aquele
princípio e o rejeitava decididamente. Após observação mais acurada,
verificava-se que essa aparência se traduzia em um misto de teorias, para não
dizer de mentiras, apresentadas por motivos tácitos, pois o chamado judeu
liberal rejeitava os pontos de vista dos sionistas, não porque esses fossem não
judeus mas porque eram judeus que pertenciam a um credo pouco prático e talvez
mesmo perigoso para o próprio judaísmo.
Essa
discórdia em nada alterava, porém, a solidariedade íntima entre os
adversários.
A luta aparente entre os sionistas
e os judeus liberais muito cedo me despertou nojo. Comecei a vê-la como
hipócrita, uma deslavada miséria, de começo a fim, e, sobretudo, indignada da
tão proclamada pureza moral desse povo.
De mais
a mais, essa pureza moral ou de qualquer outra natureza era uma questão
discutível. Que eles não eram amantes de banhos podia-se assegurar pela simples
aparência. Infelizmente não raro se chegava a essa conclusão até de olhos
fechados, Muitas vezes, posteriormente, senti náuseas ante o odor desses
indivíduos vestidos de caftan. A isso se acrescentem as roupas sujas e a
aparência acovardada e tem-se o retrato fiel da
raça.
Tudo isso não era de molde a atrair
simpatia. Quando, porém, ao lado dessa imundície física, se descobrissem as
nódoas morais, maior seria a repugnância.
Nada
se afirmou em mim tão depressa como a compreensão, cada vez mais completa, da
maneira de agir dos judeus em determinados
assuntos.
Poderia haver uma sujidade, uma
impudência de qualquer natureza na vida cultural da nação em que, pelo menos um
judeu, não estivesse envolvido?
Quem,
cautelosamente, abrisse o tumor haveria de encontrar, protegido contra as
surpresas da luz, algum judeuzinho. Isso é tão fatal como a existência de vermes
nos corpos putrefatos.
O judaísmo provocou em
mim forte repulsa quando consegui conhecer suas atividades, na imprensa, na
arte, na literatura e no teatro.
Protestos
moles já não podiam ser aplicados. Bastava que se examinassem os seus cartazes e
se conhecessem os nomes dos responsáveis intelectuais pelas monstruosas
invenções no cinema e no drama, nas quais se reconhecia o dedo do judeu, para
que se ficasse por muito tempo revoltado. Estava-se em face de uma peste, peste
espiritual, pior do que a devastadora epidemia de 1348, conhecida pelo nome de
Morte Negra. E essa praga estava sendo inoculada na
nação.
Quanto mais baixo é o nível intelectual
e moral desses industriais da Arte, tanto mais ilimitada é a sua atuação, pois
até os garotos, transformados, em verdadeiras máquinas, espalham essa sujeira
entre os seus camaradas. Reflita-se também no número ilimitado das pessoas
contagiadas por esse processo, Pense-se em que, para um gênio como Goethe, a
natureza lança no mundo dezenas de milhares desses escrevinhadores que,
portadores de bacilos da pior espécie, envenenam as
almas.
É horrível constatar, - mas essa
observação não deve ser desprezada.-.ser justamente o judeu que parece ter sido
escolhido pela natureza para essa ignominiosa
tarefa.
Dever-se-ia procurar na ignomínia dessa
missão o motivo de haver essa escolha recaído nos
judeus?
Comecei a estudar cuidadosamente os
nomes de todos os criadores dessas podridões artísticas fornecidas ao povo. O
resultado foi aumentar as minhas prevenções na atitude em relação aos judeus.
Por mais que isso contrariasse meus sentimentos, eu era arrastado pela razão a
tirar as minhas conclusões do que
observava.
Não se podia negar - porque era uma
realidade - o fato de correrem por conta dos judeus nove décimos da sordidez e
dos disparates da literatura, da arte e do teatro, fato esse tanto mais grave
quanto é sabido que esse povo representa um centésimo da população do
país.
Comecei também a examinar debaixo do
mesmo ponto de vista a grande imprensa de minha
predileção.
À proporção que o meu exame se
aprofundava diminuía o motivo de minha antiga admiração por essa imprensa. O
estilo desses jornais era insuportável, as idéias eu as repelia por superficiais
e banais e as afirmações pareciam aos meus olhos conter mais mentiras do que
verdades honestas. E os editores dessa imprensa eram
judeus!
Muitas coisas que até então quase me
passavam despercebidas agora me chamavam a atenção como dignas de ser
observadas, outras que já tinham sido objeto de minhas reflexões passaram a ser
melhor compreendidas.
Comecei a ver sob outra
luz as opiniões liberais desses periódicos. O tom de distinção das réplicas aos
ataques, assim como o seu completo silêncio em certos assuntos, revelavam-se
agora como truques inteligentes e vis. As suas brilhantes criticas teatrais
sempre favoreciam os autores judeus e as apreciações desfavoráveis só atingiam
os autores alemães.
Suas ligeiras alfinetadas
contra Guilherme II, assim como os elogios à cultura e à civilização francesa,
evidenciavam a persistência nos seus métodos. O conteúdo das novelas era de
repelente imoralidade e na linguagem via-se claramente o dedo de um povo
estrangeiro. O sentido geral dos seus escritos era tão evidentemente depreciador
de tudo quanto era alemão, que não se podia deixar de nisso ver uma intenção
deliberada.
Quem teria interesses nessa
campanha?
Seria tanta coincidência mero
acaso?
A dúvida foi crescendo em meu
espírito.
Essa evolução mental precipitou-se
com a observação de outros fatos, com o exame dos costumes e da moral seguidos
pela maior parte dos judeus.
Aqui ainda foi o
espetáculo das ruas de Viena que me proporcionou mais uma lição
prática.
As ligações dos judeus com a
prostituição e sobretudo com o tráfico branco podiam ser estudadas em Viena,
melhor do que em qualquer cidade da Europa ocidental, como exceção, talvez, dos
portos do sul da França.
Quem à noite passeasse
pelas ruas e becos de Viena seria, quer quisesse quer não, testemunha de fatos
que se conservaram ocultos a grande parte do povo alemão, até que a Guerra deu
aos lutadores oportunidade de poderem, ou melhor, de serem obrigados a assistir
a cenas semelhantes.
Quando, pela primeira vez,
vi o judeu envolvido, como dirigente frio, inteligente e sem escrúpulos, nessa
escandalosa exploração dos vícios do rebotalho da grande cidade, passou-me um
calafrio pelo corpo, logo seguido de um sentimento de profunda
revolta.
Então não mais evitei a discussão
sobre o problema semítico.
Como procurava
aprender a vida cultural e artística dos judeus sob todos os aspectos,
encontrei-os em uma atividade que jamais me tinha passado pela
mente.
Agora que me tinha assegurado de que os
judeus eram os líderes da social-democracia, comecei a ver tudo claro. A longa
luta que mantive comigo mesmo havia chegado ao seu ponto
final.
Nas relações diárias com os meus
companheiros de trabalho, já minha atenção tinha sido despertada pelas suas
surpreendentes mutações, a ponto de tomarem posições diferentes em torno de um
mesmo problema, no espaço de poucos dias e, às vezes, de poucas
horas.
Dificilmente eu podia compreender como
homens que, tomados isoladamente, possuem visão racional das coisas, perdem-na
de repente, logo que se põem em contato com as massa. Era motivo para duvidar de
seus propósitos.
Quando, depois de discussões
que duravam horas inteiras, eu me tinha convencido de haver afinal esclarecido
um erro e já exultava com a vitória, acontecia que, com pesar meu, no dia
seguinte, tinha de recomeçar o trabalho, pois tudo tinha sido debalde. Como um
pêndulo em movimento, que sempre volta para as mesmas posições, assim acontecia
com os erros combatidos, cuja reaparição era sempre
fatal.
Assim pude compreender: 1.° que eles não
estavam satisfeitos com a sorte que tão áspera lhes era; 2.° que odiavam os
empregadores que lhes pareciam os responsáveis por essa situação; 3.° que
injuriavam as autoridades que lhes pareciam indiferentes ante a sua deplorável
situação; 4.° que faziam demonstrações nas ruas sobre a questão dos preços dos
gêneros de primeira necessidade.
Tudo isso
podia-se ainda compreender, pondo-se a razão de lado. O que, porém, era
incompreensível era o ódio sem limites à sua própria nação, o achincalhamento
das suas grandezas, a profanação da sua história, o enlameamento dos seus
grandes homens.
Essa revolta contra a sua
própria espécie, contra a sua própria casa, contra o seu próprio torrão natal,
era sem sentido, inconcebível e contra a
natureza.
Durante dias, no máximo semanas,
conseguia-se livrá-los desse erro Quando, mais tarde, encontrávamos o pretenso
convertido, já os antigos erros de novo se haviam apoderado de seu espírito. A
monstruosidade tinha tomado posse de sua
vítima.
Pouco a pouco, compreendi que a
imprensa social-democrática era, na sua grande maioria, controlada pelos judeus.
Liguei pouca importância a esse fato que, aliás, se verificava com os outros
jornais. Havia, porém, um fato significativo: nenhum jornal em que os judeus
tinham ligações poderia ser considerado como genuinamente nacional, no sentido
em que eu, por influência de minha educação, entendia essa
palavra.
Vencendo a minha relutância, tentei
ler essa espécie de imprensa marxista, mas a repulsa por ela crescia cada vez
mais. Esforcei-me por conhecer mais de perto os autores dessa maroteira e
verifiquei que, a começar pelos editores, todos eram
judeus.
Examinei todos os panfletos
sociais-democráticos que pude conseguir e, invariavelmente, cheguei à mesma
conclusão: todos os editores eram judeus. Tomei nota dos nomes de quase todos os
líderes e, na sua grande maioria, eram do "povo escolhido", quer se tratasse de
membros do "Reichscrat", de secretários dos sindicatos, de presidentes de
associações ou de agitadores de rua. Em todos encontravam-se sempre a mesma
sinistra figura do judeu. Os nomes de Austerlitz, David, Adler, Ellenbogen etc.,
ficarão eternamente na minha memória.
Uma coisa
tornou-se clara para mim. Os líderes do Partido Social Democrata, com os
pequenos elementos do qual eu tinha estado em luta durante meses, eram quase
todos pertencentes a uma raça estrangeira, pois para minha satisfação íntima,
convenci-me de que o judeu não era alemão. Só então compreendi quais eram os
corruptores do povo.
Um ano de estadia em Viena
tinha sido suficiente para dar-me a certeza de que nenhum trabalhador deveria
persistir na teimosia de não se preocupar com a aquisição de um conhecimento
mais certo das condições sociais. Pouco a pouco, familiarizei-me com a sua
doutrina e dela me utilizava como instrumento para a formação de minhas
convicções íntimas.
Quase sempre a vitória se
decidia para o meu lado.
Todo esforço devia ser
tentado para salvar as massas, ainda com grandes sacrifícios de tempo e de
paciência.
Do lado dos judeus nenhuma esperança
havia, porém, de libertá-los de um modo de encarar as
coisas.
Nesse tempo, na minha ingenuidade de
jovem, acreditei poder evidenciar os erros da sua doutrina. No pequeno círculo
em que agia, esforçava-me, por todos os meios ao meu alcance, por convencê-los
da perniciosidade dos erros do marxismo e pensava atingir esse objetivo, mas o
contrário é o que acontecia sempre. Parecia que o exame cada vez mais profundo
da atuação deletéria das teorias sociais democráticas nas suas aplicações servia
apenas para tornar ainda mais firmes as decisões dos
judeus.
Quanto mais eu contendia com eles,
melhor aprendia a sua dialética. Partiam eles da crença na estupidez dos seus
adversários e quando isso não dava resultado fingiam-se eles mesmos de
estúpidos. Se falhavam esses recursos, eles se recusavam a entender o que se
lhes dizia e, de repente, pulavam para outro assunto, saíam-se com verdadeiros
truismos que, uma vez aceitos, tratavam de aplicar em casos inteiramente
diferentes. Então quando, de novo, eram apanhados no próprio terreno que lhes
era familiar, fingiam fraqueza e alegavam não possuir conhecimentos
preciosos.
Por onde quer que se pegassem esses
apóstolos, eles escapuliam como enguias das mãos dos adversários. Quando, um
deles, na presença de vários observadores, era derrotado tão completamente que
não tinha outra saída senão concordar, e que se pensava haver dado um passo para
a frente, experimentava-se a decepção de, no dia seguinte, ver o adversário
admirado de que assim se pensasse. O judeu esquecia inteiramente o que se lhe
havia dito na véspera e repetia os mesmos antigos absurdos, como se nada,
absolutamente nada, houvesse acontecido. Fingia-se encolerizado, surpreendido e,
sobretudo, esquecido de tudo, exceto de que o debate tinha terminado por
evidenciar a verdade de suas afirmações.
Eu
ficava pasmo.
Não se sabia o que mais admirar,
se a sua loquacidade, se o seu talento na arte de
mentir.
Gradualmente comecei a
odiá-los.
Tudo isso tinha, porém, um lado bom.
Nos círculos em que os adeptos, ou pelo menos os propagadores da
social-democracia, caíam sob as minhas vistas, crescia o meu amor pelo meu
próprio povo.
Quem poderia honestamente
anatematizar as infelizes vítimas desses corruptores do povo, depois de
conhecer-lhes as diabólicas habilidades?
Como
era difícil, até mesmo a mim, dominar a dialética de mentiras dessa
raça!
Quão impossível era qualquer êxito nas
discussões com homens que invertem todas as verdades, que negam descaradamente o
argumento ainda há pouco apresentado para, no minuto seguinte, reivindicá-lo
para si!
Quanto mais eu me aprofundava no
conhecimento da psicologia dos judeus, mais me via na obrigação de perdoar aos
trabalhadores.
Aos meus olhos, a culpa maior
não deve recair sobre os operários mas sim sobre todos aqueles que acham não
valer a pena compadecer-se da sua sorte, com estrita justiça dar aos filhos do
povo o que lhes é devido, mas poupar os que os desencaminham e
corrompem.
Levado pelas lições da experiência
de todos os dias, comecei a pesquisar as fontes da doutrina marxista. Em casos
individuais, a sua atuação me parecia clara. Diariamente, eu observava os seus
progressos e, com um pouco de imaginação, podia avaliar as suas conseqüências. A
Única questão a examinar era saber se os seus fundadores tinham presente no
espírito todos os resultados de sua invenção ou se eles mesmos eram vitimas de
um erro.
As duas hipóteses me pareciam
possíveis.
No primeiro caso, era dever de todo
ser pensante colocar-se à frente da reação contra esse desgraçado movimento,
para evitar que chegasse às suas extremas conseqüências; na segunda hipótese, os
criadores dessa epidemia coletiva deveriam ter sido espíritos verdadeiramente
diabólicos, pois só um cérebro de monstro - e não o de um homem - poderia
aceitar o plano de uma organização de tal porte, cujo objetivo final conduzirá à
destruição da cultura humana e à ruína do
mundo.
Nesse último caso, a solução que se
impunha, como última tábua de salvação, era a luta com todas as armas que
pudesse abraçar a razão e a vontade dos homens, mesmo se a sorte do combate
fosse duvidosa.
Assim comecei a entrar em
contato com os fundadores da doutrina a fim de poder estudar os princípios em
que se fundava o movimento marxista. Consegui esse objetivo mais depressa do que
me seria lícito supor, devido aos conhecimentos que possuía sobre a questão
semítica, embora ainda não muito profundos. Essa circunstância tornou possível
uma comparação prática entre as realidades do mesmo e as reivindicações teóricas
da social-democracia, que tanto me tinha auxiliado a entender os métodos verbais
do povo judeu, cuja principal preocupação é ocultar ou pelo menos disfarçar os
seus pensamentos. Seu objetivo real não está expresso nas linhas mas oculto nas
entrelinhas.
Foi por esse tempo que se operou
em mim a maior modificação de idéias que devia experimentar. De inoperante
cidadão do mundo passei a ser um fanático anti-semita. Mais uma vez ainda - e
agora pela última vez - pensamentos sombrios me arrastavam ao
desânimo.
Durante meus estudos sobre a
influência da nação judaica, através de longos períodos da história da
civilização, o tétrico problema se armou diante de mim não teria inescrutável
destino, por motivos ignorados por nós, pobres mortais, decretado a vitória
final dessa pequena nação?
A esse povo não
teria sido destinado o domínio da Terra como uma
recompensa?
À proporção que me aprofundava no
conhecimento da doutrina marxista e me esforçava por ter uma idéia mais clara
das atividades do marxismo, os próprios acontecimentos se encarregavam de dar
uma resposta àquelas dúvidas.
A doutrina
judaica do marxismo repele o princípio aristocrático na natureza. Contra o
privilégio eterno do poder e da força do indivíduo levanta o poder das massas e
o peso-morto do número. Nega o valor do indivíduo, combate a importância das
nacionalidades e das raças, anulando assim na humanidade a razão de sua
existência e de sua cultura. Por essa maneira de encarar o universo, conduziria
a humanidade a abandonar qualquer noção de ordem. E como nesse grande organismo,
só o caos poderia resultar da aplicação desses princípios, a ruína seria o
desfecho final para todos os habitantes da
Terra.
Se o judeu, com o auxilio do seu credo
marxista, conquistar as nações do mundo, a sua coroa de vitórias será a coroa
mortuária da raça humana e, então, o planeta vazio de homens, mais uma vez, como
há milhões de anos, errará pelo éter.
A
natureza sempre se vinga inexoravelmente de todas as usurpações contra o seu
domínio.
Por isso, acredito agora que ajo de
acordo com as prescrições do Criador Onipotente. Lutando contra o judaísmo,
estou realizando a obra de Deus.
CAPÍTULO III - REFLEXÕES GERAIS SOBRE A POLÍTICA DA ÉPOCA DE MINHA ESTADA EM
VIENA
Estou convencido de que, a menos que
se trate de indivíduos dotados de dons excepcionais, o homem, em geral, não se
deve ocupar, publicamente, de política, antes dos trinta anos de idade. Não o
deve, porque só então se realiza, o mais das vezes, a formação de uma base de
idéias, de acordo com a qual, ele examina os diferentes problemas políticos e
determina a sua atitude definitiva em relação aos mesmos. Só depois de adquirir
uma tal concepção fundamental e de alcançar, por meio dela, firmeza no- modo de
encarar as questões particulares do seu tempo, deve ou pode o homem,
intelectualmente amadurecido, tomar parte na direção da coisa
pública.
A não ser assim, corre ele o perigo de
um dia mudar de atitude sobre questões essenciais ou, contra as suas idéias e
sentimentos, permanecer fiel a uma maneira de ver desde muito tempo repelida
pela sua razão, pelas suas convicções. O primeiro caso, é, para o indivíduo
pessoalmente doloroso, porque, quem vacila não tem mais o direito de esperar que
a fé de seus adeptos tenha a inabalável firmeza que dantes tinha; e, para os
seus dirigidos, a fraqueza do chefe sempre se traduz em perplexidade e não raro
no sentimento de um certo vexame em face daqueles que até então combatiam. Em
segundo lugar, sobrevem o que. sobretudo hoje, é muito freqüente: à medida que o
chefe não dá mais crédito ao que ele próprio disse, a sua defesa torna-se mais
fraca e, por isso mesmo, vulgar quanto à escolha dos meios. Ao passo que ele
próprio não pensa mais em defender os seus pontos de vista políticos (ninguém
morre por aquilo em que não crê), as suas exigências junto aos seus partidários,
tornam-se proporcionalmente cada vez mais imprudentes até que, afinal, ele
sacrifica as suas últimas qualidades de chefe para converter-se num "político",
isto é, nesse tipo de homem cujo único sentimento verdadeiro é a falta de
sentimento, ao lado de uma arrogante impertinência e uma descarada arte de
mentir.
Se, por infelicidade dos homens
decentes, um sujeito desses chega ao Parlamento, deve saber-se desde logo que,
para ele, a essência da política consiste apenas numa luta heróica pela posse
duradoura de uma "mamadeira" para si e para a sua família. Quanto mais dependam
dele mulher e filhos, tanto mais aferradamente lutará pelo seu mandato. Qualquer
outro homem de verdadeiros instintos políticos é, por isso mesmo, seu inimigo
pessoal. Em qualquer novo movimento, fareja ele o possível começo do fim de sua
carreira, e em cada homem superior a probabilidade de um perigo que
ameaça.
Adiante, falarei mais detalhadamente
dessa espécie de percevejos parlamentares.
O
homem de trinta anos ainda terá de aprender muito, no curso de sua vida, mas
isso será apenas o complemento e acabamento do quadro doutrinário traçado pela
concepção por ele já aceita. Para ele, aprender não é mais mudar de método, mas
enriquecer os seus conhecimentos; e seus partidários não terão de suportar a
angústia de até então terem recebido dele ensinamentos errôneos, mas, ao
contrário, a evidente evolução do chefe lhes dará satisfação, porque o que este
aprende significa o aprofundamento da doutrina deles. E isso é uma prova da
justeza de suas intuições.
Um chefe político
que se vir na contingência de abandonar as suas idéias, reconhecendo-as como
falsas, só procederá com decência se, ao reconhecer a falsidade das mesmas,
estiver disposto a ir até às últimas conseqüências. Em tal caso, deve, no
mínimo, renunciar ao exercício público de uma futura atividade política. Porque,
tendo admitido o reconhecimento de um erro fundamental, fica aberta a
possibilidade de uma segunda descaída. De modo algum, pode mais pretender ou
exigir a confiança de seus concidadãos.
Atesta
quão pouco se atende hoje a esse decoro a vileza da canalha que, - por vezes, se
julga chamada a "fazer" política.
Da regra
geral quase ninguém escapa.
Outrora, sempre me
abstive de ingressar publicamente na vida pública, se bem que sempre me tivesse
preocupado com a política, mais que muitos outros. Só a círculos restritos
falava eu do que me impelia ou atraia. E o falar em pequenos grupos tinha, em
si, de certo modo, muita utilidade. No mínimo, eu aprendia a "falar" e com isso
a conhecer os homens nas maneiras de ver e de objetar, às vezes extremamente
simplistas. Assim, sem perder tempo nem oportunidade, aperfeiçoava o meu
espírito. A ocasião era, nesse tempo, em Viena, mais favorável do que em
qualquer parte da Alemanha.
As idéias políticas
em voga, na velha Monarquia do Danúbio, eram de mais interesses que na velha
Alemanha da mesma época, exceto em parte da Prússia, em Hamburgo e nas costas do
Mar do Norte. Sob a denominação de "Áustria" entendo nesse caso, o domínio do
grande Império dos Habsburgos, em que a população alemã era, sob todos os
aspectos, não somente o motivo histórico da formação daquele Estado, mas a força
que, por si só, durante séculos, tornara possível a formação cultural do país.
Quanto mais o tempo passava, mais dependiam da conservação dessa "célula mater"
a estabilidade e o futuro daquele Estado.
Os
velhos domínios hereditários eram o coração do Império, que sempre fornecia
sangue fresco à circulação da vida do Estado e da sua cultura. Viena era, então,
ao mesmo tempo, cérebro e vontade.
Só pelo seu
aspecto exterior, Viena se impunha como a rainha daquele conglomerado de povos.
A magnificência de sua beleza fazia esquecer o que ali havia de
mau.
Por mais violentamente que palpitasse o
Império, no interior, em sangrentas lutas das diferentes raças, o estrangeiro e,
em particular, os alemães, só viam, na Áustria, a imagem agradável de Viena.
Maior ainda era a ilusão porque, a esse tempo, Viena parecia ter atingido a sua
fase de maior prosperidade. Sob o governo de um burgomestre verdadeiramente
genial, despertava a venerável residência do soberano do velho Império, mais uma
vez, para uma vida maravilhosa. O último grande alemão, o criador do povo de
colonizadores da fronteira oriental, não era tido oficialmente entre os chamados
"estadistas". O Dr. Lueger, tendo prestado inauditos serviços como burgomestre
da "cabeça do Estado" e "cidade residência" (Viena), fazendo-a progredir, como
por encanto, em todos os domínios econômicos e culturais, fortalecera o coração
do Império, tornando-se assim, indiretamente, maior estadista que todos os
"diplomatas" de então reunidos.
Se o aglomerado
de povos a que se dá o nome de "Áustria" fracassou, isso nada quer dizer contra
a capacidade política do germanismo na antiga fronteira oriental, mas é o
resultado forçado da impossibilidade em que se encontravam dez milhões de
indivíduos de conservarem duradouramente um Estado de diferentes raças com
cinqüenta milhões de habitantes, a não ser que ocorressem na ocasião oportuna
determinadas circunstâncias favoráveis.
O
alemão austríaco teve que enfrentar um problema acima das suas possibilidades.
Ele sempre se acostumou a viver no quadro de um grande Estado e nunca perdeu o
sentimento inerente à sua missão histórica. Era o único, naquele Estado, que,
além das fronteiras do apertado domínio da coroa, via ainda as fronteiras do
Império. Quando, afinal o destino o separou da pátria comum, ele tentou tomar a
si a grandiosa tareia de tornar se senhor e conservar o germanismo que seus
pais, outrora, em infindos combates, haviam imposto ao leste. A propósito,
convêm não esquecer que isso aconteceu com forças divididas, pois, no espírito
dos melhores descendentes da raça alemã, nunca cessou a recordação da - pátria
comum de que a Áustria era uma parte.
O
horizonte geral do alemão-austríaco era proporcionalmente mais amplo. As suas
relações econômicas abrangiam quase todo o multiforme Império. Quase todas as
empresas verdadeiramente grandes se achavam em suas mãos e o pessoal dirigente,
técnicos e funcionários, era na maior parte colocado por ele. Era também o
detentor do comércio exterior em tudo o que o judaísmo ainda não havia posto a
mão, nesse campo de suas preferências. Só o alemão conservava o Estado
politicamente unido. Já o serviço militar o punha fora do lar. O recruta alemão
austríaco ingressaria talvez, de preferência, num regimento alemão, mas o
regimento poderia estar tanto na Herzegovina como em Viena ou na Galícia. o
corpo de oficiais era sempre alemão, prevalecendo sobre o alto funcionalismo.
Alemãs, finalmente, eram a arte e a ciência. Abstração feita do "kitsch" que é o
novo processo na Arte, cuja produção podia ser sem dúvida também de um povo de
negros, era só o alemão o possuidor e vulgarizador do verdadeiro sentimento
artístico. Em música, literatura, escultura e pintura, era Viena a fonte que
inesgotavelmente abastecia, sem cessar, toda a dupla
monarquia.
O germanismo era enfim o detentor de
toda a política externa, abs. traindo-se um pouco da
Hungria.
Portanto, era vã toda tentativa de
conservar o Império, Visto faltar, para isso, a condição
essencial.
Para o Estado de povos austríacos só
havia uma possibilidade: vencer as forças centrifugas das diferentes raças. O
Estado, ou tornava-se central e interiormente organizado, ou não podia
existir.
Em vários momentos de lucidez
nacional, essa idéia chegou às "altíssimas" esferas, para logo ser esquecida ou
ser posta de lado por inexeqüível. Todo pensamento de um reforço da Federação,
forçosamente teria de fracassar em conseqüência da falta de um núcleo estatal de
força predominante. A isso acrescentem-se as condições intrinsecamente
diferentes do Estado austríaco em face do Império alemão, segundo o conceito de
Bismarck. - Na Alemanha tratava-se apenas de vencer as tradições políticas, pois
sempre houve uma base comum cultural. Antes de tudo, possuía o Reich, à exceção
de pequenos fragmentos estranhos, um povo
único.
Inversa era a situação da
Áustria.
Lá a recordação da própria grandeza,
em cada raça, desapareceu inteiramente ou foi apagada pela esponja do tempo ou
pelo menos tornou-se confusa e indistinta. Por isso, desenvolveram-se, então, na
era dos princípios nacionalistas, as forças racistas. Vencê-las tornava-se
relativamente mais difícil, visto que, à margem da monarquia, começaram a
formar-se Estados nacionais, cujos - povos, racialmente aparentados ou iguais às
nações desmembradas, podiam exercer mais força de atração, ao contrário do que
acontecia com o austro-alemão.
A própria Viena
não podia resistir por muito tempo a essa
luta.
Com o desenvolvimento de Budapeste, que
se tornou grande cidade tinha ela, pela primeira vez, uma rival, cuja missão não
era mais a concentração de toda a monarquia, mas antes o fortalecimento de uma
parte da mesma. Dentro de pouco tempo, Praga seguiu o exemplo e depois Lemberg,
Laibach, etc. Com a elevação dessas cidades, outrora provincianas, a metrópoles
nacionais, formaram se núcleos culturais mais ou menos independentes. E dai as
tendências nacionalistas das diferentes raças. Assim devia aproximar-se o
momento em que as forças motrizes desses Estados seriam mais poderosas que a
força dos interesses comuns e, então, extinguir-se-ia a
Áustria.
Essa evolução tomou feição definida
depois da morte de José II, dependendo a sua rapidez de uma série de fatores em
parte inerentes à própria monarquia, mas que por outro lado eram o resultado da
atitude do Reich na política internacional de
então.
Se se pretendesse seriamente admitir a
possibilidade da conservação daquele Estado e lutar por ela, só se poderia ter
por objetivo uma centralização absoluta e obstinada. Depois, primeiro que tudo,
se devia acentuar, pela fixação de uma língua oficial una, a homogeneidade pura
e formal, cuja direção, porém, deteria nas mãos os expedientes técnicos, pois
sem isso não pode subsistir um Estado uno. Depois, com o tempo, tratar-se-ia de
desenvolver um sentimento nacional uno, por meio das escolas e da instrução.
Isso não se alcançaria em dez ou vinte anos, mas em séculos, pois em todas as
questões de colonização a pertinácia vale mais que a energia do
momento.
Compreende-se, sem maiores
explicações, que a administração, bem como a direção política, deveriam ser
conduzidas com a mais rigorosa unidade de
vistas.
Era para mim imensamente instrutivo
examinar porque isso não aconteceu, ou melhor, porque não se fez isso. O culpado
por essa omissão foi o culpado pelo desmoronamento do
Reich.
Mais que qualquer outro Estado estava a
antiga Áustria dependente da inteligência dos seus guias. A ela faltava o
fundamento do Estado nacional, que possui, na base racista, sempre uma força de
conservação.
O Estado racionalmente uno pode
suportar a natural inércia de seus habitantes (e a força de resistência a ela
inerente), a pior administração, a pior direção, por períodos de tempo
espantosamente longos, sem por isso subverter-se. Muitas vezes, tem-se a
impressão de que em tal corpo não há mais vida, é como se estivesse morto e bem
morto. De repente, o suposto cadáver se levanta e dá aos homens surpreendentes
sinais de sua força vital.
Assim não acontece
com um Estado composto de raças diferentes, mantido, não pelo sangue comum, mas
por um só pulso. Nesse caso, qualquer fraqueza na direção pode não só conduzir o
Estado à estagnação como dar causa ao despertar dos instintos individuais, que
sempre existem, sem que em tempo oportuno possa exercer-se uma vontade
predominante. Só por via de uma educação comum, durante séculos, por uma
tradição comum, por interesses comuns, pode esse perigo ser atenuado. Por isso,
tais formações estatais, quanto mais jovens, mais dependentes são da
superioridade da direção; e quando são obras de homens violentos ou de heróis
espirituais, logo desaparecem após a morte de seu grande fundador. Mas, mesmo
depois de séculos, esses perigos não devem ser considerados como vencidos;
apenas adormecem, para, às vezes, despertarem de repente, quando a fraqueza da
direção comum e a força da educação e a sublimidade de todas as tradições não
podem mais dominar o impulso da própria vitalidade das diferentes
raças.
Não ter compreendido isso é talvez a
culpa, de tão trágicas conseqüências, da casa dos
Habsburgos.
Só a um deles o destino apresentou
o fanal, que logo depois se apagou para sempre, do destino da sua
pátria.
José II, imperador católico-romano,
viu, angustiosamente, que, um dia, no redemoinho de uma Babilônia de povos que
se comprimiam à fronteira do Império, desapareceria a sua Casa, a não ser que, à
última hora, fossem sanados os descuidos dos antepassados. Com sobre-humana
força, o "amigo dos homens" tentou remediar a negligência de seus antecessores e
procurou recuperar em décadas o que se havia perdido em séculos. Se para a
realização de sua obra, ao menos duas gerações, depois dele, tivessem
continuado, com o mesmo afinco, a tarefa iniciada, provavelmente se teria
realizado o milagre. Mas quando, após dez anos de governo, faleceu, exausto de
corpo e de espírito, com ele caiu a sua obra no túmulo, para não mais despertar,
para adormecer para sempre na sepultura.
Os
seus sucessores não estavam à altura da tarefa, nem pela inteligência, nem pela
energia.
Quando, através da Europa, flamejavam
os primeiros sinais da tempestade revolucionária, começou também a Áustria a
pegar fogo, pouco a pouco. Quando, porém, o incêndio irrompeu afinal, já a
fogueira era atiçada menos por causas sociais ou políticas que por forças
impulsoras de origem racial.
Em outra parte
qualquer, a revolução de 1848 podia ser uma luta de classes, mas na Áustria já
era o começo de um novo conflito racial. Quando o alemão daquele tempo,
esquecendo ou não reconhecendo essa origem, se colocava a serviço da sublevação
revolucionária, traçava ele próprio o seu destino. Com isso auxiliava o
despertar do espírito da democracia ocidental, que, dentro de pouco tempo, teria
de subverter-se-lhe a base da própria
existência.
Com a formação de um corpo
representativo parlamentar, sem o prévio estabelecimento e fixação de uma língua
oficial, foi colocada a pedra fundamental do fim do domínio do germanismo na
monarquia dos Habsburgos. Desde esse momento, estava perdido também o próprio
Estado. O que se seguiu foi apenas a liquidação histórica de um
Império.
Era tão comovente quão instrutivo
acompanhar essa decomposição. Sob milhares de formas realizava-se aos poucos a
execução dessa sentença histórica. O fato de que parte dos homens se agitava às
cegas através dos acontecimentos prova apenas que estava na vontade dos deuses o
aniquilamento da Áustria.
Não desejo perder me
aqui em minúcias, pois esse não é o fim deste livro. Apenas quero incluir no
quadro geral de uma observação aqueles acontecimentos que, como causas sempre
invariáveis da decadência de povos e Estados, também têm significação para o
nosso tempo e finalmente se fazem sentir, em apoio dos fundamentos de meu
pensamento político.
Entre as instituições que,
aos olhos mesmo pouco perspicazes do cidadão comum, mais claramente podiam -
mostrar a decomposição da monarquia austríaca, estava, em primeiro lugar, aquela
que parecia dever procurar na força a razão de sua própria existência, isto é, o
Parlamento ou, como se dizia na Áustria, o Conselho do Império
("Reichsrat").
Evidentemente, o modelo dessa
corporação encontrava-se na Inglaterra, o país da "democracia" clássica. De lá
transportaram essa maldita instituição e estabeleceram-na em Viena, tanto quanto
possível sem modificá-la.
Na Abgeordnetenhaus e
na Herrenhaus, o sistema bicameral inglês festejava a sua ressurreição. As
"casas" eram, porém, algo diferentes. Quando, outrora, Barry fez surgir das
ondas do Tâmisa o seu palácio do Parlamento, mergulhou na História do Império
Britânico e retirou dela ornatos para os 1200 nichos, consolos e colunas de sua
monumental construção. Assim as Câmaras dos Comuns e dos Lordes se tornaram,
pelas suas esculturas e pinturas, o templo da glória
nacional.
Aí surgiu a primeira dificuldade para
Viena. Quando o dinamarquês Hansen acabava de colocar a última cumeeira da casa
de mármore para os novos representantes do povo, só lhe restava, para decoração,
recorrer a empréstimos à arte clássica. Os estadistas e filósofos gregos e
romanos embelezaram esse teatro da "democracia ocidental" e, com ironia
simbólica, avançam sobre as duas casas quadrigas em direção aos quatros pontos
cardeais, expressando melhor, dessa maneira, as tendências divergentes então
existentes no interior.
As várias raças
tomariam como ofensa e provocação que nessa obra se glorificasse a História da
Áustria, exatamente como no império Alemão foi preciso vir o ribombar das
batalhas da guerra mundial para que se ousasse consagrar ao povo alemão a obra
de Wallot - o Reichstag.
Quando, com menos de
20 anos de idade, penetrei no majestoso palácio de Franzensring, para assistir,
como ouvinte e espectador a uma sessão da Câmara dos Deputados, senti-me
possuído dos mais desencontrados
sentimentos.
Sempre odiei o Parlamento, mas não
a instituição em si. Ao contrário, como homem de sentimentos liberais, eu não
podia imaginar outra possibilidade de governo, pois a idéia de qualquer
ditadura, dada a minha atitude em relação à casa dos Habsburgos, seria
considerada um crime contra a liberdade e contra a
razão.
Não pouco contribuiu para isso uma certa
admiração pelo Parlamento inglês, que adquiri insensivelmente, devido à
abundante leitura de jornais de minha juventude - admiração que não poderia
perder facilmente. Causava-me enorme impressão a gravidade com que a Câmara dos
Comuns cumpria a sua missão (como de maneira tão atraente costuma descrever a
nossa imprensa). Poderia haver uma forma mais elevada de self .government de um
povo?
Justamente por isso é que eu era um
inimigo do Parlamento austríaco. Considerava a sua forma de atuação indigna do
grande modelo. Além disso, acrescia o
seguinte:
O destino do germanismo (Deutschtum)
no Estado Austríaco dependia de sua posição no Reichsrot. Até à introdução do
sufrágio universal e secreto, os alemães, no Parlamento, estavam em maioria,
embora pequena. Já esse estado de coisas era grave, pois não merecendo a
social-democracia a confiança nacional, esta, para não afugentar os adeptos não
alemães, era sempre, nas questões críticas referentes ao germanismo, contrária
às aspirações alemãs. Já naquela época a social-democracia não podia ser
considerada um partido alemão. Com a introdução do sufrágio universal cessou a
supremacia alemã, numericamente falando. Não havia, pois, nenhum empecilho no
caminho da futura desgermanização do Estado.
Já
naquele tempo, o instinto de conservação nacional fazia com que eu me sentisse
pouco inclinado pela representação popular, na qual a raça alemã, em vez de ser
representada, era sempre traída. Entretanto, esses defeitos, como muitos outros,
não deviam ser atribuídos ao sistema em si, mas ao Estado austríaco. Eu pensava
outrora que, com o restabelecimento da maioria alemã, nos corpos
representativos, não haveria mais necessidade de uma atitude doutrinária contra
aquela instituição,. enquanto perdurasse o velho Estado
austríaco.
Com essa disposição interior entrei
pela primeira vez nos tão sagrados quão disputados salões. É verdade que para
mim eles só eram sagrados devido à beleza da magnífica construção. Uma
obra-prima helênica em terra alemã.
Mas, dentro
de pouco tempo, sentia verdadeira indignação ao assistir ao lamentável
espetáculo que se desenrolava ante meus
olhos.
Estavam presentes centenas desses
representantes do povo, que tinham de tomar atitude sobre uma questão de
importância econômica.
Bastou para mim esse
primeiro dia para fazer refletir durante semanas e semanas sobre a
situação.
O conteúdo mental do que se discutia
era de uma "elevação" deprimente, a julgar pelo que se podia compreender do
falatório, pois alguns deputados não falavam alemão e, sim línguas eslavas, ou
melhor, seus dialetos. O que, até então, só conhecia através da leitura de
jornais, tinha agora oportunidade de ouvir com os meus próprios ouvidos. Era uma
massa agitada que gesticulava e gritava em todos os tons. Um velhote inofensivo
se esforçava, suando por todos os poros, para restabelecer a dignidade da casa,
agitando uma campainha, ora falando com benevolência, ora
ameaçando.
Tive de
rir.
Algumas semanas mais tarde, tornei a
aparecer na Câmara. O quadro estava mudado a ponto de não ser reconhecido. A
sala completamente vazia. Dormia-se lá em baixo. Alguns deputados se encontravam
em seus lugares e bocejavam. Um deles "falava". Estava presente um vice
presidente da Câmara, o qual, visivelmente aborrecido, percorria a sala com os
olhos.
Surgiram-me as primeiras dúvidas. Cada
vez que se me oferecia uma oportunidade, corria para lá. e observava silenciosa
e atentamente o quadro, ouvia os discursos, sempre que podia compreendê-los,
estudava as fisionomias mais ou menos inteligentes desses eleitos das raças
daquele triste Estado e, aos poucos, fazia as minhas próprias
reflexões.
Bastou um ano dessa calma observação
para modificar ou afastar definitivamente o meu juízo sobre o caráter dessa
instituição. No meu íntimo já tinha tomado atitude contra a forma adulterada que
essa instituição tomava na Áustria. Já não podia mais aceitar o Parlamento em
si. Até então eu vira o insucesso do Parlamento austríaco na falta de uma
maioria alemã: agora, porém, eu reconhecia a fatalidade na essência e caráter
dessa instituição.
Naquela ocasião
apresentou-se-me uma série de questões. Comecei a familiarizar-me com o
princípio da resolução por maioria como base de toda a Democracia. Entretanto,
não dispensava menor atenção aos valores mentais e morais dos cavalheiros que,
como eleitos do povo, deviam servir a esse
desideratum..
Aprendi assim a conhecer ao mesmo
tempo a instituição e os seus
representantes.
No decurso de alguns anos,
desenvolveu-se em minha mente o tipo plasticamente claro do fenômeno mais
respeitável dos nossos tempos, o homem parlamentar. Começou-se a gravar de tal
forma em minha memória, que não sofreu modificação essencial daí por
diante.
Desta vez também o ensino intuitivo da
realidade prática evitou que eu aceitasse uma teoria que, à primeira vista, tão
sedutora parece a muitos e que, entretanto, deve ser contada entre os sinais de
decadência da humanidade.
A atual Democracia do
ocidente é a precursora do marxismo, que sem ela seria inconcebível Ela oferece
um terreno propicio, no qual consegue desenvolver-se a epidemia. Na sua
expressão externa - o parlamentarismo - apareceu como um mostrengo "de lama e de
fogo", no qual, a pesar meu, o fogo parece ter-se consumido depressa demais. Sou
muito grato ao destino por ter-me apresentado essa questão a exame,
anteriormente em Viena, pois cismo que, na Alemanha, não poderia tê-la resolvido
tão facilmente. Se eu tivesse reconhecido em Berlim, pela primeira vez, o
absurdo dessa instituição chamada Parlamento, teria talvez caldo no extremo
oposto e, sem aparente boa razão, talvez me tivesse enfileirado entre aqueles a
cujos olhos o bem do povo e do Império está na exaltação da idéia imperial e que
assim se põem, cegamente, em oposição à humanidade e ao seu
tempo.
Isso seria impossível na
Áustria.
Lã não era tão fácil cair de um erro
no outro. Se o Parlamento nada valia, menos ainda valiam os Habsburgos. Lá a
rejeição do parlamentarismo, por si só, não resolveria nada, pois ficaria de pé
a pergunta: e depois? A eliminação do Reichsrat deixaria ficar, como único poder
governamental, a casa dos Habsburgos, - idéia que se me afigurava
intolerável.
A dificuldade desse caso
particular conduziu-me a estudar o problema de maneira mais profunda do que, de
outra forma, teria feito em tão verdes anos.
O
que mais que tudo e com mais insistência me fazia refletir no exame do
parlamentarismo era a falta evidente de qualquer responsabilidade individual dos
seus membros.
O Parlamento toma qualquer
decisão - mesmo as de conseqüências mais funestas - e ninguém é por ela
responsável, nem é chamado a prestar
contas.
Pode-se, porventura, falar em
responsabilidade, quando, após um colapso sem precedentes, o governo pede
demissão, quando a coalizão se modifica, ou mesmo o Parlamento se
dissolve?
Poderá, por acaso, uma maioria
hesitante de homens ser jamais
responsabilizada?
Não está todo conceito de
responsabilidade intimamente ligado à personalidade?
Pode-se, na prática, responsabilizar o dirigente
de um governo pelos atos cuja existência e execução devem ser levadas à conta da
vontade e do arbítrio de um grande grupo de
homens?
Porventura consistirá a tarefa do
estadista dirigente não tanto em produzir um pensamento criador, um programa,
como na arte com que torna compreensível a natureza de seus planos a um estúpido
rebanho, com o fim de implorar-lhe o final assentimento? Pode ser critério de um
estadista que ele deva ser tão forte na arte de convencer como na habilidade
política da escolha das grandes linhas de conduta ou de
decisão?
Está provada a incapacidade de um
dirigente pelo fato de não conseguir ele ganhar, para uma determinada idéia, a
maioria de uma aglomeração reunida mais ou menos por simples
acaso?
Já aconteceu que essas câmaras
compreendessem uma idéia antes que o êxito se tornasse o proclamador da grandeza
dessa mesma idéia?
Toda ação genial neste mundo
não é um protesto do gênio contra a inércia da
massa?
Que pode fazer o estadista que só
consegue pela lisonja conquistar o favor desse aglomerado para os seus
planos?
Deve ele comprar o apoio desses
representantes do povo ou deve - em lace da tolice da execução das tarefas
consideradas vitais - retrair-se e permanecer
inativo?
Em tal caso, não se dá um conflito
insolúvel entre a aceitação desse estado de coisas e a decência ou, melhor, a
opinião sincera.
Onde está o limite que separa
o dever para com a coletividade e o compromisso da honra
pessoal?
Qualquer verdadeiro dirigente não
deverá abster-se de degradar-se assim em aproveitador
político?
E, inversamente, não deverá todo
aproveitador estar destinado a "fazer" política, desde que a responsabilidade
não caberá, afinal, a ele, mas à massa
intangível?
O princípio da maioria parlamentar
não deve conduzir ao desaparecimento da unidade de
direção?
Acreditamos, acaso, que o progresso
neste mundo provenha da ação combinada de maiorias e não de cérebros
individuais?
Ou pensa-se que, no futuro,
podemos dispensar essa concepção de cultura
humana?
Não parece, ao contrário, que a
competência hoje seja mais necessária do que
nunca?
Negando a autoridade do indivíduo e
substituindo-a pela soma da massa presente em qualquer tempo, o princípio
parlamentar do consentimento da maioria peca contra o princípio básico da
aristocracia da natureza; e, sob esse ponto de vista, o conceito do princípio
parlamentar sobre a nobreza nada tem a ver com a decadência atual de nossa alta
sociedade.
Para um leitor de jornais judeus é
difícil imaginar os mais que a Instituição do controle democrático pelo
parlamento ocasiona, a não ser que ele tenha aprendido a pensar e a examinar o
assunto com independência. Ela é a causa principal da incrível dominação de toda
a vida política justamente pelos elementos de menos valor. Quanto mais os
verdadeiros chefes forem afastados das atividades políticas, que consistem
principalmente, não em trabalho criativo e produção, mas no regatear e comprar
os favores da maioria, tanto mais a atuação política descerá ao nível das
mentalidades vulgares e tanto mais essas se sentirão atraídas para a vida
pública.
Quanto mais tacanho for, hoje em dia,
em espírito e saber, um tal mercador de couros, quanto mais clara a sua própria
intuição lhe fizer ver a sua triste figura, tanto mais louvará ele um sistema
que não lhe exige a força e o gênio de um gigante, mas contenta-se com a astúcia
de um alcaide e chega mesmo a ver com melhores olhos essa espécie de sapiência
que a de um Péricles. Além disso, um palerma assim não precisa atormentar-se com
a responsabilidade de sua ação. Ele está fundamentalmente isento dessa
preocupação, porque, qualquer que seja o resultado de suas tolices de estadista,
sabe ele muito bem que, desde muito tempo, o seu fim está escrito: um dia terá
de ceder o lugar a um outro espírito tão grande quanto ele próprio. Uma das
características de tal decadência é o fato de aumentar a quantidade de "grandes
estadistas" à proporção que se contrai a escala do valor individual. O valor
pessoal terá de tornar-se menor à medida que crescer a sua dependência de
maiorias parlamentares, pois tanto os grandes espíritos recusarão ser esbirros
de ignorantões e tagarelas, como, inversamente, os representantes da maioria,
isto é, da estupidez, nada mais odeiam que uma cabeça que
reflete.
Sempre consola a uma assembléia de
simplórios conselheiros municipais saber que tem à sua frente um chefe cuja
sabedoria corresponde ao nível dos presentes. Cada um terá o prazer de fazer
brilhar, de tempos em tempos, uma fagulha de seu espírito; e, sobretudo, se
Sancho pode ser chefe, por que não o pode ser
Martinho?
Mas, ultimamente, essa invenção da
democracia fez surgir uma qualidade que hoje se transformou em uma verdadeira
vergonha, que é a covardia de grande parte de nossa chamada "liderança". Que
felicidade poder a gente esconder-se, em todas as verdadeiras decisões de alguma
importância, por trás das chamadas
maiorias!
Veja-se a preocupação de um desses
salteadores políticos em obter a rogos o assentimento da maioria, garantindo-se
a si e aos seus cúmplices, para, em qualquer tempo, poder alienar a
responsabilidade. E eis aí uma das principais razões por que essa espécie de
atividade política é desprezível e odiosa a todo homem de sentimentos decentes
e, por. tanto, também de coragem, ao passo que atrai todos os caracteres
miseráveis - aqueles que não querem assumir a responsabilidade de suas ações,
mas antes procuram fugir-lhe, não passando de covardes pulhas. Desde que os
dirigentes de uma nação se componham de tais entes desprezíveis, muito depressa
virão as conseqüências. Ninguém terá mais a coragem de uma ação decisiva: toda
desonra, por mais ignominiosa, será aceita de preferência à resolução corajosa.
Ninguém mais está disposto a arriscar a sua pessoa e a sua cabeça para executar
uma decisão temerária.
Uma coisa não se pode e
não se deve esquecer: a maioria jamais pode substituir o homem. Ela é sempre a
advogada não só da estupidez, mas também da covardia, e assim como cem tolos
reunidos não somam um sábio, uma decisão heróica não é provável que surja de um
cento de covardes.
Quanto menor for a
responsabilidade de cada chefe individualmente, mais crescerá o número daqueles
que se sentirão predestinados a colocar ao dispor da nação as suas forças
imortais. Com impaciência, esperarão que lhes chegue a vez; eles formam em longa
cauda e contam, com doloridos lamentos, o número dos que esperam na sua frente e
quase que calculam a hora quando possivelmente alcançarão o seu desiderato. Daí
a ânsia por toda mudança nos cargos por eles cobiçados e daí serem eles gratos a
cada escândalo que lhes abre mais uma vaga. Caso um deles não queira recuar da
posição tomada, quase que sente isso como quebra de uma combinação sagrada de
solidariedade comum. Então é que eles se tornam maldosos e não sossegam enquanto
o desavergonhado, finalmente vencido, não põe o seu lugar novamente à disposição
de todos. Por isso mesmo, não alcançará ele tão cedo essa posição. Quando uma
dessas criaturas é forçada a desistir do seu posto, procurará imediatamente
intrometer-se de novo na fileira dos que estão na expectativa, a não ser que o
impeça, então, a gritaria e as injúrias dos
outros.
O resultado disso é a terrível rapidez
de mudança nas mais altas posições e funções, em um Estado como o nosso, fato
que é desfavorável, de qualquer modo, e que freqüentemente opera com efeitos
absolutamente catastróficos, porque não só o estúpido e o incapaz são vitimados
por esses métodos de proceder, mas mesmo os verdadeiros chefes, se algum dia o
destino os colocar nessas posições de
mando.
Logo que se verifica o aparecimento de
um homem excepcional, imediatamente se forma uma frente fechada de defesa,
sobretudo se um tal cabeça, não saindo das próprias fileiras, ousar, mesmo
assim, penetrar nessa sublime sociedade. O que eles querem fundamentalmente é
estarem entre si, e é considerado inimigo comum todo cérebro que possa
sobressair no meio de tantas nulidades. E, nesse sentido, o instinto é tanto
mais agudo quanto é falho a outros respeitos.
O
resultado será assim sempre um crescente empobrecimento espiritual das classes
dirigentes. Qualquer um, desde que não pertença a essa classe de "chefes", pode
julgar quais sejam as conseqüências para a nação e para o Estado.
O regime parlamentar na velha Áustria já
existia em germe.
É verdade que cada chefe de
gabinete ministerial era nomeado pelo imperador e rei, porém essa nomeação nada
mais era do que a execução da vontade parlamentar. O hábito de disputar e
negociar as várias pastas já era democracia ocidental do mais puro quilate. Os
resultados correspondentes também aos princípios em voga. Em particular, a
mudança de personalidades se dava em períodos cada vez mais curtos, para
transformar-se, finalmente, numa verdadeira caçada. Ao mesmo tempo decaía
crescentemente a grandeza dos "estadistas" de então, até que só ficou aquele
pequeno tipo de espertalhão parlamentar, cujo valor se aquilatava e reconhecia
pela capacidade com que conseguia promover as coligações de então, isto é, com
que realizava os pequeninos negócios políticos - únicos que justificavam a
vocação desses representantes do povo para um trabalho
prático
Nesse terreno oferecia a escola de
Viena as melhores perspectivas ao observador.
O
que me impressionava também era o paralelo entre a capacidade e o saber desses
representantes do povo e a gravidade dos problemas que tinham de resolver. Quer
se quisesse, quer não, era preciso também atentar mais de perto para o horizonte
mental desses eleitos do povo, sendo ainda impossível deixar de dar a atenção
necessária aos processos que conduzem ao descobrimento desses impressionantes
aspectos de nossa vida pública Valia a pena também
estudar e examinar a fundo a maneira pela qual a verdadeira capacidade desses
parlamentares era empregada e posta a serviço da pátria, ou seja o processo
técnico de sua atividade.
O panorama da vida
parlamentar parecia tanto mais lamentável quanto mais se penetrava nessas
relações íntimas e se estudavam as pessoas e o fundamento das coisas, com
desassombrada objetividade. E isso vem muito a propósito, tratando-se de uma
instituição que, por intermédio de seus detentores, a todo passo se refere à
"objetividade" como única base justa de qualquer atitude. Examinem-se esses
cavalheiros e as leis de sua amarga existência e o resultado a que se chegará
será espantoso.
Não há um princípio que,
objetivamente considerado, seja tão errado quanto o
parlamentar.
Pode-se mesmo, nesse caso,
abstrair inteiramente a maneira pela qual se realiza a escolha dos senhores
representantes do povo, mesmo os processos por que chegam a seu posto e à sua
nova dignidade, Considerando que a compreensão política da grande massa não está
tão desenvolvida para adquirir por si opiniões políticas gerais e escolher
pessoas adequadas, chegar-se-á com facilidade à conclusão de que, nos
parlamentos, só em proporção mínima, é que se trata da realização de um desejo
geral ou mesmo de uma necessidade pública.
A
nossa concepção ordinária da expressão "opinião pública" só em pequena escala
depende de conhecimento ou experiências pessoais, mas antes do que outros nos
dizem. E isso nos é apresentado sob a forma de um chamado "esclarecimento"
persistente e enfático.
Do mesmo modo- que o
credo religioso resulta da educação, ao passo que o sentimento religioso dormita
no íntimo da criatura, assim a opinião política da massa é o resultado final do
trabalho, às vezes incrivelmente árduo e intenso, da inteligência
humana.
A quota mais eficiente na "educação"
política, que, no caso, com muita propriedade, é chamada "propaganda", é a que
cabe à imprensa, a que se reserva a "tarefa de esclarecimento" e que assim se
constitui em uma espécie de escola para adultos. Todavia, essa instrução não
está nas mãos do Estado, mas é exercida por forças em geral de caráter muito
inferior. Quando ainda jovem, em Viena, eu tive as melhores oportunidades para
adquirir conhecimento seguro sobre os chefes e sobre os hábeis operários mentais
dessa máquina destinada à educação popular.
O
que primeiro me impressionou foi a rapidez com que aquela força perniciosa do
Estado conseguia fazer vitoriosa uma definida opinião, muito embora essa opinião
implicasse no falseamento dos verdadeiros desejos e idéias do público. Dentro de
poucos dias um absurdo irrisório se tornava um ato governamental de grande
importância, ao mesmo tempo que problemas essenciais caíam no esquecimento geral
ou antes eram roubados à atenção das
massas.
Assim, no decurso de algumas semanas,
alguns nomes eram como que magicamente tirados do nada e, em torno deles, se
erguiam incríveis esperanças no espírito público; dava-se-lhes uma popularidade,
que nenhum verdadeiro homem jamais esperaria conseguir durante toda a sua vida.
Ao mesmo tempo, perante os seus contemporâneos, velhos e dignos caracteres da
vida pública e administrativa eram considerados mortos, quando se achavam em
plena eficiência, ou eram cumulados de tantas injúrias que seus nomes pareciam
prestes a tornar-se símbolos de infâmia. Era necessário estudar esse vergonhoso
método judeu de, como por encanto, atacar de todos os lados e lançar lama, sob a
forma de calúnia e difamação, sobre a roupa limpa de homens honrados, para
aquilatar. em seu justo valor, todo o perigo desses patifes da
imprensa.
Não há nenhum meio a que não recorra
um tal salteador moral para chegar aos seus
objetivos.
Ele meterá o focinho nas mais
secretas questões de família e não sossegará enquanto o seu faro não tiver
descoberto um miserável incidente que possa determinar a derrota da infeliz
vítima. Caso nada seja encontrado, quer na vida pública quer na vida particular,
o patife lança mão da calúnia, firmemente convencido, não só de que, mesmo
depois de milhares contestações, alguma coisa sempre fica, como também de que
devido a centenas de repetições que essa demolição da honra encontra entre os
cúmplices, impossível é à vítima manter a luta na maioria dos casos. Essa corja
nem mesmo age por motivos que possam ser compreensíveis para o resto da
humanidade.
Deus nos livre! Enquanto um bandido
desses ataca - o resto da humanidade, essa gente esconde-se por trás de uma
verdadeira nuvem de probidade e frases untuosas, tagarela sobre "dever
jornalístico" e quejandas balelas e alteia-se até a falar em "ética" de
imprensa, em assembléias e congressos, ocasiões em que a praga se encontra em
maior número e em que a corja mutuamente se
aplaude.
Essa súcia, porém, fabrica mais de
dois terços da chamada "opinião pública", de cuja espuma nasce a Afrodite
parlamentar.
Seria necessário escrever volumes
para poder pintar com exatidão esse processo e representá-lo na sua inteira
falsidade. Mas, mesmo abstraindo tudo isso e observando somente os efeitos da
sua atividade, parece-me isso suficiente para esclarecer o espírito mais crédulo
quanto à insensatez objetiva dessa
instituição.
Mais depressa e mais facilmente
compreenderemos a falta de senso e perigo dessa aberração humana se compararmos
o sistema democrático parlamentar com uma verdadeira democracia
germânica.
Na primeira, o ponto mais importante
é o número. Suponhamos que quinhentos homens (ultimamente também mulheres), são
eleitos e chamados a dar solução definitiva sobre tudo. Praticamente, porém, só
eles constituem o governo, pois se é verdade que dentro deles é escolhido o
gabinete, o mesmo, só na aparência, pode fiscalizar os negócios públicos. Na
realidade, esse chamado governo não pode dar um passo sem que antes lhe seja
outorgado o assentimento geral da assembléia. O Governo contudo não pode ser
responsável por coisa alguma, desde que o julgamento final não está em suas mãos
mas na maioria parlamentar.
Ele só existe para
executar a vontade da maioria parlamentar em todos os casos. Propriamente só se
poderia ajuizar de sua capacidade política pela arte com que ele consegue se
adaptar à vontade da maioria ou atrair para si essa mesma maioria. Cai, assim,
da posição de verdadeiro governo para a de mendigo da maioria ocasional. Na
verdade, o seu problema mais premente consistirá, em vários casos, em
garantir-se o favor da maioria existente ou em provocar a formação de uma nova
mais favorável. Caso consiga isso, poderá continuar a "governar" por mais algum
tempo; caso não o consiga, terá de resignar o poder. A retidão de suas
intenções, por si só, não importa.
A
responsabilidade praticamente deixa de
existir.
Uma simples consideração mostra a que
ponto isso conduz.
A composição intima dos
quinhentos representantes do povo, eleitos, segundo a profissão ou mesmo segundo
a capacidade de cada um, resulta em um quadro tão disparatado quanto lastimável.
Não se irá pensar por acaso que esses eleitos da nação sejam também eleitos da
inteligência. Não é de esperar que das cédulas de um eleitorado capaz de tudo,
menos de ter espírito, surjam estadistas às centenas. Ademais, nunca é excessiva
a negação peremptória à idéia tola de que das eleições possam nascer gênios. Em
primeiro lugar, só muito raramente aparece em uma nação um verdadeiro estadista
e muito menos centenas de uma só vez; em segundo lugar, é verdadeiramente
instintiva a antipatia da massa contra qualquer gênio que se destaque. É mais
fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha que ser "descoberto" um grande
homem por uma eleição. O indivíduo que realmente ultrapassa a medida normal do
tipo médio costuma fazer-se anunciar, na história universal, pelos seus próprios
atos, pela afirmação de sua
personalidade.
Quinhentos homens, porém, de
craveira abaixo da medíocre, decidem sobre os negócios mais importantes da
nação, estabelecem governos que em cada caso e em cada questão têm de procurar o
assentimento da erudita assembléia. Assim é que, na realidade, a política é
feita pelos quinhentos.
Mas, mesmo pondo de
lado o gênio desses representantes do povo, considere-se a quantidade de
problemas diferentes que esperam solução, muitas vezes em casos opostos, e
facilmente se compreenderá o quanto é imprestável uma instituição governamental
que transfere a uma assembléia o direito de decisão final - assembléia essa que
possui em quantidade mínima conhecimentos e experiência dos assuntos a serem
tratados. As mais importantes medidas econômicas são assim submetidas a um foro
cujos membros só na porcentagem de um décimo demonstraram educação econômica. E
isso não é mais que confiar a decisão última a homens aos quais falta em
absoluto o devido preparo.
Assim acontece
também com qualquer outra questão. A decisão final será dada sempre por uma
maioria de ignorantes e incompetentes, pois a organização dessa instituição
permanece inalterada, ao passo que os problemas a serem tratados se estendem a
todos os ramos da vida pública, exigindo, pois, constante mudança de deputados
que sobre eles tenham de julgar e decidir. É de todo impossível que os mesmos
homens que tratam de questões de transportes, se ocupem, por exemplo, com uma
questão de alta política exterior. Seria preciso que todos fossem gênios
universais, como só de séculos em séculos aparecem. Infelizmente trata-se, não
de verdadeiras "cabeças", mas sim de diletantes, tão vulgares quanto convencidos
do seu valor, enfim de mediocridade da pior espécie. Daí provém a leviandade
tantas vezes incompreensível com que os parlamentares falam e decidem sobre
coisas que mesmo dos grandes espíritos exigiriam profunda meditação. Medidas da
maior relevância para o futuro de um Estado ou mesmo de uma nação são tomadas
como se se tratasse de uma simples partida de jogo de baralho e não do destino
de uma raça.
Seria certamente injusto pensar
que todo deputado de um tal parlamento tivesse sempre tão pouco sentimento de
responsabilidade. Não. Absolutamente
não.
Obrigando esse sistema o indivíduo a tomar
posição em relação a questões que não lhe tocam de perto, ele corrompe aos
poucos o seu caráter. Não há um deles que tenha a coragem de declarar: "Meus
senhores, eu penso que nada entendemos deste assunto. Pelo menos eu não entendo
absolutamente". Aliás, isso pouco modificaria, pois certamente essa maneira de
ser franco seria inteiramente incompreendida e, além disso, não se haveria de
estragar o brinquedo por caso de um asno honesto. Quem, porém, conhece os
homens, compreende que em uma sociedade tão ilustre ninguém quer ser o mais tolo
e, em certos círculos, honestidade é sempre sinônimo de
estupidez.
Assim é que o representante ainda
sincero é jogado forçosamente no caminho da mentira e da falsidade. Justamente a
convicção de que a reação individual pouco ou nada modificaria, mata qualquer
impulso sincero que porventura surja em um ou outro. No final de contas, ele se
convencerá de que, pessoalmente, longe está de ser o pior entre os demais e que
com sua colaboração talvez impeça maiores
males.
É verdade que se fará a objeção de que o
deputado pessoalmente poderá não conhecer este ou aquele assunto, mas que a sua
atitude será guiada pela fração a que pertença; esta, por sua vez, terá as suas
comissões especiais que serão suficientemente esclarecidas pelos entendidos. À
primeira vista, isso parece estar certo. Surgiria, porém, a pergunta: por que se
elegem quinhentos, quando só alguns possuem a sabedoria suficiente para tomarem
atitude nas questões mais importantes?
Aí é que
está o busilis.
Não é móvel de nossa atual
Democracia formar uma assembléia de sábios, mas, ao contrário, reunir uma
multidão de nulidades subservientes, que possam ser facilmente conduzidas em
determinadas direções definidas, dada a estreiteza mental de cada uma delas. Só
assim pode ser feito o jogo da política partidária, no mau sentido que hoje tem.
Mas isso, por sua vez, torna possível que os que manobram os cordéis fiquem em
segurança por trás dos bastidores, sem possibilidade de serem tornados
pessoalmente responsáveis. Atualmente, uma decisão, por mais nociva que seja ao
povo, não pode ser atribuída, perante os olhos do público, a um patife único, ao
passo que pode sempre ser transferida para os ombros de todo um
grupo.
Praticamente, pois, não há
responsabilidade, porque a responsabilidade só pode recair sobre uma
individualidade única e não sobre as gaiolas de tagarelice que são as
assembléias parlamentares.
Por isso esse tipo
de Democracia se tornou o instrumento da raça que, para a consecução de seus
objetivos, tem de evitar a luz do sol, agora, e sempre. Ninguém, a não ser um
judeu, pode estimar uma instituição que é tão suja e falsa quanto ele
próprio.
Em contraposição ao que precede, está
a verdadeira democracia germânica. que escolhe livremente o seu chefe, sobre
quem recai a inteira responsabilidade de todos os atos que pratique ou deixe de
praticar. Nela não há a votação de uma maioria no que se refere às várias
questões, sem a determinação de um indivíduo único que responda com seus bens e
vida por suas decisões.
Caso se objete que em
tais condições só dificilmente haverá alguém que queira dedicar a sua pessoa a
tão arriscada tarefa, poder-se-á retrucar:
O
verdadeiro sentido da democracia germânica reside, justamente, graças a Deus, no
fato de não ser possível ao primeiro ambicioso, indigno ou impostor, chegar, por
caminhos escusos, ao governo de seu povo. A extensão da responsabilidade
assumida afasta os incompetentes e os
fracos.
Na hipótese de um indivíduo dessa
estofa tentar insinuar-se, fácil será ir-lhe ao encontro com esta apóstrofe:
Para fora, covarde, patife. Retira o pé, tu maculas os degraus da escada, pois a
ascensão ao panteon da história não é para os que rastejam e, sim, para os
heróis!
Após dois anos de freqüência ao
parlamento de Viena já havia chegado a essa
conclusão.
Não me aprofundei mais sobre o
assunto.
O regime parlamentar teve, como seu
principal mérito, enfraquecer, nos últimos anos, o velho Estado dos Habsburgos.
Quanto mais se enfraquecia, pela sua ação, o predomínio do germanismo, tanto
mais se caía em um regime de choque entre as várias raças. No próprio Reichsrat
isso se dava sempre à custa do Império, pois, por volta da passagem do século, o
mais inocente indivíduo veria que a força de atração da monarquia não conseguia
mais banir as tendências separatistas dos diferentes
povos.
Ao
contrário.
Quanto mais mesquinhos se tornavam
os meios empregados pelo Estado para a sua conservação, tanto mais aumentava o
desprezo geral pelo mesmo Estado. Não só na Hungria, como também nas várias
províncias eslavas, o sentimento de fidelidade à monarquia era tão frágil que a
sua fraqueza não era considerada uma vergonha. Esses sinais de declínio que
apareciam provocavam até alegria, pois era mais desejada a morte que a
convalescença do antigo regime.
No parlamento
conseguiu-se evitar o colapso total por uma renúncia indigna e pela realização
de toda sorte de opressão sobre o elemento germânico. No interior jogava-se,
habilidosamente, um povo contra o outro. Entretanto, nas linhas gerais, a
atuação política era dirigida contra os alemães. Sobretudo, desde que a sucessão
ao trono começara a dar ao arquiduque Fernando uma certa influência,
estabeleceu-se um plano regular na tchequização praticada pelo governo. Aquele
futuro soberano da dupla monarquia procurava, por todos os meios possíveis,
fazer progredir a desgermanização, promovendo-a por todos os modos ou, no
mínimo, defendendo-a. Localidades puramente alemãs eram, por via indireta, na
burocracia oficial, devagar porém seguramente, incluídas na zona perigosa das
línguas mistas. Na própria Baixa Áustria esse processo progredia mais ou menos
rapidamente e muitos tchecos consideravam Viena como a sua principal
cidade.
O pensamento predominante desse novo
Habsburgo, cuja família falava o theco de preferência (a esposa do arquiduque
era uma condessa tcheca e casara com o príncipe morganaticamente, sendo o meio
em que ela nascera tradicionalmente anti-germânico), era estabelecer
gradualmente um Estado eslavo na Europa central, em linhas estritamente
católicas, como uma proteção contra a Rússia ortodoxa. Nesse sentido, como
tantas vezes aconteceu aos Habsburgos, a religião era mais uma vez arrastada a
servir a uma concepção puramente política, concepção lamentável, quando encarada
do ponto de vista germânico.
A vários
respeitos, o resultado foi mais que trágico. Nem a casa dos Habsburgos nem a
Igreja Católica tiraram o proveito que
esperavam.
O Habsburgo perdeu o trono, Roma
perdeu um grande Estado.
Chamando forças
religiosas a servirem a seus fins políticos, a coroa provocou um estado de
espírito que ela própria inicialmente julgou ser impossível. A tentativa de
exterminar o germanismo na velha monarquia despertou o movimento pangermanista
na Áustria.
Na década de 80 o liberalismo
manchesteriano, de origem judaica, atingira, se não ultrapassara, o seu ponto
culminante na monarquia. A reação contra ele, entretanto, não proveio como em
tudo, na Áustria, de pontos de vista sociais e, sim, de pontos de vista
nacionais. O instinto de conservação obrigou o germanismo a pôr se em guarda, da
maneira mais viva. Só em segundo plano é que as considerações econômicas
começaram a ganhar influência apreciável. Assim- é que desabrocharam, da
confusão política, dois partidos, um mais nacionalista, outro mais socialista,
ambos porém altamente interessantes e Instrutivos para o
futuro.
Após o fim deprimente da guerra de 1866
a Casa Habsburgo preocupava-se com a idéia de uma revanche no campo de batalha.
Só a morte do imperador Maximiliano, do México, cuja expedição infeliz se
atribuiu em primeira linha a Napoleão III e cujo abandono, por parte dos
franceses, provocou geral indignação, evitou uma aliança mais íntima com a
França. Entretanto, os Habsburgos estavam de alcatéia na ocasião. Caso a guerra
de 1870-71 não se tivesse transformado numa expedição triunfal, única no gênero,
a corte de Viena teria ousado tentar um golpe sangrento de vingança por causa de
Sadowa. Quando, porém, chegaram as primeiras narrações dos feitos heróicos dos
campos de batalha, maravilhosos e quase incríveis e, no entretanto, verdadeiros,
o mais "sábio> de todos os monarcas reconheceu que a hora não era propícia e
aparentou alegrar-se com o que, na realidade, contrariava os seus
planos.
A luta de heróis desses dois anos
conseguira milagre muito mais formidável, pois, quanto aos Habsburgos, a sua
atitude modificada jamais correspondia a um impulso íntimo de coração, mas sim à
força das circunstâncias. O povo alemão, na velha Marca oriental, foi arrastado
pela embriaguez da vitória do Reich e via, profundamente comovido, a
ressurreição do sonho dos antepassados convertido em maravilhosa
realidade.
Que ninguém se engane, porém. O
Austríaco de sentimento verdadeiramente germânico reconhecera, dessa hora em
diante, em Königratz, a condição tão trágica quanto indispensável da restauração
do império, o qual não devia estar ligado ao marasmo podre da antiga aliança, e
não o estava.
Sobretudo ele, aprendeu a sentir,
à sua própria custa, que a casa dos Habsburgos terminara a sua missão histórica
e que o novo Império só poderia eleger imperador quem, pelo seu sentimento
histórico, fosse capaz de oferecer uma cabeça digna à "coroa do Reno". Tanto
mais era, pois, de louvar o destino por ter realizado essa investidura no
rebento de uma dinastia que, com Frederico, o Grande, já dera à nação, em tempos
perturbados, um exemplo eloqüente para inspirar a grandeza da
raça.
Quando, porém, após a grande guerra, a
casa dos Habsburgos se lançou decididamente no caminho da destruição lenta porém
inexorável, da perigosa germanização da dupla monarquia (cujas intenções intimas
não podiam deixar dúvidas) - e esse tinha de ser o fim da política de
eslavização - irrompeu a resistência do povo condenado ao extermínio e de
maneira nunca vista na história alemã dos tempos
modernos.
Pela primeira vez, homens de
sentimentos nacionalistas e patrióticos se fizeram rebeldes. Rebeldes, não
contra a nação ou contra o Estado, e sim contra uma forma de governo que,
segundo as suas convicções, tinha de conduzir ao aniquilamento da própria
raça.
Pela primeira vez, na história alemã,
contemporânea, o patriotismo corrente, dinástico, se divorciou do amor à pátria
e ao povo.
Deve-se ao movimento pangermanista
da Áustria alemã da década de 90 o ter constatado de maneira clara e
insofismável que uma autoridade pública só tem direito de exigir respeito e
proteção, quando ela corresponde aos desejos de uma nacionalidade ou pelo menos
quando não lhe causa dano.
Não pode haver
autoridade pública que se justifique pelo simples fato de ser autoridade, pois,
nesse caso, toda tirania neste mundo seria inatacável e
sagrada.
Quando, por força da ação do governo,
uma nacionalidade é levada à destruição, a rebelião de cada um dos indivíduos de
um tal povo não é só um direito, mas também um dever. Quando um caso assim se
apresenta a questão não se decide por considerações teóricas, mas pela violência
e - pelo êxito.
Como todo poder público,
naturalmente, chama a si o dever de conservar a autoridade do Estado, mesmo que
ela seja má e traia mil vozes os desejos de uma nacionalidade, o instinto de
conservação, em luta com esse poder pela conquista da liberdade ou da
independência, terá de usar das mesmas armas com as quais o adversário procura
manter-se. A luta será, portanto, travada com o recurso aos meios "legais".
enquanto o povo não deverá recuar mesmo diante de meios ilegais, quando o
opressor colocar-se fora da lei.
De um modo
geral, não se deve esquecer nunca que a conservação de um Estado ou de um
governo não é o mais elevado fim da existência humana, mas o de conservar o seu
caráter racial. Caso este se ache em perigo de ser dominado ou eliminado, a
questão da legalidade terá apenas importância secundária. Mesmo que o poder
dominante empregue mil vezes os meios "legais" na sua ação, o instinto de
conservação dos oprimidos é sempre uma justificação elevada para a luta por
todos os meios.
Só admitindo essa hipótese é
que se pode compreender porque os povos deram tão formidáveis exemplos
históricos nas lutas pela liberdade, contra a escravização, quer seja interna,
quer externa.
Os direitos humanos estão acima
dos direitos do Estado.
Se, porém, na luta
pelos direitos humanos, uma raça é subjugada, significa isso que ela pesou muito
pouco na balança do destino para ter a felicidade de continuar a existir neste
mundo terrestre, pois quem não é capaz de lutai pela vida tem o seu fim
decretado pela providência.
O mundo não foi
feito para os povos covardes.
Quanto é fácil a
uma tirania proteger-se com o manto da "legalidade", ficou clara e
eloqüentemente demonstrado com o exemplo da
Áustria.
O poder legal do Estado baseava-se,
então, no anti-germanismo do parlamento, com a sua maioria não-germânica e na
casa reinante, também germanófoba. Nesses dois fatores, estava encarnada toda a
autoridade pública. Querer modificar o destino do povo teuto-austríaco dessa
posição era tolice. Assim, porém, segundo o parecer dos veneradores da
autoridade do Estado e da legalidade, toda resistência deveria ser abandonada
por não ser exeqüível por meios legais. Isso, porém, significaria o fim do povo
alemão na monarquia, necessariamente, forçosamente, e dentro de breve tempo.
Efetivamente só pela derrocada daquele Estado foi o germanismo salvo desse
destino.
Os teoristas de óculos, preferem,
porém, morrer por sua doutrina a morrer pelo seu
povo.
Como os homens, primeiro, criam as leis,
pensam, depois, que estas estão acima dos direitos
humanos.
Foi mérito do movimento pangermanista
de então na Áustria o ter varrido de uma vez essa tolice, para desespero de
todos os cavaleiros andantes e fetichistas da teoria do
Estado.
Enquanto os Habsburgos tentavam
perseguir o germanismo, este partido atacava - e impavidamente - a sublime, Casa
soberana. Pela primeira vez, ele lançou a sonda nesse Estado apodrecido, abrindo
os olhos a centenas de milhares de pessoas. Foi seu mérito ter libertado a
maravilhosa noção de amor pátrio da influência dessa triste
dinastia.
Aquele partido, nos seus primeiros
tempos, contava com muitos adeptos, ameaçando mesmo transformar-se em verdadeira
avalanche. Entretanto, o êxito não durou. Quando cheguei a Viena, o movimento há
muito já havia sido ultrapassado pelo Partido Cristão Socialista, que alcançara
o poder e se encontrava em estado de
decadência.
Esse processo de evolução e
desaparecimento do movimento pangermanista de um lado e da incrível ascensão do
partido socialista, de outro, deveria tornar-se, para mim, da maior importância
como objeto de estudo.
Quando cheguei a Viena,
minhas simpatias estavam inteiramente do lado da orientação
pangermanista.
Que se tivesse a coragem de
exclamar no parlamento - viva Hohenzollern! - me impunha respeito e me causava
contentamento; que se considerasse esse Partido como parte apenas
momentaneamente separada do Império alemão e se proclamasse esse sentimento
publicamente, a cada momento, despertava-me alegre confiança; que se admitissem
impavidamente todas as questões referentes ao germanismo e nunca se entregassem
a compromissos parecia-me o único caminho ainda acessível para a salvação de
nosso povo; que, porém, o movimento, depois de sua magnifica ascensão, tornasse
a decair, não podia eu compreender. Menos ainda compreendia que o Partido
Cristão Socialista conseguisse alcançar nessa mesma época, tão grande violência.
Este havia chegado exatamente ao auge de sua
glória.
Ao comparar os dois movimentos, deu-me
o destino o melhor ensinamento, apressado pela minha aliás triste situação, para
que eu compreendesse as causas desse
enigma.
Preliminarmente, começarei o meu exame
por dois homens que podem ser considerados os chefes e fundadores dos dois
partidos: Georg von Schönere e o Dr. Karl
Lueger.
Quanto ao ponto de vista do caráter,
ambos se elevam muito acima da média das chamadas personalidades parlamentares.
No pantanal de uma corrupção política generalizada, a minha simpatia pessoal de
início dirigia-se ao pangermanista Schönere e só pouco a pouco também ao chefe
cristão social.
Comparados quanto às suas'
capacidades, já naquele tempo, Schönere me parecia o melhor e mais sólido
pensador dos problemas básicos. Melhor que qualquer outro, ele reconheceu, de
modo mais certo e claro, o fim fatal do Estado austríaco. Se as suas
advertências tivessem achado eco, sobretudo no Reichstag, no que dizia respeito
à monarquia dos Habsburgos, a desgraça da guerra da Alemanha contra a Europa
jamais teria acontecido.
Mas se Schönere
compreendia os problemas, na sua essência Intima, errava muito quanto aos
homens.
Nesse conhecimento estava, ao
contrário, a força do Dr. Lueger.
Este era um
raro conhecedor dos homens, que se precavia de vê-los melhores do que eles são
na realidade. Por isso contava ele mais com as reais possibilidades da vida, de
que conhecimento tinha Schönere. Tudo o que pensava o pangermanista estava
teoricamente certo, mas faltava-lhe a força e a habilidade de transmitir à massa
o conhecimento teórico, pois essa capacidade é e sempre será limitada. Essa
falta de real reconhecimento dos homens conduziu, com o correr dos anos, a um
engano na avaliação de vários movimentos, bem como de instituições
antiquíssimas.
Finalmente reconheceu Schönere,
sem dúvida, que se tratava, no caso, de questões de concepção universal, porém
não entendeu que a grande massa se presta admiravelmente para detentora dessas
convicções quase religiosas.
Infelizmente, teve
ele uma percepção muito imperfeita das extraordinárias limitações da disposição
da burguesia para a luta. Devido a sua situação econômica, os burgueses são
tímidos, não se arriscam a prejuízos, o que sempre os impede de
agir.
Essa incompreensão da importância das
camadas baixas da sociedade foi a causa da extrema ineficiência de suas opiniões
sobre questões sociais.
Em tudo Isso o Dr.
Lueger era o oposto de Schönere.
O profundo
conhecimento dos homens fazia com que aquele não só fizesse juízo certo das
forças aproveitáveis, como também ficasse a coberto de uma avaliação
demasiadamente baixa das instituições existentes, sendo que, talvez por esse
motivo, aprendesse a empregá-las em auxilio da consecução de seus
intentos.
Ele compreendeu perfeitamente que a
força combativa da burguesia superior, hoje em dia, é pequena, é insuficiente
para conseguir a vitória de um grande e novo movimento. Dai vem que atribuía
grande importância, na sua atividade política, à conquista das camadas cuja
existência estava ameaçada e, nas quais, por isso mesmo, a vontade de lutar
servia de estímulo em vez de ser motivo de inércia. Além disso, ele era
inclinado a empregar todos os meios violentos para atrair a si as fortes
instituições existentes com o fito de tirar, dessas velhas fontes de poder, todo
o proveito para o seu movimento.
Por isso,
baseou o seu novo partido, em primeira linha na classe média. ameaçada de
extinção, e assegurou-se, assim, uma classe de adeptos extremamente difíceis de
serem abalados e dotados de tão grande espírito de sacrifício como de vontade de
lutar. A sua atitude extremamente hábil em relação à Igreja Católica
conquistou-lhe, em pequeno espaço, a mais nova geração do clero, e de tal
maneira que o antigo partido clerical foi forçado a retirar-se do campo ou, mais
avisadamente, a aderir ao novo partido a fim de, paulatinamente, ganhar posição
a posição.
Grande injustiça seria feita a esse
homem, se se considerasse essa como a sua única característica, pois, além da
qualidade de um tático inteligente, ele possuía as de um reformador
verdadeiramente grande e genial. Entretanto, também nessa grande personalidade
não era completo o conhecimento das possibilidades existentes bem como de sua
própria capacidade pessoal.
Os objetivos que
esse homem verdadeiramente notável se tinha proposto eram eminentemente
práticos. Ele queria conquistar Viena. Viena era o coração da monarquia. Dessa
cidade partia ainda o último alento de vida para o corpo doentio e envelhecido
do império decadente. Quanto mais saudável se tornasse o coração, mais
facilmente reviveria o resto do corpo. Uma idéia correta em princípio, que,
porém, só podia ter aplicação durante um tempo determinado e
limitado.
Aí é que estava a fraqueza desse
homem. O que ele realizou como burgomestre na cidade de Viena é imortal no
melhor sentido da palavra. Mesmo assim, não conseguiu, porém, salvar a monarquia
- era tarde demais.
Seu rival Schönere vira
mais claramente.
Na sua atuação prática o Dr.
Lueger obtinha admirável êxito. O efeito, porém, do que ele esperava sempre
deixava de realizar-se.
O que Schönere
desejava, ele não o conseguia; o que ele temia, realizava-se, infelizmente, de
uma maneira terrível.
Assim, os dois homens não
realizaram o seu objetivo. Lueger não pôde mais salvar a Áustria e Schönere não
conseguiu evitar a ruína do povo alemão.
É
infinitamente instrutivo para o nosso tempo estudar a causa do fracasso desses
dois partidos. É essencial, sobretudo, para os meus amigos, pois, em muitos
pontos, as condições de hoje são semelhantes às daquele tempo, podendo-se, por
isso, evitar erros que conduziram à morte de um. movimento e à esterilidade do
outro.
O colapso do movimento pangermanista na
Áustria teve, a meu ver, três causas:
Primeira;
a noção pouco clara da importância do problema social, justamente tratando-se de
um partido novo essencialmente
revolucionário.
Enquanto Schönere e seus
adeptos se dirigiam em primeira linha às camadas burguesas, o resultado só podia
ser fraco, inofensivo.
A burguesia alemã é,
sobretudo nas suas camadas superiores, embora que não o pressintam os
indivíduos, pacifista a ponto de renunciar a si mesma, principalmente quando se
trata de questões internas da nação ou do Estado. Nos bons tempos, isto é, nos
tempos de um bom governo, tal disposição é uma razão do valor extraordinário
dessas camadas para o Estado; em épocas de governos maus, porém, ela age de
maneira verdadeiramente maléfica. Para conseguir a realização de uma luta séria,
o movimento pangermanista tinha de lançar-se á conquista das massas. O fato de
não se ter agido assim tirou-lhe, de começo, o impulso inicial que uma tal onda
necessita para não desfazer-se.
Quando,
inicialmente, não se tem em mira e não se executa esse princípio básico, o novo
partido perde, para o futuro, toda possibilidade de evitar os efeitos do erro de
começo. Aceitando, em número excessivo, elementos moderados burgueses, a atitude
do movimento será dirigida por estes, ficando assim excluída a possibilidade de
recrutar forças apreciáveis no seio da grande massa popular. Tal movimento não
passará mais de pálidos mexericos e críticas. Nunca mais se poderá criar a fé
quase religiosa aliada a idêntico espírito de sacrifício; surgirá, porém, em seu
lugar, a tendência de, por meio de cooperação "positiva" - neste caso isso
significa o reconhecimento do statu quo - aos poucos, aparar a dureza da luta
para finalmente chegar a uma paz podre.
Foi o
que aconteceu ao movimento pangermanista, pelo fato de não ter, desde o
princípio, acentuado principalmente a conquista de seus adeptos entre os
círculos da grande massa. Tornou-se um movimento "burguês, distinto,
moderadamente radical".
Desse erro decorreu,
porém, a segunda causa de seu rápido
desaparecimento.
A situação na Áustria, para o
germanismo, no tempo do aparecimento do movimento pangermanista, já não dava
lugar a esperanças. De ano a ano, o parlamento se tornava, cada vez mais, uma
instituição destinada ao aniquilamento lento do povo alemão. Toda tentativa de
salvação na décima-segunda hora só podia oferecer uma probabilidade, embora
pequena, de êxito, na extinção dessa
instituição.
Com isso surgiu, junto ao
movimento, uma questão de importância
teórica.
Para destruir o parlamento,
dever-se-ia ir ao parlamento, a fim de esvaziá-lo "de dentro para fora" ou
devia-se conduzir essa luta de fora, atacando aquela
instituição.
Os pangermanistas entraram no
parlamento e foram derrotados.
Verdade é que se
devia penetrar ali.
Conduzir uma luta contra
tal potência, do lado de fora, significava armar-se de coragem inabalável é
estar também disposto a sacrifícios infinitos. Agarra-se o touro pelos cornos e
recebe-se fortes marradas. As vezes se cairá por terra, podendo levantar-se com
os membros partidos, somente depois da mais áspera luta é que a vitória sorrirá
ao ousado atacante. Somente a grandeza dos sacrifícios conquistará novos
lutadores para a causa, até que a persistência garanta
sucesso.
Para isso, porém, são necessários os
filhos do povo, tirados da grande massa.
Só
eles são suficientemente decididos e tenazes para conduzir essa luta ao seu fim
sangrento.
O movimento pangermanista, porém,
não possuía essa grande massa; nada mais lhe restava, pois, que ir ao
parlamento.
Seria falso pensar que essa
resolução tivesse sido o resultado de longos sofrimentos íntimos ou mesmo de
meditações; não, não se pensava absolutamente em outra
coisa.
Essa tolice, nada mais era que o reflexo
de noções pouco claras sobre a importância e o efeito de tal participação numa
instituição reconhecida, já em princípio, como falsa. Esperava-se, geralmente,
facilitar o esclarecimento da grande massa popular, uma vez que se tinha a
oportunidade de falar diante do "foro da nação inteira". Parecia também claro
que o ataque à raiz do mal teria mais êxito que o ataque feito de fora.
Pensava-se que a proteção das imunidades fortaleceria a segurança dos vários
lutadores, de sorte que o ataque se tornaria mais
forte.
Na realidade, porém, as coisas tomaram
outro aspecto.
O "foro" perante o qual falavam
os deputados pangermanistas em vez de tornar-se maior, tornara-se menor, pois
cada um só fala diante do círculo que é capaz de ouvi-lo ou que, por meio dos
comunicados da imprensa, recebe uma reprodução do que foi
dito.
O maior foro de ouvintes é representado
não pela sala de um parlamento e, sim, por um grande comício
público.
No comício se encontra um grande
número de pessoas que vieram somente para ouvir o que o orador tem a dizer-lhes,
ao passo que no salão de sessões da Câmara dos Deputados só há algumas centenas
de indivíduos que estão em geral apenas para receberem o seu subsídio e não para
receber esclarecimentos da sapiência de um ou outro senhor "representante do
povo".
Antes de tudo, porém, trata se, no caso,
do mesmo público que nunca está disposto a aprender algo de novo, pois, além de
faltar-lhe inteligência, falta-lhe a necessária vontade para
isso.
Jamais um desses representantes fará por
si mesmo honra à melhor verdade para, em seguida, pôr-se a seu serviço. Não.
Nenhum fará isso, a não ser que tenha razão de esperar que tal mudança possa
salvar o seu mandato por mais uma legislatura. Só quando pressentem que o seu
partido sairá mal nas próximas eleições é que essas glórias da humanidade se
mexem para verificar como se poderá mudar para um partido de orientação mais
segura, sendo que essa mudança de atitude se processa sob um dilúvio de
justificações morais. - Daí, acontecer sempre que quando um partido decai em
grande escala do favor público e que há ameaça provável de uma derrota
fulminante, começa a grande migração: os ratos parlamentares abandonam o navio
partidário.
Isso nada tem que ver com o saber e
o querer, mas é um índice daquele dom divinatório que adverte, ainda em tempo
oportuno, o tal percevejo parlamentar, fazendo com que ele se abrigue em outra
cama partidária mais quente.
Falar perante um
tal "foro" significa, na verdade, jogar pérolas a porcos. De fato, isso não vale
a pena! Nesse caso o êxito não pode ser senão igual a
zero.
E assim era, na realidade. Os deputados
pangermanistas poderiam falar até rebentar: o efeito, porém, seria
nulo.
A imprensa, por sua vez, conservava-se
muda ou mutilava os discursos de tal maneira que qualquer conexão era impossível
e mesmo o sentido era deturpado, quando não se perdia inteiramente. E por isso a
opinião pública só recebia uma imagem muito imperfeita das intenções do novo
movimento. Era inteiramente destituído de importância o que dizia cada um dos
deputados: a importância estava naquilo que se dava a ler como sendo deles.
Consistia isso em extratos de seus discursos, que, mutilados, só podiam e deviam
provocar impressão errônea. Assim o público perante o qual eles falavam
realmente era os escassos quinhentos parlamentares. E isso nos diz
bastante.
O pior, porém, era o seguinte: o
movimento pangermanista só poderia contar com sucesso caso tivesse compreendido,
desde o primeiro dia, que não se deveria tratar de um novo partido e, sim, de
uma nova concepção política do mundo. Só esta conseguiria provocar as forças
internas para essa luta gigantesca. Para esse fim, porém, só servem para chefes
as melhores e mais corajosas cabeças.
Caso a
luta por um sistema universal não seja conduzida por heróis prontos ao
sacrifício, em curto espaço de tempo será impossível encontrar lutadores
preparados para morrer. Um homem que combate exclusivamente por sua existência
pouco terá de sobra para a causa geral. A fim de que se possa realizar aquela
hipótese, é necessário que cada um saiba que o novo movimento trará honra e
glória ante a posteridade e que, no presente, nada oferecerá. Quantos mais
postos tenha um movimento a distribuir, maior será a concorrência dos
medíocres., até que estes políticos oportunistas, sufocando pelo número o
partido vitorioso, o lutador honesto não mais reconheça o antigo movimento e os
novos adesistas o rejeitem decididamente como um intruso"
incômodo.
Com isso, porém, estará liquidada a
"missão" de tal movimento.
Logo que a agitação
pangermanista aceitou o parlamento, começou a dispor de "parlamentares" em vez
de guias e lutadores de verdade. O partido baixou ao nível de qualquer das
facções do tempo e, por isso, perdeu a força necessária para enfrentar o destino
com a audácia dos mártires. Em vez de lutar, aprendeu também a "falar" e a
"negociar". Em breve tempo, o novo parlamentar sentia como mais nobre dever, -
porque menos arriscado - combater a nova concepção do mundo com as armas
"espirituais" da eloqüência parlamentar, em vez de lançar-se numa luta com o
risco da própria vida - luta de resultado incerto e que nada rende para os seus
líderes.
Como eles estavam no parlamento, os
adeptos, lá fora, começaram a esperar milagres, que naturalmente não se
realizaram e nem poderiam realizar-se. Dentro em pouco, apareceu a impaciência,
pois, mesmo o que se conseguia ouvir dos próprios deputados de modo algum
correspondia às esperanças dos eleitores. Isso era de fácil explicação, pois a
imprensa inimiga evitava transmitir ao público uma imagem exata da ação dos
representantes pangermanistas.
Quanto mais
crescia o gosto dos novos representantes do povo pela maneira ainda suave da
luta "revolucionária" no parlamento e nas dietas, tanto menos se achavam eles
dispostos a voltar ao mais perigoso trabalho de propaganda, no seio das camadas
populares.
Os comícios, que eram o único meio
eficiente de influir sobre as pessoas e, portanto, capaz de atrair grandes
massas populares, eram cada vez menos
utilizados.
Desde que as reuniões nas casas
públicas foram definitivamente substituídas pela tribuna do parlamento, para,
deste foro, derramar os discursos sobre as cabeças do povo, o movimento
pangermanista deixou de ser um movimento popular e desceu, em curto tempo, à
categoria de um clube de dissertações acadêmicas, de caráter mais ou menos
sério.
A má impressão propagada pela imprensa
não era, de maneira alguma, corrigida pela atividade das assembléias
parlamentares. Assim, a palavra "pangermanista" passou a soar mal aos ouvidos
populares. É preciso que os literatelhos e peralvilhos de hoje saibam que as
maiores revoluções deste mundo nunca foram dirigidas por
escrevinhadores!
Não. A pena sempre se limitou
a traçar as bases teóricas das revoluções.
O
poder, porém, que pôs em movimento as grandes avalanchas históricas, de caráter
religioso e político, foi, desde tempos imemoriais, a força mágica da palavra
falada.
Sobretudo a grande massa de um povo
sempre só se deixa empolgar pelo poder da palavra. Todos os grandes movimentos
são movimentos populares, são erupções vulcânicas de paixões humanas e de
sensações psíquicas provocadas ou pela deusa cruel da necessidade ou pela tocha
da palavra atirada entre a massa e não por meio de jorros de literatos
açucarados metidos a estetas e a heróis de
salão.
Só uma tempestade de paixão escaldante é
que consegue torcer o destino dos povos: mas só consegue provocar entusiasmo
quem o possua no seu íntimo. Só esse entusiasmo inspira aos seus eleitos as
palavras que, como golpes de martelo, conseguem abrir as portas do coração de um
povo.
Não é escolhido para anunciador da
vontade divina aquele a quem falta a paixão e mantém-se em um silêncio
cômodo.
Por isso, todo escritor devia
restringir-se ao seu tinteiro, para trabalhar "teoricamente", se não lhe faltam
inteligência e saber. Para chefe não nasceu ele, porém, nem para tal foi
escolhido.
Um movimento de grandes objetivos,
deve, pois, diligenciar para não perder o contato com a massa do
povo.
Esse ponto deve ser examinado em primeiro
lugar e as decisões devem ser tomadas sob essa orientação. Deverá ser evitado
tudo o que posse diminuir ou enfraquecer a capacidade de ação sobre a
coletividade, não por motivos "demagógicos", mas pelo simples reconhecimento de
que sem a força formidável da massa de um povo não se pode realizar uma grande
idéia, por mais elevada e sublime que ela pareça. A dura realidade é que deve
determinar o caminho para o objetivo visado; não querer palmilhar caminhos
desagradáveis significa neste mundo desistir do Ideal, quer se queira, quer
não.
Logo que o movimento pangermanista, por
sua atitude parlamentar, colocou o seu ponto de apoio no parlamento e não no
povo, perdeu o futuro e ganhou, em troca, o êxito barato e
passageiro.
Escolheu a luta mais fácil, e, por
isso mesmo, deixou de merecer a vitória
final.
Justamente essas questões foram por mim
estudadas em Viena, da maneira mais profunda, notando, então, que, no seu não
reconhecimento, estava um dos principais motivos do colapso do movimento, que, a
meu ver, era destinado a tomar em suas mãos a direção do
germanismo.
Os dois primeiros erros que fizeram
com que fracassasse o movimento pangermanista completavam-se, um era
conseqüência do outro. A falta de conhecimento das forças impulsoras das grandes
revoluções deu lugar à errada avaliação da importância das grandes
coletividades; daí proveio o pouco interesses pela questão social, o medíocre
aliciamento das camadas inferiores da nação, bem como também a atitude favorável
em relação ao parlamento.
Caso tivesse sido
reconhecido o incrível poder que cabe à massa como portadora da resistência
revolucionária em todos os tempos, ter-se-ia trabalhado de outra maneira, tanto
socialmente como com relação à propaganda. Não se teria também, então, acentuado
o movimento em direção ao parlamento e sim em direção à oficina e à
rua.
O terceiro erro, porém, se caracterizou
ainda mais pelo não reconhecimento do valor da massa, que, uma vez movimentada
em determinada direção, por espíritos superiores, mais tarde, como um volante,
dá impulso à força e tenacidade uniforme do
ataque.
A áspera luta que o movimento
pangermanista teve de sustentar com a Igreja católica só se explica devido à
falta de compreensão da psicologia do povo.
As
causas do ataque violento do novo partido contra Roma estavam no
seguinte:
"Logo que a Casa dos Habsburgos se
decidira definitivamente a transformar a Áustria em um Estado eslavo, foram
utilizados todos os meios que pareciam próprios para esse fim. As instituições
religiosas foram também inescrupulosamente postas ao serviço da nova idéia
oficial, por essa inconscientíssima dinastia. A utilização de paróquias tchecas
e de seus curas era somente um dos muitos meios de chegar a este fim, isto é,
uma eslavização generalizada da Áustria".
O
processo desenrolava-se mais ou menos
assim:
"Os padres tchecos eram mandados para
paróquias puramente alemãs. Esses sacerdotes lenta, mas seguramente, começavam a
sobrepor os interesses do povo tcheco aos interesses da Igreja, tornando-se
assim a célula mater do processo de
desgermanização".
O clero germânico, ante esse
processo, fracassou quase completamente. E assim aconteceu não só porque esses
próprios sacerdotes eram inteiramente incapazes de uma semelhante luta, no
sentido do germanismo. como por não conseguirem opor a necessária resistência
ao- ataque dos outros. Dessa maneira o germanismo era lenta, mas
irresistivelmente, repelido por um lado, pela ação desabusada de parte do clero
que se lhe opunha e pelo outro pela insuficiência da defesa. Se, como vimos,
isso se dava em pequena escala, em grande escala não seria outra a
situação.
Aí também as tentativas
antigermânicas dos Habsburgos não encontraram, sobretudo de parte do alto clero,
a resistência exigida, e, assim, a defesa dos interesses alemães passava a plano
secundário.
A impressão geral era de que havia
uma ofensa grosseira aos direitos alemães da parte do clero
católico.
Parecia com isso que a Igreja não
sentia com o povo alemão e se colocava, de maneira injusta, ao lado do inimigo
do mesmo. A raiz de todo o mal, porém, estava, segundo a opinião de Schönere, no
fato de a direção da Igreja católica não estar na Alemanha, bem como na
animosidade, proveniente desse fato, contra os anseios de nossa
nacionalidade.
Os chamados problemas culturais
passaram, como quase tudo na Áustria, para segundo plano. O que valia, na
atitude do movimento pangermanista, com relação à- Igreja católica, era menos a
atitude desta relativamente à ciência que a sua insuficiente compreensão dos
interesses alemães e, inversamente, uma constante fomentação das pretensões e da
cobiça eslavas.
George Schönere não era homem
que fizesse as coisas pela metade. Iniciou a luta contra a Igreja, convencido de
que somente por ela é que a raça alemã poderia salvar se. O movimento de
libertação contra Roma (Los von Rom") parecia o mais formidável, porém também o
mais difícil processo de ataque, que teria de destruir a cidadela inimiga. Fosse
ele vitorioso estaria vencida, para sempre, a infeliz cisão religiosa na
Alemanha e a força interior do Reich e da nação alemã poderia, com uma tal
vitória, lucrar de maneira
formidável.
Entretanto, nem a previsão nem as
conclusões dessa luta estavam
certas.
Incontestavelmente a força de
resistência do clero católico, de nacionalidade alemã, era inferior, em todas as
questões referentes ao germanismo, às de seus irmãos não alemães, sobretudo
tchecos.
Ao mesmo tempo, só um ignorante não
veria que ao clero alemão jamais ocorreu uma defesa agressiva dos interesses da
sua raça.
Demais, quem quer que não estivesse
ofuscado pelas aparências, deveria reconhecer que esse fato deve ser atribuído
primeiro que tudo a uma circunstância que todos nós alemães devemos lastimar: a
"objetividade" com que encaramos os problemas raciais, assim como todos os
outros.
Assim como o sacerdote tcheco era
subjetivo em relação ao seu povo e somente objetivo em relação A Igreja, o
sacerdote alemão era dedicado subjetivamente à Igreja e permanecia objetivo com
relação à nação. Esse é um fenômeno que em mil outros casos podemos constatar,
para infelicidade nossa.
Isso não é de maneira
alguma só uma herança especial do catolicismo, mas ataca, entre nós, em curto
espaço de tempo, quase toda a organização do
Estado.
Compare-se, por exemplo, a atitude que
o nosso funcionalismo público assume em face das tentativas de um renascimento
nacional com a do funcionalismo de qualquer outra nação em circunstâncias
semelhantes. Imagina-se, acaso, que o corpo de funcionários de qualquer outro
país do mundo preteriria de maneira semelhante os desejos da nação ante a frase
oca "autoridade do Estado", como é corrente entre nós desde cinco anos, sendo
até considerado particularmente digno de elogios, quem assim procede? Não
assumem os dois credos, hoje em dia, na questão judaica, uma atitude que não
está em harmonia nem com os desejos da nação nem com os verdadeiros interesses
da própria religião? Compare-se, por exemplo, a atitude de um rabino, em todas
as questões, mesmo de somenos importância do judaísmo como raça, com a do clero
de ambos os credos cristãos com relação à raça
germânica.
Isso acontece conosco toda vez que
se trata de defender uma idéia abstrata.
A
"autoridade do Estado", a "democracia", o "pacifismo", a "solidariedade
internacional", etc., são idéias que sempre convertemos em concepções fixas,
puramente doutrinárias, de sorte que todo julgamento sobre as necessidades
vitais da nação é feito exclusivamente por esse
critério.
Essa maneira infeliz de considerar
todas as aspirações pelo prisma de uma opinião preconcebida destrói toda a
capacidade de aprofundar-se o homem num assunto subjetivamente por contradizer
objetivamente a própria teoria e conduz finalmente a uma inversão de meios e de
finalidades. Toda tentativa de levantar a nação será repelida, desde que
implique na extinção de um regime, mesmo mau, desde que seja uma infração ao
"princípio de autoridade". O "princípio de autoridade" não é, porém, um meio
para um fim, antes, aos olhos desses fanáticos da objetividade, representa o
próprio fim, o que é suficiente para explicar a triste vida desse princípio.
Assim é que, por exemplo, toda tentativa por uma ditadura seria recebida com
indignação, mesmo que o seu executor fosse um Frederico, o Grande, e que os
artistas políticos de uma maioria parlamentar momentânea não passassem de anões
incapazes ou de indivíduos medíocres. A lei da democracia parece mais sagrada
para um desses doutrineiros que o bem da nação. Um protegerá, portanto, a pior
tirania que aniquila um povo, desde que o "princípio de autoridade" se corporiza
nela, ao passo que o outro rejeita mesmo o mais abençoado governo, desde que
este não corresponda à sua concepção de
democracia.
Da mesma maneira o nosso pacifista
alemão silenciará diante do mais sangrento atentado contra o povo, mesmo que ele
parta das mais rudes Forças militares; silenciará desde que a mudança desse
destino só seja possível por meio de uma resistência, portanto, de uma
violência, pois isso contraria o seu espírito pacifista. O socialista alemão
internacional, entretanto, pode ser saqueado solidariamente pelo resto do mundo;
ele mesmo retribui com simpatia fraternal e não pensa em reparações ou mesmo
protestos, pois que ele é - um alemão.
Isso
pode ser deplorável, porém quem quiser modificar uma situação deve reconhecê-la
primeiramente. O mesmo acontece com a defesa dos
anseios do povo alemão por uma parte do clero. Por si, isso não representa nem
má vontade, nem é provocado, por exemplo, por ordem "de cima". Vemos, porém,
nessa fraqueza nacional, o resultado de uma educação também falha no sentido da
germanização da juventude como também, por outro lado, uma submissão irrestrita
à idéia tornada ídolo.
A educação para a
democracia, para o socialismo de feitio internacional, para o pacifismo, etc., é
tão rígida e radical, portanto considerada por eles puramente subjetiva que, com
isso, a imagem geral do resto do mundo é influenciada por essa noção
fundamental, ao passo que a atitude para com o germanismo desde a juventude
sempre se caracterizou pelo seu objetivismo. Dessa maneira o pacifista alemão
que se submete subjetivamente à sua idéia, procurará sempre primeiro os direitos
objetivos, mesmo em casos de ameaças injustas e pesadas a seu povo e nunca se
colocará, por puro instinto de conservação, na fileira de seu rebanho para lutar
ao lado dele.
Quanto isso vale para os vários
credos, pode ser mostrado pelo seguinte:
O
protestantismo representa, por si, melhor, as aspirações do germanismo, desde
que esse germanismo esteja fundamentado na origem e tradições da sua igreja;
falha, entretanto, no momento em que essa defesa dos interesses nacionais tenha
de realizar-se num domínio em discordância com a sua tradicional maneira de
conceber os problemas mundiais.
O
protestantismo servirá para promover tudo o que é essencialmente germânico,
sempre que se trate de pureza interior ou, de intensificar o sentimento
nacional, ou de defesa da vida alemã, da língua e também da liberdade, uma vez
que tudo isso é parte essencial nele; mas é mais hostil a qualquer tentativa de
salvar a nação das garras de seu mais mortal inimigo, porque a sua atitude em
relação ao judaísmo foi traçada mais ou menos como um dogma. Nisso ele gira
indecisamente em torno da questão e, a não ser que essa questão seja resolvida,
não terá sentido ou possibilidade de êxito qualquer tentativa de um renascimento
alemão.
Durante minha estadia em Viena, eu tive
bastante prazer e oportunidade de examinar essa questão, sem espírito
preconcebido e, pude ainda verificar milhares de vezes, no convívio diário, a
correção desse modo de ver.
Nessa cidade em que
estão em foco as mais variadas raças, era evidente, a todos parecia claro, que
somente o pacifista alemão procura considerar sempre objetivamente as aspirações
de sua própria nação, porém nunca o faz assim o judeu em relação às do seu povo;
que somente o socialista alemão é "internacional", isto é, é proibido de fazer
justiça a seu próprio povo de outra maneira que não seja com lamentações e choro
entre os companheiros internacionais. Nunca agem assim o tcheco, o polaco, etc.
Enfim, reconheci desde então, que a desgraça só em parte está nessas teorias e,
por outra parte, em nossa insuficiente educação com relação ao nacionalismo e
numa dedicação diminuída, em virtude disso, em relação ao
mesmo.
Por essas razões, falhou o primeiro
fundamento puramente teórico do movimento pangermanista contra o
catolicismo.
Eduque-se o povo alemão, desde a
juventude, no reconhecimento firme dos direitos da própria nacionalidade e não
se empestem os corações infantis com a maldição de nossa "objetividade", mesmo
em coisas relativas à conservação do próprio eu, e em pouco tempo,
verificar-se-á que (supondo-se um governo radical nacional), assim como na
Irlanda, na Polônia ou na França, o católico alemão será sempre
alemão.
A mais formidável prova disso foi
fornecida naquela época em que, pela última vez, o nosso povo, em defesa de sua
existência, se apresentou, diante da justiça da História, em uma luta de vida e
de morte.
Enquanto naquele momento não faltou a
direção de cima, o povo cumpriu o seu dever do modo mais
decisivo.
Pastor protestante ou padre católico,
ambos contribuíram infinitamente para uma longa conservação de força de
resistência, não só no "front" mas, sobretudo, no interior do país. Nesses anos,
e sobretudo nos primeiros momentos de entusiasmo, só existia na realidade um
único império alemão sagrado nos dois campos e para cuja subsistência e futuro
cada um se dirigia ao seu céu.
O movimento
pangermanista na Áustria deveria ter-se proposto a seguinte pergunta: É ou não
possível a conservação do germanismo austríaco sob uma fé católica? No caso
afirmativo, o partido político não se deveria ter incomodado com a questão
religiosa ou de credo. Em caso contrário, seria necessária uma reforma religiosa
e nunca um partido político.
Aquele que pensa
poder chegar, pelo atalho de uma organização política, a uma reforma religiosa,
mostra somente que lhe falta qualquer vislumbre da evolução das noções
religiosas ou mesmo das dogmáticas e da atuação prática do
clero.
Na realidade não se pode servir a dois
senhores, sendo que eu considero a fundação ou destruição de uma religião muito
mais importante do que a fundação ou destruição de um Estado, quanto mais de um
partido.
Não se diga que os aludidos ataques
foram a defesa contra ataques do lado
contrário!
É certo que, em todas as épocas,
houve indivíduos sem consciência que não tiveram pejo de fazer da religião
instrumento de seus interesses políticos (pois é disso que se trata quase sempre
e exclusivamente entre esses pulhas). Entretanto, é falso tornar a religião ou o
credo responsável por um bando de patifes que dela fazem mau uso, da mesma forma
por que poriam qualquer outra coisa a serviço de seus baixos
instintos.
Nada pode melhor servir a um
tratante e mandrião parlamentar do que a oportunidade que assim se lhe oferece
de, ao menos posteriormente, conseguir a justificação de sua esperteza política.
Pois logo que a re1igião ou o credo é responsabilizado por uma maldade pessoal e
por isso atacados, o maroto chama, com berreiro formidável, o mundo inteiro para
testemunhar quão justa fora a sua atuação e como, graças a ele e à sua
loquacidade, foram salvas a religião e a igreja. Os contemporâneos, tão tolos
quanto esquecidos, não reconhecem o verdadeiro causador da luta, devido ao
grande berreiro que se faz ou não se lembram mais dele e assim atinge o patife o
seu objetivo.
Essas astuciosas raposas sabem
bem que isso nada tem a ver com a religião. Por isso mais rirá ele consigo
mesmo, enquanto que o seu adversário, honesto porém inábil, perde a cartada e
retira-se de tudo, desiludido da lealdade e da fé nos
homens.
Em outro sentido, seria também injusto
tomar a religião ou mesmo a igreja como responsável pelos desacertos de
quaisquer indivíduos.
Compare-se a grandeza da
organização visível com a defeituosidade média dos homens em geral e será
necessário admitir que a relação do bem para o mal é melhor entre nós do que em
qualquer outra parte. É certo que há também, mesmo entre os próprios padres,
alguns para os quais a sua função sagrada é apenas um meio para a satisfação de
sua ambição- política e que chegam mesmo a esquecer, na luta política, muitas
vezes de maneira mais do que lamentável, que deveriam ser os guardas de uma
verdade superior e não os representantes da mentira e da calúnia. Entretanto
para cada indigno desses há, por outro lado, milhares e milhares de curas
honestos, dedicados da maneira mais fiel à sua missão que, em nossos tempos
atuais, tão mentirosos como decadentes, se destacam como pequenas ilhas num
pântano geral.
Tão pouco condeno ou devo
condenar a igreja pelo fato de um sujeito qualquer de batina cair em falta
imunda contra os costumes, quando muitos outros mancham e traem a sua
nacionalidade, em uma época em que isso ocorre freqüentemente. Sobretudo hoje em
dia, é bom não esquecer que para cada Efialtes há milhares de pessoas que, com o
coração sangrando, sentem a infelicidade de seu povo e, como os melhores de
nossa nação, desejam ansiosamente a hora em que para nós o céu possa sorrir
também.
A quem, porém, responde que, no caso,
não se trata de pequenos problemas da vida diária, mas sobretudo de questões de
verdade fundamental e de conteúdo dogmático, pode-se dar a devida resposta com
outra questão:
"Se te considerares feito pelo
destino a fim de proclamar a verdade, faze-o; tem, porém, também, a coragem de
não quereres fazer isso pelo talho de um partido político - pois constitui
também esperteza, mas coloca, em lugar do mal de agora, o que lhe parece melhor
para o futuro.
Se porventura te faltar a
coragem ou se não conheceres bem o que em ti há de melhor, não te metas; em todo
caso, não tentes, pelo recurso de um movimento político, conseguir
astuciosamente aquilo que não tens coragem de fazer de viseira
erguida".
Os partidos políticos nada têm a ver
com os problemas religiosos, a não ser que estes, estranhos ao povo, venham
solapar os costumes e a moral da própria raça. A religião também não se deve
imiscuir em intrigas do partidarismo
político.
Quando os dignitários da igreja se
servem de instituições ou doutrinas religiosas para prejudicar a sua
nacionalidade, nunca deverão ser seguidos nessa trilha e sim combatidos com as
mesmas armas.
As doutrinas e Instituições
religiosas de seu povo devem ser intangíveis para o chefe político; ao
contrário, este não deveria ser político e sim
reformador!
Qualquer outra atitude conduziria a
uma catástrofe, especialmente na Alemanha.
Nas
minhas observações sobre o movimento pangermanista em sua luta contra Roma,
cheguei, naquela ocasião e, sobretudo posteriormente, à seguinte conclusão:
devido a sua fraca compreensão da significação do problema social, o movimento
perdeu a força combativa da massa popular. Indo ao parlamento, perdeu a sua
força de impulsão e sobrecarregou-se com toda a fraqueza inerente àquela
instituição. A sua luta contra a igreja desacreditou-o perante muitas camadas
das classes baixa e média e privou-o de muitos dos melhores elementos que se
poderiam indicar como essencialmente
nacionais.
Os resultados da "Kulturkampf" na
Áustria foram praticamente nulos.
É verdade que
foi possível arrancar perto de cem mil membros à igreja, porém sem que ela por
isso tivesse sofrido dano sensível. Realmente, nesse caso, não havia necessidade
de chorar pelas "ovelhinhas" perdidas; ela só perdeu o que há já muito tempo
intimamente lhe não pertencia. Essa era a diferença entre a nova reforma e a
antiga. Outrora, muitos dos melhores elementos da igreja se tinham afastado dela
por convicção religiosa íntima, ao passo que agora só os "mornos" é que se foram
e por "considerações" políticas.
Justamente do
ponto de vista político o resultado foi muito ridículo e deplorável.
Mais uma vez fracassara um promissor movimento
político da nação alemã por não ter sido conduzido com a necessária sobriedade,
mas perdera-se um campo que forçosamente teria de conduzir a um
desagregamento.
A verdade, pois, é
que:
O movimento pangermanista jamais teria
cometido esse erro, se não possuísse pouca compreensão da psicologia da massa.
Se os seus chefes tivessem sabido que para conseguir êxito não se deve nunca
mostrar a massa dois ou mais adversários, por considerações puramente psíquicas,
pois isso conduziria de outra maneira ao desagregamento da força combativa, só
por esse motivo o movimento pangermanista deveria ter sido principalmente
dirigido contra um só adversário. Nada mais perigoso para um partido político
que deixar-se levar nas suas decisões por levianos que tudo querem sem conseguir
jamais coisa alguma.
Mesmo que nos vários
credos haja muita coisa a eliminar o partido político não deve perder de vista
um minuto o fato de que, a julgar por toda a experiência da história até hoje,
nunca um partido político conseguiu, em situações semelhantes, chegar a uma
reforma religiosa. Não se estuda, porém, a história para não recordar os seus
ensinamentos quando é chegada a hora de aplicá-la praticamente ou para pensar
que as coisas agora são outras e que, portanto, as suas verdades não são mais
aplicadas, mas aprende-se dela justamente o ensino útil para o presente. Quem
não consegue isso, não deve ter a pretensão de ser chefe político. Esse é na
realidade um idiota superficial e muito convencido e toda boa vontade não
desculpa a sua incapacidade prática.
A arte de
todos os grandes condutores de povos, em todas as épocas, consiste, em primeira
linha, em não dispersar a atenção de um povo e sim em concentrá-la contra um
único adversário. Quanto mais concentrada for a vontade combativa de um povo,
tanto maior será a atração magnética de um movimento e mais formidável o ímpeto
do golpe. Faz parte da genialidade de um grande condutor fazer parecerem
pertencer a uma só categoria mesmo adversários dispersos, porquanto o
reconhecimento de vários inimigos nos caracteres fracos e inseguros muito
facilmente conduz a um princípio de dúvida sobre o direito de sua própria
causa.
Logo que a massa hesitante se vê em luta
contra muitos inimigos, surge imediatamente a objetividade e a pergunta de se
realmente todos estão errados ou só o próprio povo ou o próprio movimento é que
está com o direito.
Com isso aparece também o
primeiro colapso da própria força. Daí ser necessário que uma maioria de
adversários internos seja sempre vista em blocos, de sorte que a massa dos
próprios adeptos julgue que a luta seja dirigida contra um inimigo único. Isso
fortalece a fé no próprio direito e aumenta a irritação contra o
inimigo.
O fato de o movimento pangermanista
não ter compreendido isso lhe custou a
derrota.
O seu objetivo estava certo. A vontade
era pura. O caminho seguido, porém, estava errado. Ele se assemelhava a um
alpinista que tem em vista o pico a ser galgado e que se põe a caminho com
decisão e força, sem porém dedicar atenção a esse último, tendo a vista sempre
voltada para o objetivo, sem atentar na trilha que segue. Por isso,
fracassa.
Inversamente, parecia passarem-se as
coisas nas fileiras do adversário - no Partido Socialista
Cristão.
O caminho seguido por este foi sábia e
seguramente escolhido. Entretanto, faltou-lhe a compreensão exata do
objetivo.
Em quase todos os pontos em que o
movimento pangermanista falhou, eram bem e corretamente pensadas as disposições
do Partido Socialista Cristão.
Ele compreendia
exatamente a importância das massas e, desde o seu início, atraiu a si uma certa
camada popular, pela ostensiva afirmação de seu caráter social. E desde que se
dispôs a ganhar a classe média e a classe dos artesãos, ganhou permanentes e
fiéis sectários, prontos para o sacrifício de si mesmos. O partido evitou
combater contra quaisquer organizações representadas pela Igreja,
assegurando-se, assim, o apoio dessa poderosa organização. Possuía, por isso, um
único adversário verdadeiramente grande. Compreendeu o valor da propaganda em
larga escala e especializou-se em influenciar psicologicamente os instintos da
grande maioria de seus adeptos.
O fato de ter o
partido falhado em seu sonho de salvar a Áustria foi devido aos seus métodos,
que eram errados em dois sentidos, assim como à obscuridade de seus
objetivos.
Em vez de ser fundado sobre base
racial, o seu anti-semitismo tinha fundamento religioso. A razão por que esse
erro se insinuou foi a mesma que causou o segundo
erro.
Se o Partido Socialista Cristão quisesse
salvar a Áustria não se deveria apoiar, na opinião de seu fundador, no princípio
racial, desde que, de qualquer modo, em breve prazo, ocorreria a dissolução
geral do Estado. Os chefes do partido entenderam que a situação em Viena exigia
que se evitassem as tendências para a dispersão e se apoiassem todos os pontos
de vista conducentes à unidade.
Naquela época,
Viena se achava fortemente impregnada de elementos tchecos e nada a não ser a
extrema tolerância nos problemas raciais poderia evitar que aquele partido fosse
anti-germânico desde o início. - Para salvação da Áustria, aquele partido não
poderia ser dispensado. Por isso fizeram esforços especiais para ganhar o grande
número de pequenos negociantes tchecos de Viena pela oposição à escola liberal
de Manchester e, com isso, julgavam haver descoberto um grito de guerra para a
luta contra o judaísmo, luta baseada na religião, que deixaria na sombra todas
as diferenças de raça da velha Áustria.
Claro é
que um combate em tal base molestaria muito pouco os judeus. Na pior das
hipóteses, um pouco de água benta bastaria para salvar os seus negócios e, ao
mesmo tempo, o seu judaísmo.
Com essa base
leviana, nunca foi possível tratar de maneira séria e científica do problema,
mas apenas perderam-se muitos adeptos que não compreendiam essa espécie de
anti-semitismo. Com isso a força de aliciar adeptos ficaria circunscrita quase
exclusivamente a círculos intelectuais restritos, a não ser que se quisesse
passar do puro sentimento para um verdadeiro do problema. A atitude das classes
intelectuais era de franca negação. A questão parecia cada vez mais limitar-se a
uma nova tentativa de conversão dos judeus. Tinha-se até a impressão de
tratar-se de uma certa inveja de concorrente. Com isso a luta perdeu o caráter
de um movimento superior e para muitos - e justamente não para os piores - tomou
a aparência de imoral e reprovável. Faltava a convicção de que se tratava de uma
questão vital de toda a humanidade, de cuja solução dependia o destino de todos
os povos não judeus.
As meias medidas, a
indecisão, haviam destruído o valor da posição anti-semítica do Partido
Socialista Cristão.
Era um anti-semitismo
aparente, era pior do que nada, porque o povo tinha a ilusão de segurar
firmemente o seu inimigo nas mãos, quando este é que o
guiava.
O judeu, porém, em curto espaço de
tempo, de tal maneira se acostumara a essa espécie de anti-semitismo, que a sua
supressão certamente lhe teria feito mais falta do que incômodos lhe dava a sua
existência.
Se o Estado constituído de
diferentes raças já exigia um sacrifício, maior ainda o exigia a defesa do
germanismo.
Não se podia ser "nacionalista", a
não ser que, mesmo em Viena, se quisesse deixar de sentir a terra debaixo dos
pés. Esperava-se salvar o Estado dos Habsburgos contornando suavemente essa
questão e, assim, o atiravam diretamente à ruína. Com isso, porém, perdeu o
movimento a única poderosa fonte, de energia que pode fornecer força,
duradouramente, a um partido político. O movimento cristão social tornou-se, com
isso, um partido como qualquer outro. Eu havia seguido atentamente os dois
movimentos, um por impulso íntimo do coração, o outro arrastado pela admiração
pelo homem raro que já então me aparecia como um símbolo amargo de todo o
germanismo austríaco.
Quando o formidável
cortejo fúnebre conduzia o falecido burgomestre da Rathaus para a Ringstrasse,
também me encontrava entre as muitas centenas de milhares de pessoas que
assistiam ao espetáculo fúnebre. Intimamente comovido, dizia-me o sentimento que
também a obra desse homem tinha de ser em vão, devido à fatalidade que
irrecusavelmente teria de conduzir aquele Estado ao
aniquilamento.
Se o Dr. Karl Lueger tivesse
vivido na Alemanha, teria sido incluído entre os maiores homens de nossa raça.
Foi infelicidade sua e de sua obra que tivesse vivido naquele Estado
insustentável que era a Áustria.
Ao mesmo tempo
de sua morte, já começava a espalhar-se vivamente, cada mês que se passava,
aquela pequena chama dos Balcãs, de maneira que, por uma gentileza do destino,
foi lhe poupado ver aquilo que ele acreditava poder
evitar.
Eu, porém, tentei encontrar as causas
do insucesso de ambos os movimentos e cheguei à convicção firme de que,
abstraindo inteiramente a impossibilidade de ainda conseguir na velha Áustria o
fortalecimento do Estado, os erros dos dois partidos eram os
seguintes:
O partido pangermanista teoricamente
tinha toda razão quanto ao objetivo da regeneração germânica, mas era infeliz na
escolha de seus métodos. Era nacionalista, mas, infelizmente, não bastante
social para ganhar a adesão da massa popular. O seu anti-semitismo era baseado
na verdadeira apreciação da importância do problema racial e não em- teorias
religiosas. Por outro lado, a sua luta contra um credo definido estava errada
tanto quanto aos fatos como quanto à tática.
As
idéias do movimento cristão socialista acerca do objetivo do renascimento
germânico eram demasiadamente vagas, mas, como partido, era feliz e inteligente
na escolha de seus métodos. Compreendia a importância da questão social, mas
laborava em erro na sua luta contra os judeus e ignorava inteiramente a força do
sentimento nacional.
Se o Partido Socialista
Cristão possuísse, além de sua inteligente compreensão da grande massa, uma
noção certa da importância do problema da raça, como a tinha apanhado o
movimento pangermanista, e tivesse ele também sido nacionalista ou tivesse o
movimento pangermanista adotado, além da sua compreensão certa do objetivo da
questão judaica e da importância do sentimento nacional, também a inteligência
prática do Partido Socialista Cristão, sobretudo quanto à atitude em relação ao
socialismo - ter-se-ia produzido aquele movimento que, já então - estou
convencido - poderia ter influído no destino do
germanismo.
Se isso assim não aconteceu, foi
devido, em grande parte, ao caráter do Estado
austríaco.
Como não via a minha convicção
realizada em nenhum outro partido, eu não podia me decidir a ingressar em uma
das organizações existentes ou mesmo colaborar na luta. Já naquele tempo eu
considerava todos os movimentos políticos falhados e incapazes de realizar o
grande renascimento nacional do povo alemão.
A
minha antipatia pelo Estado dos Habsburgos crescia cada vez mais, naquela
época.
Quanto mais eu começava a preocupar-me
sobretudo com questões de política externa, tanto mais ganhava terreno a minha
convicção de que aquela estrutura estatal tinha de tornar-se- a desgraça do
germanismo. Cada vez mais claramente via, enfim, que o destino da nação alemã
não mais seria decidido desse lugar e, sim, do próprio Reich. Isso, porém, não
dizia respeito apenas às questões políticas, mas também a todas as questões da
vida cultural propriamente.
O Estado austríaco
mostrava também no campo das atividades puramente culturais ou artísticas todos
os sintomas de decadência, ou, pelo menos, a sua insignificância para o futuro
da nação alemã. No campo da arquitetura era que mais isso se fazia sentir. A
arquitetura moderna, por isso mesmo, não tinha grande êxito na Áustria, pois,
após a construção da Ringstrasse, as obras, pelo menos em Viena, eram
insignificantes relativamente aos grandes planos que surgiam na
Alemanha.
Comecei assim a levar cada vez mais
uma vida dupla; a razão e a realidade fizeram-me passar por uma tão amarga
quanto abençoada escola na Áustria. Entretanto o coração andava por outros
lugares. Um angustioso descontentamento me empolgara à medida que eu reconhecia
a vacuidade em torno desse Estado e a impossibilidade de salvá-lo, sentindo, ao
mesmo tempo, com toda a certeza, que, em tudo e por tudo, ele só poderia
representar a desgraça do povo alemão.
Eu
estava convencido de que o Estado se encontrava em situação de poder dominar e
inutilizar qualquer alemão verdadeiramente grande e de apoiar qualquer coisa que
fosse contra o germanismo.
Odiava o
conglomerado de raças, checos, polacos, húngaros, rutenos, sérvios, croatas,
etc. e acima de tudo aquela excrescência desses cogumelos presentes em toda
parte - judeus e mais judeus.
Para mim a cidade
gigante parecia a encarnação do incesto.
O
alemão que eu falava na juventude era o dialeto falado na Baixa Baviera; eu não
conseguia nem esquecê-lo nem aprender a gíria vienense. Quanto mais tempo eu
permanecia naquela cidade, mais aumentava em mim o ódio contra a estranha
mistura de raças que começava a corroer aquele velho centro cultural
alemão.
A idéia, porém, de que aquele Estado
pudesse manter-se por mais tempo me pareceu inteiramente
ridícula.
A Áustria era então como um velho
mosaico, cuja argamassa destinada a segurar as pedrinhas se tivesse tornado
velha e quebradiça. A obra consegue aparentar a sua existência, mas logo que
recebe um choque, quebra-se em mil pedacinhos. A questão toda era saber quando
se daria esse choque.
O meu coração sempre
pulsara, não por uma monarquia austríaca e sim por um império alemão. A hora da
decadência desse Estado só me poderia parecer como o começo da redenção da nação
alemã- Por todos esses motivos, cada vez se tornou mais intenso em mim o desejo
de poder ir para o lugar para onde, desde a mais tenra juventude, me atraíam
secreta ânsia e decidido amor.
Outrora eu
desejara poder algum dia fazer nome como arquiteto e, em pequena ou grande
escala, conforme o destino mandasse, prestar à nação o meu devotado
serviço.
Finalmente, eu desejava ter a
felicidade de, no local, poder desempenhar o meu papel no país onde o mais
ardente desejo de meu coração tinha de ser realizado: a união de meu amado lar
com a pátria, comum.
Muitas pessoas ainda hoje
não poderão compreender a grandeza de uma tal ânsia. Entretanto eu me dirijo
àqueles a quem o destino negou até agora essa felicidade; dirijo-me a todos
aqueles que, desligados da pátria, têm de lutar até pelo bem sagrado da língua,
e que, devido a seu sentimento de fidelidade à pátria, são perseguidos e
martirizados e que, dolorosamente comovidos, esperam ansiosamente a hora que os
deixe voltar de novo ao coração da mãe querida; dirijo-me a todos esses e sei
que eles me compreenderão!
Só aquele que sente
dentro de si o que significa ser alemão sem poder pertencer à pátria querida é
que poderá medir a profunda ânsia que em todos os tempos atormenta aqueles que
dela se acham possuídos e nega-lhes satisfação e felicidade até que se lhe abram
as portas da casa paterna e no Reich comum o sangue comum torne a encontrar paz
e sossego.
Viena era e permaneceu para mim a
mais rude, embora mais completa, escola de minha vida. Eu pisara essa cidade
ainda meio criança e abandonei-a já homem feito. Nela recebi os fundamentos de
uma concepção política em pequena escala, que mais tarde ainda tive de completar
em detalhes, porém que nunca mais me abandonara. O verdadeiro valor daqueles
anos de aprendizado só hoje é que posso apreciar
plenamente.
Por isso é que tratei esse período
mais desenvolvidamente, pois 'foi ele justamente que nessas questões me
proporcionou a primeira lição de coisas em problemas que afetam os princípios do
partido, o qual, tendo começado em mui pequenas proporções, se acha, depois de
apenas cinco anos, em vias de tornar-se um grande movimento popular. Não sei
qual seria hoje a minha atitude em face do judaísmo, da social-democracia, de
tudo o que se entende por marxismo, por questão social, etc., se a força do
destino, naquele primeiro período de minha vida, não me tivesse dado um
fundamento de opiniões formado pela experiência
pessoal.
Pois, se bem que a desgraça da pátria
consegue estimular milhares e milhares de pessoas a pensarem nas causas íntimas
da derrocada, esse fato não consegue nunca conduzir àquela profundidade, àquela
aguda intuição que se abre para aquele que, somente depois de muitos anos de
luta, se tornou senhor do destino.
CAPÍTULO IV - MUNIQUE
Na primavera de
1912 fui definitivamente para Munique.
Aquela
cidade parecia-me tão familiar como se eu tivesse morado há longo tempo dentro
de seus muros. Isso provinha do fato de que os meus estudos a cada passo se
reportavam a essa metrópole da arte alemã. Quem não conhece Munique não viu a
Alemanha, quem não viu Munique não conhece a arte
alemã.
Entretanto, esse período anterior à
guerra foi o mais feliz e tranqüilo de minha vida. Se bem que os meus salários
fossem ainda muito reduzidos, eu não vivia para poder pintar, mas pintava para
dessa maneira, assegurar a minha vida ou, melhor, para assim poder continuar os
meus estudos. Eu estava convencido de que um dia ainda conseguiria o meu
objetivo. E só isso já me fazia suportar com indiferença todos os pequenos
aborrecimentos da vida quotidiana. Acrescente-se mais o grande amor que eu tinha
por aquela cidade, quase que desde a primeira hora da minha permanência ali. Uma
cidade alemã! Que diferença de Viena! Sentia-me mal em pensar naquela babel de
raças. Além disso, o dialeto muito mais chegado a mim, me fazia lembrar a minha
juventude, sobretudo no trato com a Baixa Baviera. Havia milhares de coisas que
já eram ou com o tempo se me tornaram caras. O que, porém, mais me atraía era a
admirável aliança da força e da arte no ambiente geral, essa linha única de
monumentos que vai do Hofbräuhaus ao Odeon, da Ocktoberfest à Pinacoteca.
Sinto-me hoje pertencer mais àquela cidade do que a qualquer outro lugar do
mundo e isso devido ao fato de estar a mesma inseparavelmente ligada à minha
própria vida, à minha evolução. O fato de, já naquela ocasião, eu gozar uma
verdadeira tranqüilidade, era de atribuir-se ao encanto que a admirável
residência de Witteisbach exerce sobre todos os homens que possuam qualidades
intelectuais aliadas a sentimentos
artísticos.
O que, afora os trabalhos de minha
profissão, mais me atraía, era o estudo dos acontecimentos políticos do dia,
sobretudo os da política externa. Eu cheguei a estes através dos rodeios da
política alemã de aliança, a qual, desde os meus tempos da Áustria, considerava
absolutamente falsa. Apenas não compreendera, em Viena, em toda a sua extensão,
como o Reich a si mesmo se enganava, com a prática daquela política. Já naquela
época estava eu inclinado a admitir - ou procurava convencer-me a mim mesmo,
exclusivamente como desculpa - que possivelmente em Berlim já se sabia quão
fraco e pouco merecedor de confiança seria na realidade o aliado austríaco, o
que, entretanto, por motivos mais ou menos secretos, se mantinha sob reserva, a
fim de apoiar uma política de aliança que o próprio Bismarck havia inaugurado e
cujo abandono brusco não era aconselhável, para não assustar o estrangeiro ou
inquietar o povo, no interior.
Entretanto, as
minhas relações, sobretudo entre o povo, fizeram que muito depressa verificasse,
horrorizado, que essa minha convicção era falsa. Com grande surpresa minha, tive
de constatar, em toda parte, que, mesmo nos círculos bem informados, não se
tinha a mais pálida idéia do caráter da monarquia dos Habsburgos. Justamente
entre o povo dominava a persuasão de que o aliado devia ser considerado uma
potência de verdade que, na hora do perigo, agiria como um só homem. No seio da
massa, considerava-se sempre a Monarquia como um Estado "alemão" e pensava-se
também poder contar com ela. Pensava-se que a força nesse caso também podia ser
computada por milhares, como por exemplo na própria Alemanha, e esquecia-se,
inteiramente:
1.°) que, há muito tempo. a Áustria deixara de ser um Estado de
caráter alemão;
2.°) que as condições internas daquele país cada vez mais
tendiam para a desagregação.
Naquele tempo se
conhecia melhor aquela estrutura de Estado do que a chamada "diplomacia"
oficial, a qual, como quase sempre, cambaleava cegamente para a fatalidade. A
disposição de ânimo do povo nada mais era que o resultado daquilo que de cima se
despejava na opinião pública. Os de cima, porém, mantinham pelo aliado um culto
como pelo bezerro de ouro. Esperava-se poder substituir por habilidade aquilo
que faltava em sinceridade. Tomavam-se sempre as palavras como valores
reais.
Em Viena eu me encolerizava ao constatar
a diferença que, de tempos a tempos, aparecia entre os discursos dos estadistas
oficiais e o modo de expressar-se da imprensa local. Entretanto, Viena era, ao
menos aparentemente, uma cidade alemã. Como eram diferentes as coisas, quando se
saia de Viena, ou melhor da Áustria alemã, e se caía nas províncias eslavas do
Reich! Bastava que se manuseassem os jornais de Praga para saber-se de que
maneira era ali julgada a sublime fantasmagoria da Tríplice Aliança. Ali só
havia cruel ironia e sarcasmo para essa obra-prima dos "estadistas". Em plena
paz, enquanto os dois imperadores trocavam entre si o beijo da amizade, ninguém
ocultava que essa aliança desapareceria no dia em que se tentasse, do mundo de
fantasias, - espécie de ideal dos Nibelungen - transportá-la para a realidade
prática.
Quanta excitação houve quando, alguns
anos depois, chegada a hora da prova da Tríplice Aliança, a Itália abandonou-a,
deixando os seus dois companheiros, para, enfim, transformar-se em inimiga! A
não ser para aqueles que estivessem atacados de cegueira diplomática, era
simplesmente incompreensível que, mesmo por um minuto, se pudesse acreditar no
milagre de vir a Itália a combater ao lado da Áustria. Entretanto, as coisas na
Áustria não se passavam de modo diferente.
Na
Áustria, só os Habsburgos e os alemães eram adeptos da idéia de aliança. Os
Habsburgos por cálculo e necessidade; os alemães por credulidade e estupidez
política. Por credulidade, porque eles pensavam, por meio da Tríplice Aliança,
prestar um grande serviço à Alemanha, fortalecê-la e protegê-la; por estupidez
política, porém, porque o que eles imaginavam não correspondia à realidade, pois
que estavam apenas concorrendo para acorrentar o Império à carcassa de um Estado
morto, que teria de arrastá-los ao abismo, sobretudo porque aquela aliança
contribuía para, cada vez mais, desgermanizar a própria Áustria. Porque, desde
que os Habsburgos acreditavam que uma aliança com o Império poderia garanti-los
contra qualquer interferência de parte deste - e infelizmente nisso tinham razão
- eles ficavam capacitados a continuarem na sua política de livrar-se,
gradualmente, da influência germânica no interior, com mais facilidade e menos
risco. Eles tinham que temer qualquer protesto de parte do governo alemão, que
era conhecido pela "objetividade" de seu ponto de vista e, além disso, tratando
com os austríacos alemães, podiam sempre fazer calar qualquer voz impertinente
que se levantasse contra qualquer feio exemplo de favoritismo para com os
eslavos, com uma simples referência à Tríplice
Aliança.
Que poderia fazer o alemão na Áustria,
se o próprio alemão do Império exprimia reconhecimento e confiança no governo
dos Habsburgos?
Deveria oferecer resistência
para depois ser estigmatizado por toda a opinião pública alemã como traidor da
própria nacionalidade? Ele, que há dezenas de anos vinha fazendo os maiores
sacrifícios pela sua nacionalidade!
Que valor,
porém, possuía essa aliança, caso tivesse sido destruído o germanismo da
monarquia dos Habsburgos. Não era, para a Alemanha, o valor da Tríplice Aliança,
dependente da manutenção da hegemonia alemã na Áustria? Ou acreditava-se, por
acaso, que mesmo com a eslavização do Império dos Habsburgos, se pudesse manter
a aliança?
A atitude da diplomacia alemã
oficial, bem como também de toda a opinião pública com relação ao problema
interno das nacionalidades na Áustria, não era simplesmente uma tolice mas uma
verdadeira loucura! Contava-se com uma aliança, fazia-se o futuro e a segurança
de um povo de setenta milhões de habitantes dependerem dela - e ficava-se
observando, impassível, como, de ano para ano, a única base para essa aliança
era sistematicamente, infalivelmente destruída pelo aliado! Chegaria o dia em
que restaria apenas um "tratado" com a diplomacia vienense, mas o auxílio do
aliado do Império faltaria no momento
oportuno.
Na Itália isso se verificara desde o
princípio.
Se se tivesse feito um estudo mais
inteligente da história da Alemanha e da psicologia da raça, ninguém poderia ter
acreditado, por um instante, que o Quirinal de Roma e o Hofburg de Viena viessem
um dia a lutar, lado a lado, em uma frente única de batalha. A Itália se
transformaria num vulcão antes que qualquer governo ousasse enviar um só
italiano a combate. O Estado dos Habsburgos era fanaticamente odiado. Os
italianos só poderiam marchar como inimigos! Mais de uma vez vi flamejar em
Viena o apaixonado desdém e insondável ódio que mantinham os italianos contra o
Estado austríaco. Os erros e crimes da Casa de Habsburgo, no decurso dos
séculos, contra a liberdade e a independência da Itália, eram demasiado grandes
para jamais serem esquecidos, mesmo na hipótese de haver qualquer desejo nesse
sentido. Não havia tal desejo nem entre o povo nem de parte do governo italiano.
Para a Itália, por isso, só havia dois modos possíveis de tratar com a Áustria -
a aliança ou a guerra.
Tendo escolhido o
primeiro, podiam eles preparar-se calmamente para o
segundo.
A política alemã de aliança era ao
mesmo tempo inexpressiva e arriscada, especialmente desde que as relações da
Áustria para com a Rússia tendiam crescentemente para uma solução pela
guerra.
Foi esse um caso clássico, em que se
pôde constatar a falta de grandiosas e acertadas linhas de
conduta.
Por que, pois, foi concluída uma
aliança? Simplesmente para garantir o futuro do Reich, quando ele estava em
posição de manter-se sobre os próprios pés. O futuro do Reich estava na política
de habilitar, por todos os meios, a nação alemã a continuar
existindo.
Por conseqüência, o problema deveria
ter sido posto assim: que forma deverá assumir a vida da nação alemã em um
futuro tangível? E como se poderá garantir a essa evolução os necessários
fundamentos e a necessária segurança, no quadro do concerto das potências
européias?
Considerando claramente as condições
para a atividade da política externa, tinha-se de fatalmente chegar à seguinte
convicção:
A Alemanha tem um acréscimo de
população de, aproximadamente, 900 mil almas por ano. A dificuldade de
alimentação desse exército de novos cidadãos tem de aumentar de ano para ano e
acabar finalmente numa catástrofe, caso se não encontrem meios de, em tempo,
dominar o perigo da miséria e da fome.
Havia
quatro caminhos para evitar esse tremendo
desenlace.
1° Podia-se, a exemplo da França,
limitar artificialmente o acréscimo de nascimentos e, com isso, impedir uma
superpopulação.
A própria natureza costuma agir
no sentido de limitar o aumento de população de determinadas terras ou raças, em
épocas de grandes necessidades ou más condições climáticas, bem como de pobreza
do solo; e isso com um método tão sábio quão inexorável. Ela não impede a
capacidade de procriação em si e sim, porém, a conservação dos rebentos, fazendo
com que eles fiquem expostos a tão duras provações que o menos resistente é
forçado a voltar ao seio do eterno desconhecido, o que ela deixa sobreviver às
intempéries está milhares de vezes experimentado e capaz de continuar a
produzir, de maneira que a seleção possa recomeçar. Agindo desse modo brutal
contra o indivíduo e chamando-o de novo momentaneamente a si, desde que ele não
seja capaz de resistir à tempestade da vida, a natureza mantém a raça, a própria
espécie, vigorosa e a torna capaz das maiores
realizações.
A diminuição do número, por esse
processo, redunda em um reforço da capacidade do indivíduo e, por conseguinte,
em última análise, em um revigoramento da
espécie.
As coisas se passam de outra maneira
quando é o homem que toma a iniciativa de provocar a limitação de seu número. Ai
é preciso considerar não só o fator natural como o humano. O homem sabe mais que
essa cruel rainha de toda a sabedoria - a natureza. Ele não limita a conservação
do indivíduo, mas a própria reprodução. Isso lhe parece, a ele que sempre tem em
vista a si mesmo e nunca à raça, mais humano e mais justificado que o inverso.
Infelizmente, porém, as conseqüências são também
inversas.
Enquanto a natureza, liberando a
geração, submete, entretanto, a conservação da espécie a uma prova das mais
severas, escolhendo dentro de um grande número de indivíduos os que julga
melhores e só a estes conserva para a perpetuação da espécie, o homem limita a
procriação e se esforça, aferradamente, para que cada ser, uma vez nascido, se
conserve a todo preço. Essa correção da vontade divina lhe parece ser tão sábia
quanto humana e ele alegra-se de, mais uma vez, ter sobrepujado a natureza e até
de ter provado a insuficiência da mesma. E o filho de Adão não quer ver nem
ouvir falar que, na realidade, o número é limitado, mas à custa do apoucamento
do indivíduo.
Sendo limitada a procriação e
diminuído o número dos nascimentos, sobrevem, em lugar da natural luta pela
vida, que só deixa viverem os mais fortes e mais sãos, a natural mania de
conservar e "salvar" a todos, mesmo os mais fracos, a todo preço. Assim se deixa
a semente para uma descendência que será tanto mais lamentável quanto mais
prolongado for esse escárnio contra a natureza e suas
determinações.
O resultado final é que um tal
povo um dia perderá o direito à existência neste mundo, pois o homem pode,
durante um certo tempo, desafiar as leis eternas da conservação, mas a vingança
virá mais cedo ou mais tarde. Uma geração mais forte expulsará os fracos, pois a
ânsia pela vida, em sua última forma, sempre romperá todas as correntes
ridículas do chamado espírito de humanidade individualista, para, em seu lugar,
deixar aparecer uma humanidade natural, que destrói a debilidade para dar lugar
à força.
Aquele, pois, que quiser assegurar a
existência ao povo alemão limitando a sua multiplicação, rouba lhe com isso o
futuro.
2° Outro caminho seria aquele que hoje
em dia freqüentemente ouvimos aconselhado e louvado: a chamada colonização
interna. Essa é uma proposta que muitos fazem, na melhor das intenções, que é,
porém, mal compreendida pela maioria e que pode trazer, por isso, os maiores
prejuízos imagináveis. Sem dúvida, a capacidade produtiva de um terreno pode ser
elevada até determinado limite. Mas só até esse limite determinado e não
infinitamente mais. Durante um certo lapso, poder-se-á, portanto, compensar, sem
perigo de fome, a multiplicação do povo alemão por meio do aumento do rendimento
de nosso solo. Entretanto, a isso se opõe o fato de crescerem as necessidades da
vida mais do que o número da população. As necessidades humanas com relação ao
alimento e ao vestuário crescem de ano para ano e, por exemplo, já hoje em dia,
não estão em proporção com as necessidades de nossos antepassados de cem anos
atrás. É, pois, errôneo pensar que cada elevação da produção provoque a condição
necessária a uma multiplicação da população. Isso se dá até um certo ponto, pois
que ao menos uma parte do aumento da produção do solo é consumida na satisfação
das necessidades superiores da humanidade. Entretanto, com a máxima parcimônia
de um lado e a máxima diligencia por outro lado, chegará um dia em que um limite
será atingido pelo próprio solo. Mesmo com toda a diligência, não será possível
aproveitá-lo mais e surgirá, embora protelada por algum tempo, uma nova
calamidade. A fome aparecerá de tempos em tempos, quando houver má colheita. Com
o aumento da população, isso se dará cada vez mais, de sorte que isso só não
aparecerá quando raros anos de riqueza encherem os armazéns de víveres.
Entretanto, finalmente, aproximar-se-á a época em que não se poderá mais atender
à miséria e a fome, então, tornar-se-á a companheira de um tal povo. A natureza
terá de prestar auxílio de novo e proceder à seleção entre os escolhidos,
destinados a viver; ou então é o próprio homem que a si mesmo se auxilia,
lançando mão do impedimento artificial de sua reprodução com todas as graves
conseqüências para a raça e para a espécie. Poder-se-á ainda objetar que esse
futuro está destinado a toda a humanidade, de uma maneira ou de outra, e que,
portanto, nenhum povo conseguirá naturalmente escapar a essa
fatalidade.
À primeira vista, sem mais
considerações, isso está certo. Há, também, a considerar o seguinte: numa
determinada época, toda a humanidade será certamente forçada a interromper o
aumento do gênero humano ou a deixar a natureza decidir, por si própria. Essa
situação atingirá a todos os povos, mas atualmente só serão atingidas por essa
miséria as raças que não possuem energia suficiente para assegurarem para si o
solo necessário. Ninguém contesta que, hoje em dia, ainda há neste mundo solo em
extensão formidável e que só espera quem o queira cultivar. Da mesma forma
também é certo que esse solo não foi reservado pela natureza para uma
determinada nação ou raça, como superfície de reserva para o futuro. Trata-se,
sim, de terra e solo destinados ao povo que possua a energia de o conquistar e a
diligência de o cultivar.
A natureza não
conhece limites políticos. Preliminarmente, ela coloca os seres neste globo
terrestre e fica apreciando o jogo livre das forças. O mais forte em coragem e
em diligência recebe o prêmio da existência, sempre atribuído ao mais
resistente.
Quando um povo se limita à
colonização interna, enquanto outras raças se agarram a cada vez maiores
extensões territoriais, será forçado a restringir as suas necessidades, em uma
época em que os outros povos ainda se acham em constante multiplicação. Esse
caso dá-se tanto mais cedo quanto menor for o espaço à disposição de um povo.
Como, porém, em geral, infelizmente, as melhores nações, ou mais corretamente
falando, as únicas raças verdadeiramente culturais, portadoras de todo o
progresso humano, muitas vezes se resolvem na sua cegueira pacifista a desistir
de nova aquisição de solo, contentando-se com a colonização "interna", nações
inferiores sabem assegurar-se enormes territórios. Tudo isso conduz a um
resultado final:
As raças culturalmente
melhores, mas menos inexoráveis, teriam de limitar a sua multiplicação, por
força da limitação do solo, ao passo que os povos culturalmente mais baixos,
naturalmente mais brutais, ainda estariam, em conseqüência da maior superfície
disponível, em condições de se reproduzirem ilimitadamente, por outras palavras,
dia viria em que o mundo passaria a ser dominado por uma humanidade
culturalmente inferior, porém mais
enérgica.
Assim, para um futuro não muito
remoto, só há duas possibilidades: ou o mundo será governado nos moldes de
nossas modernas democracias e então o fiel da balança decidirá a favor das raças
numericamente mais fortes, ou o mundo será - governado segundo as leis da ordem
natural e vencerão então os povos de vontade brutal e, por conseqüência, não a
nação que se limita a si mesma.
O que ninguém
poderá duvidar é que o mundo será exposto às mais graves lutas pela existência
da humanidade. No fim, vence sempre o instinto da conservação. Sob a pressão
deste, desaparece o que chamamos espírito de humanidade como expressão de uma
mistura de tolice, covardia e pretensa sabedoria, tal qual a nave ao sol de
março. A humanidade tornou-se grande na luta eterna, na paz eterna ela
perecerá.
Para nós, alemães, porém, a senha da
colonização interna já é funesta, pois, entre nós, ela imediatamente reforça a
opinião de termos achado um meio que, de acordo com o espírito pacifista,
permite podermos numa vida de torpor, "ganhar" a existência. Essa doutrina,
tomada a sério entre nós, significa o fim de todo o esforço no sentido de
conservarmos no mundo o lugar que nos compete. Desde que o alemão médio se tenha
convencido de poder garantir-se por esse meio a vida e o futuro, qualquer
tentativa de uma interpretação ativa e, portanto, frutuosa, das necessidades
vitais da Alemanha estaria perdida. Toda política externa verdadeiramente útil
poderia ser considerada impossível com uma tal opinião da nação, e, com isso, o
futuro do povo alemão estaria
prejudicado.
Tendo-se em vista essas
conseqüências, deve-se concordar que não é por acaso que, em primeira linha, são
sempre os judeus que procuram e sabem inocular, no espírito do povo, tão
perigosas idéias, aliás mortalmente perigosas. Eles conhecem muito bem as
pessoas com que têm de tratar para não saberem que essas são vitimas agradecidas
de qualquer charlatão que lhes diga haver sido descoberto o meio de enganar a
natureza, de modo a tornar supérflua a dura e inexorável luta pela existência,
para, em seu lugar, ora com trabalho ou mesmo sem nada fazer, conforme calha a
cada um, assenhorear-se do planeta.
Não é nunca
demasiado insistir em que toda colonização alemã interna tem de servir, em
primeiro plano, para evitar males sociais, sobretudo para livrar a terra da
especulação geral. Entretanto nunca poderá ser suficiente para assegurar o
futuro da noção sem a conquista de novos
territórios.
Se agirmos de outra maneira, não
só chegaremos a esgotar as nossas terras como também as nossas
forças.
Finalmente, há a constatar ainda o
seguinte:
A limitação, implícita, na
colonização interna, a uma determinada pequena superfície de solo, bem como o
efeito final que se lhe segue da restrição da reprodução, conduz o povo a uma
situação político-militar extraordinariamente
desfavorável.
A garantia da segurança externa
de um povo depende da extensão de seu "habitat". Quanto maior for o espaço de
que um povo disponha, tanto maior é sua proteção natural; pois sempre foram
conseguidas vitórias militares mais rápidas e, por isso mesmo, mais fáceis e
especialmente mais eficientes e mais completas contra povos apertados em
pequenas superfícies de terra do que contra Estados de vasta extensão
territorial. Na grandeza do território há, pois, sempre, uma certa proteção
contra ataques repentinos, visto como o êxito só será conseguido após longas e
severas lutas e, por isso, o risco de um ataque temerário parecerá demasiado
grande, a não ser que existam motivos excepcionais. Na vastidão territorial, em
si mesma, já existe uma base para a fácil conservação da liberdade e da
independência de um povo, enquanto que, ao contrário, a pequenez territorial
como que desafia a conquista.
De fato, as duas
primeiras possibilidades para se conseguir um equilíbrio entre a população
crescente e o solo invariável em grandeza, foram rejeitadas pelos chamados
círculos nacionais do Reich. Os motivos que determinaram essa atitude eram,
entretanto, outros que os indicados acima. Relativamente à limitação dos
nascimentos, a atitude era de recusa, em primeiro lugar por um certo sentimento
moral. A colonização interna era repelida com desapontamento, pois que se
farejava, nela, um ataque contra a grande propriedade rural e o começo de uma
luta geral contra a propriedade particular. Pela forma por que sobretudo essa
última terapêutica era recomendada podia-se imediatamente ver a condenação dessa
hipótese.
De um modo geral, a defesa em face da
grande massa não era muito hábil e de modo algum atingia o âmago do
problema.
Em face disso, só restavam dois
caminhos- para assegurar um trabalho são à população
crescente.
3° Podiam-se adquirir novos
territórios, a fim de, anualmente, derivar os milhões excedentes, conservando
dessa maneira a nação em condições de poder alimentar-se a si mesma, ou se
passaria a:
4° Produzir, por meio da indústria
e do comércio, para o consumo estrangeiro, a fim de, por esse modo, garantir a
vida do povo.
Portanto, política rural,
colonial ou comercial.
Ambos os caminhos foram,
sob vários pontos de vista, considerados, examinados, recomendados e
combatidos.
O primeiro ponto de vista sem
dúvida teria sido o mais são dos dois. A aquisição do novo território para nele
acomodar o excesso da população encerra vantagens infinitamente maiores,
especialmente se se toma em consideração o futuro e não o
presente.
Só as vantagens da conservação de uma
classe de camponeses, como fundamento de toda a nação, são enormes. Muitos dos
nossos males atuais não são mais que a conseqüência do desequilíbrio entre o
povo dos campos e o das cidades. Uma base firme constituída de pequenos e médios
camponeses foi, em todos os tempos, a melhor defesa contra as enfermidades
sociais do gênero das que nos afligem hoje em dia. Essa é também a única saída
que permite a um povo encontrar o pão de cada dia nos limites da sua vida
econômica. A indústria e o comércio recuam de sua posição de dirigentes e se
colocam no quadro geral de uma economia nacional de consumo e compensação. Ambos
não são mais a base de alimentação do povo e sim um auxílio para a mesma.
Dispondo eles de uma compensação entre a produção e o consumo, tornam toda a
alimentação do povo mais ou menos independente do exterior. Ajudam, portanto, a
assegurar a liberdade do Estado e a independência da nação, sobretudo nos dias
graves.
Entretanto, uma tal política rural não
poderá ser realizada, por exemplo, no Camerun e sim quase que exclusivamente na
Europa. Calma e modestamente, temos de colocar-nos no ponto de vista de que
certamente não deve ter sido a intenção do céu dar a um povo cinqüenta vezes
mais terra do que a outro. Nesse caso, os limites políticos não devem afastar-se
dos limites do direito eterno. Se é verdade que o mundo tem espaço para todos
viverem, então que se nos dê também o solo necessário à nossa
vida.
Isso naturalmente não será feito de boa
vontade. O direito da própria conservação fará então sentir os seus efeitos; e o
que é negado por meios suasórios tem de ser tomado à
força.
Tivessem os nossos antepassados feito
depender as suas decisões de tolices pacifistas, como se faz atualmente, e não
possuiríamos mais que um terço do nosso atual território. Não é a isso que
devemos as duas Marcas orientais do Reich e, com elas, a força interior da
grandeza do domínio territorial de nosso Estado, o que nos tem permitido existir
até hoje.
Há outra razão para que essa solução
seja considerada correta:
Muitos Estados
europeus de hoje são semelhantes a pirâmides que se sustêm sobre o seu vértice.
As suas possessões na Europa são ridículas comparativamente com a sua pesada
carga de colônias, comércio estrangeiro, etc. Poder-se-ia dizer: ponto na Europa
e base em todo o mundo. Inversa é a situação dos Estados Unidos, cuja base está
sobre o seu próprio continente e cujo ápice é o seu ponto de contato com o resto
do globo. Daí a grande força interna daquele Estado e a fraqueza da maioria das
potências colonizadoras européias.
Mesmo a
Inglaterra não é prova em contrário, pois sempre nos inclinamos a esquecer a
verdadeira natureza do mundo anglo-saxão em relação ao Império britânico. Pelo
fato de possuir a mesma língua e a mesma cultura que os Estados Unidos, a
Inglaterra não pode ser comparada com nenhum outro Estado da
Europa.
Por isso, a única esperança de realizar
a Alemanha uma política territorial sadia está na aquisição de novas terras na
própria Europa. As colônias são inúteis para esse fim, por parecerem impróprias
para o estabelecimento de europeus em grande número. Entretanto, no século
dezenove, já não era mais possível adquirir, por métodos pacíficos, tais
territórios para efeitos de colonização. Uma política de colonização dessa
espécie só poderia ser realizada por meio de uma luta áspera, que seria mais
razoável se aplicada na obtenção de território no continente, próximo da pátria,
de preferência a quaisquer regiões fora da
Europa.
Uma tal decisão exige, porém, a
solidariedade de toda a nação. Não é possível abordar, com meias medidas ou com
hesitações, uma tarefa cuja execução só é viável pelo emprego de toda a energia
nacional. A direção política do Reich teria de dedicar-se exclusivamente a esse
fim; nenhum passo deveria ser dado por outras considerações que não fosse o
reconhecimento dessa tarefa e das condições pare o seu êxito. Deveria ficar bem
claro que esse objetivo só poderia ser atingido em luta, tendo-se tranqüilamente
em mira o movimento das armas.
Todas as
alianças deveriam ser examinadas exclusivamente sob esse ponto de vista e
apreciadas quanto à sua utilidade nesse objetivo. Houvesse o desejo de adquirir
territórios ria Europa e isso teria de dar-se de um modo geral à custa da
Rússia. O novo Reich teria de novamente pôr-se em marcha na estrada dos
guerreiros de outrora, a fim de, com a espada alemã, dar ao arado alemão a gleba
e à nação o pão de cada dia.
Para uma tal
política só havia um possível aliado na Europa:
Inglaterra.
A Grã-Bretanha era a única potência
que poderia proteger a nossa retaguarda, suposto que déssemos início a uma nova
expansão germânica. Teríamos tanto direito de fazê-lo quanto tiveram os nossos
antepassados. Nenhum dos nossos pacifistas se nega a comer o pão do Oriente,
embora o primeiro arado outrora tivesse sido a
espada.
Nenhum sacrifício deveria ser
considerado demasiado grande nesse trabalho de conquistar as simpatias da
Inglaterra. Dever-se-ia renunciar às colônias e ao poderio naval, e evitar a
concorrência à indústria britânica.
Somente uma
atitude absolutamente clara poderia conduzir a um tal objetivo: renúncia a uma
marinha de guerra alemã, concentração de todas as forças do Estado no exército.
Ê verdade que o resultado seria uma limitação temporária, entretanto
abrir-se-iam os horizontes para um grande
futuro.
Houve uma época em que a Inglaterra nos
daria atenção nesse sentido, porque ela compreendia muito bem que, devido a sua
crescente população, a Alemanha teria de procurar qualquer saída e de achá-la na
Europa, com o auxílio inglês, ou, sem esse auxílio, em qualquer outra parte do
mundo.
A tentativa para se obter uma
aproximação com a Alemanha, feita no dobrar do século, foi devida em tudo e por
tudo a esse sentimento. Mas aos alemães não agradava "tirar as castanhas do
fogo" para a Inglaterra, - como se fosse possível uma aliança sobre outra base
que não a da reciprocidade. Baseado nesse princípio, o negócio poderia muito bem
ter sido feito com a Inglaterra. A diplomacia britânica era bastante hábil para
saber que nada era lícito esperar sem
reciprocidade.
Imaginemos que a Alemanha, com
uma hábil política exterior, tivesse representado o papel que o Japão
representou em 1904, e, dificilmente, poderemos prever as conseqüências que isso
teria tido para o país.
Jamais teria havido a
"Guerra Mundial".
No ano de 1904, o sangue
teria sido dez vezes menos que o que se derramou em
1914-18.
Mas que posição ocuparia a Alemanha,
hoje em dia, no mundo!
Sobretudo a aliança com
a Áustria foi uma idiotice.
Essa múmia de
Estado uniu-se à Alemanha não para lutar com ela na guerra mas para conservar
uma eterna paz, a qual então poderia ser utilizada, de uma maneira inteligente,
para a destruição lenta porém segura do germanismo na Monarquia. Essa aliança
era absolutamente inviável, pois que não se poderia esperar por muito tempo uma
defesa ofensiva dos interesses nacionais alemães em um Estado que não possuía
nem a força nem a decisão para limitar o processo de desgermanização nas suas
fronteiras imediatas. Se a Alemanha não possuía consciência nacional bastante e
também a impavidez para arrancar ao impossível Estado dos Habsburgos o mandato
sobre o destino de dez milhões de irmãos de raça, não se poderia, então, na
verdade, esperar que jamais ela recorres. se a planos de tão larga visão e tão
audaciosos. A atitude do velho Reich em relação ao problema austríaco foi a
pedra-de-toque de sua atitude na luta decisiva de toda a
nação.
Ninguém observava como, ano a ano, o
germanismo era cada vez mais oprimido e que o valor da aliança, de parte da
Áustria, era determinado exclusivamente pela conservação dos elementos alemães.
Mas absolutamente não se seguiu esse
caminho.
Nada temiam tanto como a luta e,
finalmente, na hora mais desfavorável, foram constrangidos a
ela.
Queriam fugir ao destino e foram
surpreendidos por ele. Sonhavam com a conservação da paz do mundo e caíram na
guerra mundial.
E esse foi o mais importante
motivo porque não se deu o devido valor a essa terceira saída para a garantia do
futuro alemão. Sabia-se que a conquista do novo solo só podia ser alcançada a
leste. A luta necessária foi prevista, mas o que se queria a todo preço era a
paz. A senha da política externa há muito que não era mais a conservação da
nação alemã a todo transe, mas a conservação da paz universal, por to. dos os
meios. Ainda voltarei a falar mais detalhadamente sobre esse
ponto.
Assim, restava ainda a quarta
possibilidade: indústria e comércio universais, poder naval e
colônias.
Um tal desenvolvimento era na verdade
mais fácil e mais rapidamente acessível. O povoamento do solo é um processo mais
lento e que dura, às vezes, séculos. É, porém, justamente nisso que se deve
procurar a sua força intrínseca. Não se trata de um flamejar repentino, mas de
um crescimento lento, mas fundamental e constante, em contraposição a um
desenvolvimento industrial que pode ser improvisado no correr de poucos anos,
assemelhando-se, porém, mais a uma bolha de sabão que a força solida, É verdade
que mais rapidamente se constrói uma esquadra do que, em luta tenaz, se erige
uma estância e coloniza-se a mesma com lavradores; entretanto aquela também mais
facilmente se aniquila do que esta última. Contudo, se a Alemanha, não obstante,
trilhava esse caminho, ao menos deveria reconhecer-se claramente que esse
programa um dia acabaria em luta, só crianças imaginariam que se pode conseguir
o desejado alimento, pela boa conduta e pela declaração de sentimentos de paz,
na "concorrência pacífica dos povos", como tanto e tão suntuosamente se
tagarelava sobre esse assunto, como se tudo se pudesse obter sem lançar mão das
armas.
Não. Se continuássemos a trilhar esse
caminho, a Inglaterra um dia se tornaria nossa inimiga. Nada mais insensato do
que o desapontamento que experimentamos, pelo fato de a Inglaterra tomar um dia
a liberdade de enfrentar a nossa tendência pacifista com a crueldade do egoísta
violento. Só a nossa reconhecida ingenuidade se poderia surpreender com esse
desfecho.
Nunca deveríamos ter agido
assim!
Se uma política de aquisição territorial
na Europa só poderia ser feita em aliança com a Inglaterra contra a Rússia, uma
política de colônias e de comércio mundial, por outro lado, só seria concebível
em uma aliança com a Rússia contra a Inglaterra. Nesse caso, dever-se-ia chegar
inexoravelmente às últimas conseqüências, pondo se a Áustria à
margem.
Considerada sob todos os pontos de
vista, essa aliança com a Áustria era, já no dobrar do século, uma verdadeira
loucura.
Entretanto, não se pensava numa
aliança com a Rússia contra a Inglaterra, nem tão pouco com a Inglaterra contra
a Rússia, pois, em ambos os casos, o resultado teria sido a guerra e, para
evitá-la, é que se decidiu adotar a política comercial e industrial. A conquista
"econômica pacifica" era uma receita que de uma vez por todas estava destinada a
dar um golpe decisivo na política de violência de até então. Talvez não houvesse
completa confiança nessa política, sobretudo tendo-se em vista que, de tempos a
tempos, surgiam, vindas do lado da Inglaterra, ameaças inteiramente
incompreensíveis. Finalmente capacitaram-se os alemães da necessidade de
construir-se uma frota, não com o propósito de atacar e destruir, mas para
defender a paz mundial e para a "conquista pacífica do mundo". Por isso tiveram
de mantê-la em escala modesta, não somente quanto ao número mas também quanto à
tonelagem de cada navio e ao respectivo armamento, de modo a tornar evidente que
o seu fim último era pacífico.
Conversar em
"conquista pacífica do mundo" foi a maior loucura que já se tomou como princípio
dirigente de uma política nacional, especialmente porque não se recuava em citar
a Inglaterra para provar que era possível pô-la em prática. O mal feito pelos
nossos professores com o seu ensinamento de história e com suas teorias
dificilmente pode ser remediado e apenas prova, de modo evidente, quantas
pessoas "ensinam" história sem compreendê-la, sem percebê-la. Exatamente na
Inglaterra ter-se-ia de reconhecer uma evidente refutação à teoria. De lato,
nenhuma outra nação se preparou melhor para a conquista econômica, mesmo com a
espada ou mais tarde a sustentou mais inexoravelmente que a inglesa. Não é a
característica dos estadistas ingleses tirarem lucro econômico da força política
e imediatamente transformarem o lucro econômico em força política? Assim foi um
erro completo imaginar que a Inglaterra seria demasiado covarde para derramar o
seu sangue em defesa de sua política econômica. O fato de não possuírem os
ingleses um exército nacional não era prova em contrário; porque não é a forma
das forças militares que importa, mas antes a vontade e a determinação de força
existente. A Inglaterra sempre possuiu os armamentos de que necessitava. Sempre
lutou com as armas precisas para garantir o êxito da sua política. Lutou com
mercenários enquanto os mercenários bastavam aos seus planos, mas lançou mão do
melhor sangue de toda a nação quando tal sacrifício foi necessário para
assegurar a vitória. Sempre teve a determinação de lutar e sempre foi tenaz e
inexorável na sua maneira de conduzir a
guerra.
Na Alemanha, entretanto, com o correr
do tempo se estimulava, por meio das escolas, da imprensa e dos jornais
humorísticos, a que se tivesse da vida inglesa e mais ainda do Império uma idéia
própria a conduzir a inoportuna decepção; porque tudo gradualmente se contaminou
com essa tolice e o resultado foi a opinião falsa sobre os ingleses, que se
traduziu em amarga desforra por parte deles, Essa idéia correu tão largamente
que toda a gente estava convencida de que o inglês, tal qual o imaginavam, era
um homem de negócios, ao mesmo tempo ladino e incrivelmente covarde. Jamais
ocorreu aos nossos dignos mestres da ciência professoral que um Império vasto
como o Império britânico não poderia ser fundado e conservado unido apenas com
astúcia e métodos escusos. Os primeiros que advertiram sobre esse assunto não
foram ouvidos ou tiveram de ficar em silêncio. Recordo-me perfeitamente do
espanto de meus camaradas quando nos enfrentamos com os "Tommies" em Flandres.
Depois dos primeiros dias de luta, alvoreceu no cérebro de cada um a noção de
que aqueles escoceses não correspondiam exatamente à gente que os escritores de
jornais humorísticos e as notícias da imprensa entendiam
descrever-nos.
Comecei então a refletir sobre a
propaganda e sobre as suas formas mais
úteis.
Esse falseamento certamente tinha suas
vantagens para aqueles que o propagavam. Estavam aptos a demonstrar, com
exemplos, por mais incorretos que estes fossem, se era correta a idéia de uma
conquista econômica do mundo. O que o inglês conseguiu nós poderíamos também
conseguir, havendo para nós a vantagem especial de nossa maior probidade, a
ausência daquela perfídia especificamente inglesa. Era de esperar ainda com isso
ganharmos mais facilmente a simpatia de todas as pequenas nações e a confiança
das grandes.
Não compreendíamos que a nossa
probidade causasse aos outros um íntimo horror, desde que acreditávamos
seriamente em tudo isso, enquanto o resto do mundo via nessa conduta a expressão
de uma falsidade astuta, até que, com o maior espanto, a revolução proporcionou
uma visão mais profunda da ilimitada tolice de nosso modo de
pensar.
Pela tolice dessa "conquista econômica
pacífica" do mundo se depreende imediatamente a tolice da tríplice aliança. Com
que Estado se podia, pois, fazer aliança? Conjuntamente com a Áustria, não era
possível pensar em conquistas guerreiras, mesmo na Europa. Justamente nisso é
que estava, desde o primeiro momento, a fraqueza intrínseca da aliança. Um
Bismarck podia tomar a liberdade de um tal expediente, mas não nenhum dos seus
ignorantes sucessores, muito menos numa época em que não existiam mais as mesmas
condições da aliança promovida por Bismarck. Bismarck acreditava ainda que a
Áustria fosse um Estado alemão. Com a introdução do sufrágio universal, tinha
esse país, entretanto, paulatinamente, adotado um sistema de governo parlamentar
e antigermânico.
A aliança com a Áustria, sob o
ponto de vista racial e político, foi simplesmente nociva. Tolerava-se o
desenvolvimento de uma nova potência eslava na fronteira do Reich, potência essa
que mais cedo ou mais tarde teria de tomar atitudes em relação à Alemanha muito
diferentes da Rússia, por exemplo. Com isso a aliança de ano para ano tinha de
tornar-se cada vez mais fraca, à proporção que os únicos portadores desse
pensamento na monarquia perdiam influência e eram desalojados das posições
dominantes.
Já pelo dobrar do século, a aliança
com a Áustria tinha entrado na mesma fase que a aliança da Áustria com a
Itália.
Só havia duas possibilidades: ou
prevalecia a aliança com a monarquia dos Habsburgos ou se protestava contra o
combate ao germanismo na Áustria. Entretanto, quando se inicia tal movimento, o
resultado final, geralmente, é a luta aberta,
declarada.
O valor da tríplice aliança era,
psicologicamente, de somenos importância, uma vez que a força de uma aliança
declina quando se limita a manter uma situação existente. Por outro lado, uma
aliança será tanto mais forte quanto mais as potências contratantes estejam
convencidas de que, com a mesma, podem obter uma vantagem tangível,
definida.
Isso era compreendido em vários
meios, mas infelizmente não o era pelos chamados "profissionais". Ludendorff,
então coronel no grande estado-maior, apontava essa fraqueza um memorando
escrito em 1912. Naturalmente os "estadistas" se' recusaram a dar qualquer
importância ao assunto, pois a razão, que está ao alcance de qualquer mortal,
escapa aos "diplomatas".
Para a Alemanha foi
uma felicidade que a guerra de 1914, embora indiretamente, irrompesse por
intermédio da Áustria, obrigando os Habsburgos a nela tomarem parte. Tivesse
acontecido o contrário e a Alemanha teria ficado sozinha. Nunca o Estado dos
Habsburgos teria podido ou mesmo teria querido tomar parte em uma guerra que se
originasse de parte da Alemanha. Aquilo que, em relação à Itália, tanto se
condenou, ter-se-ia dado mais cedo na Áustria: ela teria ficado "neutra" para
assim ao menos salvar o Estado contra uma revolução. O eslavismo austríaco, no
ano de 1914, teria preferido destruir a monarquia a consentir no auxilio à
Alemanha.
Poucas pessoas naquela ocasião podiam
compreender como eram grandes os perigos e dificuldades oriundas das alianças
com a monarquia do Danúbio. Em primeiro lugar, a Áustria possuía inimigos
demais, que cogitavam de herdar de um Estado carcomido. Não era possível que, no
correr do tempo, não surgisse um certo ódio contra a Alemanha, na qual se
enxergava a causa do impedimento à queda da monarquia, por todos esperada e
desejada. Chegou-se à convicção de que, no final de contas, só se poderia
alcançar Viena via Berlim.
A ligação com a
Áustria privava a Alemanha das melhores e mais promissoras alianças. Em lugar
dessas alianças, surgiu uma situação tensa com a Rússia' e mesmo com a Itália.
Em Roma o sentimento geral era tão simpático à Alemanha como antipático à
Áustria.
Como os alemães se tinham lançado na
política do comércio e da indústria, não havia mais o menor motivo para uma luta
contra a Rússia. Somente os inimigos de ambas as nações é que poderiam ter nisso
um vivo interesses. De fato, eram em primeira linha judeus e marxistas que, por
todos os meios, incitavam a guerra entre os dois
Estados.
Essa aliança, em terceiro lugar, tinha
em si um grande perigo, pois que com facilidade uma das potências inimigas do
império de Bismarck em qualquer tempo poderia mobilizar vários Estados contra a
Alemanha, uma vez que estavam em condições de, à custa do aliado austríaco,
acenar com as perspectivas de grandes
vantagens.
Todo o oriente da Europa poderia
levantar-se contra a monarquia do Danúbio, sobretudo a Rússia e a Itália. Nunca
se teria realizado a coligação mundial, que se vinha desenvolvendo desde a ação
inicial do rei Eduardo, se a Áustria, como aliada da Alemanha, não tivesse
oferecido vantagens tão apetecidas pelos inimigos. Só assim foi possível reunir,
numa única frente de ataques, países de desejos e objetivos tão heterogêneos.
Cada um deles poderia esperar, numa ação conjunta contra a Alemanha, conseguir
enriquecer-se. Esse perigo aumentou extraordinariamente pelo fato de parecer que
a essa aliança infeliz também estava filiada a Turquia como sócio
comanditário.
O mundo financeiro internacional
judaico necessitava, porém, desse chamariz, a fim de poder realizar o plano, há
muito desejado, da destruição da Alemanha que ainda não se tinha submetido ao
controle financeiro e econômico geral, à margem do Estado. Só assim se podia
forjar uma coalizão tornada forte e corajosa pelo simples número dos exércitos
de milhões em marcha, pronta, finalmente, a avançar contra o lendário
Siegfried.
A aliança com a monarquia dos
Habsburgos que, já nos tempos em que eu estava na Áustria, tanto me irritava,
começou a tornar-se a causa de longas provações intimas que, no correr do tempo,
ainda mais reforçavam a minha primeira
opinião.
No meio modesto, que eu então
freqüentava, nenhum esforço fiz para esconder a minha convicção de que aquele
infeliz tratado com um Estado condenado à destruição teria de levar a Alemanha a
um colapso catastrófico, a não ser que ela conseguisse desvencilhar-se do mesmo,
ainda em tempo. Nunca vacilei, por um momento; mantive-me, nessa convicção,
firme como uma rocha, até que, por fim, a torrente da guerra mundial tornou
impossível uma reflexão razoável, e o ímpeto do entusiasmo tudo levou de vencida
e o dever de todos passou a ser a consideração das realidades, Mesmo quando me
achava na frente de batalha, sempre que o problema era discutido, eu exprimia a
minha opinião de que quanto mais depressa fosse rompida a aliança tanto melhor
para a nação alemã e que sacrificar a monarquia dos Habsburgos não seria
sacrifício para a Alemanha, se com isso ela pudesse reduzir o número de seus
inimigos, desde que os milhões de capacetes de aço não se tinham reunido para
manter uma decrépita dinastia, mas para salvar a nação
alemã.
Antes da guerra, parecia, às vezes, que
num campo ao menos havia uma leve dúvida quanto à correção da política de
aliança que vinha sendo seguida. De tempos a tempos, os círculos conservadores
na Alemanha começavam a fazer advertências contra a excessiva confiança nessa
política, mas, como tudo mais que era razoável, fazer essas advertências era
como falar no deserto. Havia a convicção geral de que a Alemanha estava a
caminho de conquistar o mundo, que o êxito seria ilimitado e que nada teria de
ser sacrificado.
Mais uma vez, ao "não
profissional" nada era permitido fazer senão olhar silenciosamente, enquanto os
"profissionais" marchavam diretamente para a destruição, arrastando consigo .a
nação inocente, como o caçador de ratos de
Hamein.
A causa mais profunda do fato de ter
sido possível apresentar a um povo inteiro, como processo político prático, a
insensatez de uma "conquista econômica", tendo como objetivo a conservação da
paz universal, residia numa enfermidade de todos os nossos pensamentos
políticos.
A vitoriosa marcha da técnica e da
indústria alemãs, os crescentes triunfos do comércio alemão, fizeram que se
esquecesse de que tudo isso só era possível dada a suposição da existência de um
Estado forte. Muitos, ao contrário, chegavam até a proclamar a sua convicção de
que o Estado devia a sua vida a esses progressos, desde que o Estado, primeiro
que tudo e mais que tudo, é uma instituição econômica e deveria ser dirigido de
acordo com as regras da economia, devendo, por isso, a sua existência ao
comércio - condição que era considerada ser a mais sã e mais natural de todas.
Entretanto, o Estado nada tem a ver com qualquer definida concepção ou
desenvolvimento econômico.
O Estado não é uma
assembléia de negociantes que durante uma geração se reuna dentro de limites
definidos para executar projetos econômicos, mas a organização da comunidade,
homogênea por natureza e sentimento, unida para a promoção e conservação da sua
raça e para a realização do destino que lhe traçou a Providência. Esse e nenhum
outro é o objeto e a significação de um Estado. A economia é tão somente um dos
muitos meios necessários à realização desse objetivo. Nunca, porém, é o objetivo
de um Estado, a não ser que este, desde o princípio, repouse em uma base falsa,
por antinatural. Só assim é que se explica que o Estado, como tal, não necessite
ter, como condição, uma limitação territorial. Isso só será necessário entre
povos sue, por si mesmos, querem assegurar a alimentação de seus irmãos em raça
e que, portanto, estão prontos a lutar com o seu próprio trabalho, em prol de
sua existência. Os povos que, como zangões, conseguem infiltrar-se no resto da
humanidade, a fim de, sob todos os pretextos, fazer com que os outros trabalhem
para si, podem, mesmo sem possuírem um "habitat" determinado e limitado, formar
um Estado. Isso se dá em primeira linha num povo sob cujo parasitismo, sobretudo
hoje, toda a humanidade sofre: o povo judeu.
O
Estado judaico nunca teve fronteiras, nunca teve limites no espaço, mas era
unido pela raça. Por isso, aquele povo sempre foi um Estado dentro do Estado.
Foi um dos mais hábeis ardis já inventados o de encobrir-se aquele Estado sob a
capa de religião, obtendo-se assim a tolerância que o ariano sempre estendeu a
todos os credos. A religião mosaica nada mais é que uma doutrina para a
conservação da raça judaica. Por isso ela abraça quase todos os ramos do
conhecimento sociológico, político e econômico que lhe possam dizer
respeito.
O instinto de conservação da espécie
é sempre a causa da formação das sociedades humanas. Por isso, o Estado é um
organismo racial e não uma organização econômica, diferença essa que, sobretudo
hoje em dia, passa despercebida aos chamados "estadistas". Daí pensarem estes
poder construir o Estado pela economia quando, na realidade, aquele nada mais é
que o resultado da atuação daquelas virtudes que residem no instinto de
conservação da raça e da espécie. Estas são, porém, sempre virtudes heróicas e
nunca egoísmo mercantil, pois que a conservação da existência de uma espécie
pressupõe o sacrifício voluntário de cada um. Nisso é que está justamente o
sentido da palavra do poeta: "e se não arriscardes a vida, nunca vencereis na
vida", isto é, a capacidade de sacrifício de cada um é indispensável para
assegurar a conservação da espécie. A condição mais essencial, porém, para a
formação e conservação de um Estado é a existência de um sentimento de
solidariedade, baseado na identidade de raça, bem como a boa vontade de por ele
sacrificar-se. Isso, em povos senhores de seu próprio solo, conduz à formação de
virtudes heróicas, em povos parasitas conduz à hipocrisia mentirosa e à
crueldade dissimulada, qualidades essas que devem ser pressupostas pela maneira
diferente como vivem em relação ao Estado. A formação de um Estado só será
possível pela aplicação dessas virtudes, pelo menos originariamente, sendo que
na luta pela conservação serão submetidos ao jugo e assim mais cedo ou mais
tarde sucumbirão os povos que apresentarem menos virtudes heróicas ou que não
estejam na altura da astúcia do parasita inimigo. Mas, também nesse caso, isso
deve ser atribuído não tanto à falta de inteligência como à falta de decisão e
de coragem, que procura esconder-se sob o manto de sentimento de
humanidade.
O fato de a força interna de um
Estado só em casos raros coincidir com o chamado progresso econômico mostra
claramente como está pouco ligado às virtudes que servem para a formação e
conservação do Estado essa prosperidade que, em infinitos exemplos, parece até
indicar a próxima decadência do Estado. Se, porém, a formação da comunidade
humana tivesse de ser atribuída em primeira linha a forças econômicas, então o
mais elevado desenvolvimento econômico significaria a mais formidável força do
Estado e não inversamente.
A crença na força da
economia para formar e conservar um Estado, torna-se incompreensível, sobretudo
quando se trata de um país que, em tudo e por tudo, mostra clara e incisivamente
o contrário.- Justamente a Rússia demonstra, de maneira evidentíssima, que não
são as condições materiais, mas as virtudes ideais, que tornam possível a
formação de um Estado. Somente sob a sua guarda é que a economia consegue
florescer, até que, com a decadência das puras forças geradoras do Estado, a
economia também decai, processo esse que exatamente agora podemos observar com
desesperada tristeza. Os interesses materiais dos homens sempre conseguem
prosperar melhor enquanto permanecem à sombra de virtudes
heróicas.
Sempre que aumentava o poder político
da Alemanha o progresso material se fazia sentir, os negócios começavam a
melhorar; ao passo que quando os negócios monopolizavam a vida de nosso povo e
enfraqueciam as virtudes de nosso espírito, o Estado desfalecia, arrastando, na
sua ruína, os próprios negócios.
E se
perguntarmos a nós mesmos quais são as forças que fazem e conservam os Estados,
vemos que elas aparecem sob uma única denominação: habilidade e abnegação para o
sacrifício individual, por amor da comunidade. Que essas virtudes não têm
relação com a economia torna-se óbvio pela compreensão de que o homem nunca se
sacrifica por negócios, isto é, os homens não morrem por negócios, mas por
ideais. Nada mostrou melhor a superioridade psicológica dos ingleses, na
dedicação por um ideal nacional, do que as razões que eles apresentaram para
combater. Enquanto nós lutávamos pelo pão quotidiano, a Inglaterra lutava pela
"liberdade", não pela própria mas pela das pequenas nações. Na Alemanha todos
zombavam ou se irritavam com essa impudência, o que prova quanto se tornara
insensata e estúpida a ciência oficial na Alemanha de antes da guerra. Não
tínhamos a menor noção da natureza das forças que podem levar os homens à morte
por sua livre e espontânea vontade.
Enquanto o
povo alemão continuava a pensar, em 1914, que lutava por ideais, ele manteve-se
firme; mas logo que se tornou evidente que lutava apenas pelo pão quotidiano,
preferiu renunciar ao brinquedo.
Os nosso
inteligentes "estadistas", entretanto, ficaram atônitos com essa mudança de
sentimento. eles nunca compreenderam que o homem, desde o momento que luta por
um interesse econômico, evita o mais que pode a morte, pois que esta o faria
perder o gozo do prêmio de sua luta. A preocupação pela salvação de seu filho
faz que a mais fraca das mães se torne heroína e somente a luta pela conservação
da espécie e da lareira e também do Estado fez, em todos os tempos, com que os
homens se jogassem de encontro às lanças dos
inimigos.
Pode-se considerar a seguinte frase
como uma sentença eternamente
verdadeira:
Jamais um Estado foi fundado pela
economia pacífica e sim, sempre, pelo instinto de conservação da espécie, esteja
este situado no campo da virtude heróica ou da astúcia. O primeiro produz os
Estados arianos, de trabalho e cultura, o segundo, colônias judaicas
parasitárias. Desde que um povo ou um Estado procura dominar esses instintos,
estão atraindo para si a escravidão, a
opressão.
A crença de antes da guerra de que
era possível ter o mundo aberto para a nação alemã ou de fato conquistá-lo pelo
método pacífico de uma política de comércio e colonização, era um sinal evidente
de que haviam desaparecido as genuínas virtudes que fazem e conservam os
Estados. bem como a intuição, a força de vontade e a determinação que fazem as
grandes coisas. Como era de esperar, o resultado imediato disso foi a grande
guerra, com todas as suas conseqüências
Para
aquele que não examinasse a questão, essa atitude de quase toda a nação alemã
era um enigma indecifrável, pois a Alemanha era justamente um exemplo
maravilhoso de um império que surgiu de uma política de força. A Prússia -
célula mater do Reich - proveio de grandes heroísmos e não de operações
financeiras ou negócios comerciais. E o próprio Reich era o mais maravilhoso
prêmio da direção da política de força e da coragem indômita dos seus soldados.
Como poderia, justamente o povo alemão, chegar a tal amortecimento de seus
instintos políticos? Não se tratava, é preciso que se note, de um fenômeno
isolado e sim de sintomas de decadência geral que, em proporções verdadeiramente
assustadoras, ora flamejavam como fogos-fátuos no seio do povo ora corroíam a
nação como tumores malignos. Parecia que uma torrente de veneno constante era
impelida por uma força misteriosa até os últimos vasos sangüíneos desse corpo de
heróis, com o fim de aniquilar o seu bom senso, o simples instinto de
conservação.
Examinando todas essas questões,
condicionadas ao meu ponto de vista em relação à política de alianças da
Alemanha e à política econômica do Reich, nos anos de 1912 e 1914, restou, como
solução do enigma aquela força que já anteriormente eu conhecera em Viena sob
prisma inteiramente diverso: a doutrina marxista, sua concepção do mundo e a
influência de sua capacidade de
organização.
Pela segunda vez na minha vida
analisei profundamente essa doutrina de destruição - desta vez porém não mais
guiado pelas impressões e efeitos do meu ambiente diário, e sim dirigido pela
observação dos acontecimentos gerais da vida política. Aprofundei-me novamente
na literatura teórica desse novo mundo, procurei compreender os seus efeitos
possíveis, comparei estes com os fenômenos reais e com os acontecimentos no que
diz respeito à sua atuação na vida política, cultural e
econômica.
Comecei a considerar, pela primeira
vez, que tentativa deveria ser feita para dominar aquela pestilência
mundial.
Estudei os móveis, as lutas e os
sucessos da legislação especial de Bismarck. Gradualmente o meu estudo me
forneceu princípios graníticos para as minhas próprias convicções - tanto que
desde então nunca pensei em mudar minhas opiniões pessoais sobre o caso. Fiz
também um profundo estudo das ligações do marxismo com o
judaísmo.
Se, outrora, em Viena, a Alemanha me
tinha dado a impressão de um colosso inabalável, começaram agora entretanto a
surgir em mim considerações apreensivas. No meu íntimo eu estava descontente com
a política externa da Alemanha, o que revelava ao pequeno circulo que meus
conhecidos, bem como com a maneira extremamente leviana, como me parecia, de
tratar-se o problema mais importante que havia na Alemanha daquela época - o
marxismo. Realmente, eu não podia compreender como se vacilava cegamente ante um
perigo cujos efeitos - tendo-se em vista a intenção do marxismo tinham de ser um
dia terríveis. Já naquela época eu chamava a atenção, no meio em que vivia, para
a frase tranqüilizadora de todos os poltrões de então: "A nós nada nos pode
acontecer". Esse pestilento modo de pensar já outrora destruíra um império
gigantesco. Por acaso só a Alemanha não estaria sujeita às mesmas leis de tidas
as outras comunidades humanas?
Nos anos de 1913
e 1914 manifestei a opinião, em vários círculos, que, em parte, hoje estão
filiados ao movimento nacional-socialista, de que o problema futuro da nação
alemã devia ser o aniquilamento do marxismo.
Na
funesta política de alianças da Alemanha eu via apenas o fruto da ação
destruidora dessa doutrina. O pior era que esse veneno destruía quase
insensivelmente os fundamentos de uma sadia concepção do Estada e da economia,
sem que os por ele atingidos se apercebessem de que a sua maneira de agir, as
manifestações da sua vontade já eram uma conseqüência destruidora do
marxismo.
A decadência do povo alemão tinha
começado há muito tempo, sem que os indivíduos, como acontece freqüentemente,
pudessem claramente ver os responsáveis pela mesma. Muitas vezes se tentou
procurar um remédio para essa enfermidade, mas confundiam-se os sintomas com a
causa. Como ninguém conhecia ou queria conhecer a verdadeira causa do mal-estar
da nação, a luta contra o marxismo não passou de um charlatanismo sem
eficiência.
CAPÍTULO V - A GUERRA MUNDIAL
Quando
ainda jovem, na fase em que tudo nos sorri, nada me fazia tão triste, como o ter
nascido justamente em uma época em que todas as honras e glórias eram reservadas
a negociantes ou a funcionários do governo.
As
ondas dos acontecimentos históricos aparentemente tinham arrefecido e, de tal
maneira, que o futuro, na realidade parecia pertencer à "concorrência pacifica
dos povos", isto é, a uma calma e recíproca ladroagem, pela eliminação dos
métodos violentos da reação das vítimas. Os diferentes países começavam a se
assemelhar, cada vez mais, a empresas que se solapassem reciprocamente o chão
debaixo dos pés, na conquista sem trégua de fregueses e de encomendas,
procurando cada um sobrepujar as outras, por todos os meios ao seu alcance. Tudo
isso era posto em execução com uma espetaculosidade tão grande quanto ingênua.
Essa evolução parecia não só permanente, como destinada também a, algum dia (com
a aprovação geral), transformar o mundo inteiro em uma única e grande casa de
negócios, em cujas ante-salas seriam expostos, para a posteridade, os bustos dos
mais atilados especuladores e dos mais ingênuos funcionários da administração.
Os comerciantes poderiam ser, então representados pela Inglaterra; os
funcionários administrativos seriam os alemães; os judeus, porém, fariam o
sacrifício de ser os proprietários, pois que, como eles próprios confessam,
nunca lucram, sempre têm de "pagar" e, além disso, falam a maioria das
línguas.
Ah! se me tivesse sido possível ter
nascido cem anos antes! Mais ou menos no tempo das guerras da Independência,
quando o homem, mesmo sem negócios, ainda valia alguma
coisa!
Muitas vezes me ocorriam pensamentos
desagradáveis, relativos à minha peregrinação terrena, demasiado tardia na minha
opinião, e a época "de calma e ordem" que se me deparava eu considerava uma
infâmia imerecida do destino. É que já, nos meus mais tenros anos, eu não era
"pacifista". Todas as tentativas de educação nesse sentido tinham resultado
inúteis.
A guerra dos "Boers"", então
desencadeada, teve sobre mim o efeito de um relâmpago. Diariamente, eu aguardava
ansioso os jornais, devorava telegramas e boletins, e considerava-me feliz por
ser, ao menos de longe, testemunha dessa luta de
titãs.
A guerra russo-japonêsa já me encontrou
sensivelmente mais amadurecido e, também mais atento aos acontecimentos.
Moviam-me, sobretudo, razões nacionais. Desde os primeiros momentos, tomei
partido, e, discutindo as opiniões correntes, coloquei-me imediatamente do lado
dos japoneses, pois via na derrota dos russos uma diminuição do espírito eslavo
na Áustria.
Muitos anos se passaram desde
então, e aquilo que, outrora, quando ainda rapaz, me parecia morbidez,
compreendia agora como sendo a calma, antes da tempestade. Já desde o tempo em
que vivia em Viena pairava sobre os Balcãs aquela atmosfera pesada, prenúncio de
tempestade, e já lampejos mais claros riscavam o céu, mas se perdiam ligeiros
nas trevas sinistras. Em seguida, veio a guerra dos Balcãs, e, com ela, o
primeiro temporal varreu a Europa, já agora nervosa. A época que se seguiu
influiu como um pesadelo sobre os homens. O ambiente estava tão carregado que,
em virtude do mal-estar que a todos afligia, a catástrofe que se aproximava
chegou a ser desejada. Que os céus dessem livre curso ao des. tino, já que não
havia barreiras que o detivessem! Caiu então o primeiro formidável raio sobre a
terra; a tempestade desencadeou-se, e, aos trovões do céu, juntavam-se as
baterias da guerra mundial.
Quando a notícia do
assassinato do grão-duque Francisco Ferdinando chegou a Munique, eu estava
justamente em casa e ouvia contar o desenrolar dos acontecimentos de maneira
muito vaga. Meu primeiro receio foi que as balas assassinas tivessem partido de
estudantes alemães, que, indignados com o constante trabalho de eslavização
feito pelo herdeiro presuntivo da coroa austríaca, tivessem querido livrar o
povo alemão desse inimigo interno. As conseqüências eram fáceis de imaginar: uma
nova onda de perseguições aos alemães, que, agora, facilmente seriam "explicadas
e justificadas", perante o mundo. Quando, porém, logo depois, ouvi o nome dos
autores presumíveis e verifiquei que eram sérios, fiquei estupefato ante essa
vingança do destino impenetrável. O maior amigo da raça eslava caíra sob as
balas de fanáticos eslavos! Quem, nos últimos anos, tivesse tido oportunidade de
observar constantemente as relações entre a Áustria e a Sérvia, não poderia
duvidar, nem um segundo, de que a pedra começara a rolar e que nada poderia
detê-la na sua queda.
É uma injustiça fazer
hoje em dia recriminações ao governo de Viena sobre a forma e o conteúdo do seu
"Ultimatum". Nenhuma outra potência do mundo teria agido de maneira diferente,
se se encontrasse em idênticas condições. A Áustria tinha, na sua fronteira
sudoeste, um inimigo de morte, o qual, cada vez mais, desafiava a Monarquia e
nisso persistiria até que chegasse o momento propicio à destruição do Império.
Receava-se, com razão, que isso se desse, o mais tardar, com a morte do velho
imperador. E, nesse momento, talvez a monarquia não estivesse em condições de
oferecer resistência séria.
O Estado inteiro
encontrava-se, nos últimos anos, de tal maneira dependente da vida de Francisco
José, que a morte desse homem, tradicional personalização do Império,
eqüivaleria, no sentir da massa popular, à morte do próprio Império. Era até
considerado uma das mais inteligentes manobras, sobretudo da política eslava,
fazer crer que a Áustria devia a sua existência à habilidade extraordinária e
única desse monarca. Essa bajulação era tanto mais apreciada na Corte, quando
ela em nada correspondia, na realidade, ao mérito desse Imperador. Não se podia
ver o espinho escondido atrás dessa lisonja. Não se lobrigava ou não se queria
ver que, quanto mais a monarquia dependesse da extraordinária arte de governar,
como se costumava dizer, deste "mais sábio monarca de todos os tempos", tanto
mais catastrófica seria a situação, quando um dia o destino batesse a essa
porta, reclamando o seu tributo.
Seria possível
imaginar a velha Áustria sem o seu velho
Imperador?
Não se repetiria, imediatamente, a
tragédia que outrora atingira Maria Teresa? Não! Na verdade, é uma injustiça que
se faz aos círculos governamentais de Viena censurá-los por terem eles provocado
uma guerra que talvez tivesse sido possível evitar. Esse desfecho era, porém,
inevitável. Quando muito poderia ter sido protelado por um ou dois anos. Foi
este o castigo das diplomacias, tanto da alemã como da austríaca. Elas sempre
tentaram protelar o ajuste de contas que tinha de vir e agora eram forçadas a
dar o golpe na hora menos favorável. A verdade é que mais outra tentativa para
manter a paz teria trazido a guerra numa época ainda menos propícia. Quem não
quisesse esta guerra deveria ter a coragem de arcar com as conseqüências. Essas,
porém, só poderiam consistir no sacrifício da Áustria. Assim mesmo, a guerra
teria vindo, talvez não mais como a luta de todos contra nós mas sim tendo como
finalidade o aniquilamento da monarquia dos Habsburgos. De qualquer modo, uma
decisão tinha de ser tomada: ou entrávamos na guerra ou ficaríamos de fora,
observando, a fim de vermos, de mãos cruzadas, o destino seguir o seu
curso.
Justamente aqueles que, hoje, mais
vociferam contra o desencadear da guerra, foram os que mais funestamente
ajudaram a atiçá-la.
A social-democracia, há
dezenas de anos, fomentava, da maneira mais torpe, a guerra contra a Rússia,
enquanto o Partido do Centro, baseado num ponto de vista religioso, fazia a
política alemã girar em torno do Estado austríaco. Tinha-se que arcar com as
conseqüências desse erro. O que veio tinha de vir e, em hipótese nenhuma,
poderia ser evitado. A culpa do governo alemão neste caso foi de perder sempre
as boas oportunidades de intervenção, devido à preocupação constante de manter a
paz. Assim agindo, o governo se emaranhava em uma coligação destinada à
manutenção da paz universal, para tornar-se, por fim, a vítima de uma coligação
do mundo inteiro, que antepunha à pressão pela manutenção da paz a determinação
de fazer a guerra.
Caso o governo de Viena
tivesse dado uma forma mais suave ao seu ultimato, em nada teria mudado a
situação. Quando muito teria sido varrido do poder pela indignação popular. Aos
olhos da grande massa do povo, o tom do ultimato ainda era brando demais e, de
modo nenhum, lhe parecia brutal. Nele não havia excessos. Quem hoje procura
negar isso ou é um desmemoriado ou um mentiroso consciente. Graças a Deus, a
luta do ano de 1914 não foi, na realidade, imposta e sim desejada pelo povo
inteiro. Todos queriam acabar de vez com uma insegurança generalizada. Só assim
pode-se também compreender que mais de dois milhões de alemães, homens e
rapazes, se pusessem voluntariamente sob a bandeira decididos a protegê-la com a
última gota do seu sangue.
Aquelas horas foram
para mim uma libertação das desagradáveis recordações da juventude, Até hoje não
me envergonho de confessar que, dominado por delirante entusiasmo, caí de
joelhos e, de todo coração, agradeci aos céus ter-me proporcionado a felicidade
de poder viver nessa época.
Tinha-se
desencadeado uma luta de libertação, a mais formidável que o mundo jamais vira,
pois logo que a fatalidade tinha iniciado o seu curso, as grandes massas
perceberam que, desta vez, não se tratava do destino nem da Sérvia nem da
Áustria, e sim da vida ou morte da nação
alemã.
Pela primeira vez, depois de muitos
anos, o povo via claro o seu próprio futuro. Assim é que, logo no começo da luta
titânica, ainda sob a ação de um transbordante entusiasmo, brotaram, no espírito
do povo, os sentimentos à altura da situação, pois somente esta idéia de
salvação geral conseguiu que a exaltação nacional significasse alguma coisa mais
do que simples fogo de palha. A certeza da gravidade da situação era, porém, por
demais necessária. Em geral, ninguém podia, naquela época, ter a menor idéia da
duração da luta que, então, se iniciava. Sonhava-se poder estar de volta, à
casa, no próximo inverno, a fim de retomar o trabalho pacífico. Aquilo que o
homem deseja vale como objeto de esperança e crença. A grande maioria da nação
estava cansada do eterno estado de insegurança. Só assim pode-se compreender que
não se pensasse numa solução pacífica do conflito austro-sérvio, mas em uma
solução definitiva para as complicações existentes. Ao número desses milhões que
assim pensavam pertencia eu.
Mal se tinha
divulgado em Munique a notícia do atentado e já me passavam pela mente duas
idéias, a saber: a guerra seria absolutamente inevitável e o império dos
Habsburgos seria forçado a ficar fiel às suas alianças. O que eu mais havia
temido sempre era a possibilidade de a Alemanha entrar em conflito - talvez
mesmo em conseqüência dessa aliança - sem que a Áustria tivesse sido a causa
direta, e que, dessa maneira, o governo austríaco não se decidisse, por motivo
de política interna, a se colocar ao lado do seu aliado. A maioria eslava do
Império teria imediatamente iniciado a sua resistência a uma decisão espontânea
nesse sentido, preferindo ver o Império destruído nos seus fundamentos a
conceder o auxílio solicitado. Entretanto, esse perigo estava agora afastado. O
velho Império tinha de lutar, por bem ou por
mal.
Minha atitude em face do conflito era bem
clara e definida. Para mim não se tratava de uma guerra para que a Áustria
obtivesse satisfação por parte da Sérvia. Não. A Alemanha é que lutava pela sua
vida, e com ela o povo pela sua existência, pela sua liberdade, por seu futuro.
A política de Bismarck ia ser seguida. Aquilo que os antepassados haviam
conquistado com o sacrifício do sangue dos seus heróis nas batalhas de
Weissenburg, até Sedan e Paris, tinha de ser reconquistado pela jovem Alemanha.
Caso fosse essa luta vitoriosa, o nosso povo entraria de novo no rol das grandes
potências, com o seu poder exterior aumentado. E assim o Império alemão poderia
se tornar uma eficiente garantia da paz, sem ter de diminuir o pão de cada dia
de seus filhos, em nome dessa mesma
paz.
Quantas vezes, rapazinho ainda, tive o
desejo sincero de poder provar por fatos que para mim o entusiasmo nacional não
era uma pura fantasia. A mim me parecia muitas vezes quase um crime aplaudir o
que quer que fosse sem se estar convencido da razão de ser de seus gestos. Quem
tinha o direito de assim agir sem ter passado por aqueles momentos difíceis sem
que a mão inexorável do destino, dando aos acontecimentos um tom mais sério,
exige a sinceridade das atitudes humanas? Meu coração, como o de milhões de
outros, transbordava de orgulho e felicidade por poder de vez libertar-me dessa
situação de inércia.
Tantas vezes tinha eu
cantado o "Deutschland, Deutschland über alles", com todas as forças de meus
pulmões e gritado "Heil"... que quase me parecia uma graça especial poder
comparecer agora, perante a justiça divina, para afirmar a sinceridade dessa
minha atitude. Desde o primeiro instante estava firmemente decidido, em caso de
guerra - esta me parecia inevitável - a abandonar os livros imediatamente. Ao
mesmo tempo sabia muito bem que o meu lugar seria aquele para onde me chamava a
voz da consciência. Por motivos políticos, tinha preliminarmente abando. nado a
Áustria. Nada mais natural, pois, que agora que se iniciava a luta, coerente com
as minhas opiniões políticas, eu assim procedesse. Não era meu desejo lutar pelo
império dos Habsburgos. Estava pronto, porém, a morrer, em qualquer instante,
pelo meu povo ou pelo governo que o representasse na
realidade.
A 3 de agosto apresentei um
requerimento a S. M. o rei Luís III, no qual eu solicitava a permissão para
assentar praça num regimento bávaro. A secretaria do Governo, naquela ocasião,
como era natural, estava assoberbada de serviço. Por isso tanto mais alegre
fiquei ao tomar conhecimento, já no dia seguinte, do despacho favorável à minha
solicitação. Ao abrir, com mãos trêmulas, o documento no qual li o deferimento
do meu pedido, com a recomendação de me apresentar a um regimento bávaro, meu
contentamento e minha gratidão não tiveram limites. Poucos dias depois, eu
envergava a farda, que só quase seis anos mais tarde deveria
despir.
Começou então para mim, como
provavelmente para todos os outros alemães, a mais inesquecível e a maior época
da minha vida. Comparado com a luta titânica que se travava, todo o passado
desaparecia inteiramente. Com orgulho e saudade, recordo-me, justamente nesses
dias em que se passa o 10o. aniversário daqueles formidáveis acontecimentos, das
primeiras semanas daquela luta heróica de nosso povo, na qual graças à
benevolência do destino, me foi dado tomar
parte.
Como se fosse ontem, passam diante de
meus olhos todos os acontecimentos. Vejo-me fardado, no círculo dos meus
queridos camaradas. Lembro-me da primeira vez que saímos para exercícios
militares, etc., até que enfim chegou o dia da partida para o
front.
Uma única preocupação me afligia naquele
momento, a mim como a muitos outros. Era recear chegarmos tarde demais no front.
Essa idéia não me deixava tranqüilo. A cada manifestação de júbilo por um novo
feito heróico, sentia uma profunda tristeza, pois toda a vez que se festejava
uma nova vitória, parecia para mim aumentar o perigo de chegarmos demasiadamente
tarde. Finalmente, chegou o dia de deixarmos Munique, a fim de nos apresentarmos
ao cumprimento do dever. Tive então a oportunidade de ver, pela primeira vez, o
Reno, na nossa viagem para o ocidente, feita ao longo das suas águas calmas. A
nós estava confiada a defesa, contra a cobiça dos inimigos, do mais germânico de
todos os rios. Quando os primeiros raios de sol da manhã, atravessando um leve
véu de neblina, refletiam-se no monumento de Niederwald, irrompeu, do
longuíssimo trem de transporte, a velha canção alemã "Die Wacht am Rhein".
Senti-me transbordante de entusiasmo.
Em
seguida, veio uma noite úmida e fria, em Flandres, durante a qual marchamos
silenciosos e, quando o sol começou a despontar através das nuvens, rompeu de
repente sobre as nossas cabeças uma saudação de aço, e, entre as nossas
fileiras, sibilavam balas que caíam levantando a terra molhada. Antes de
desaparecer a pequena nuvem, duzentas bocas gritavam ao mesmo tempo "urra" a
esses primeiros mensageiros da morte. Em seguida, começou o pipocar da metralha,
a gritaria, o estrondo da artilharia, e, febricitante de entusiasmo, cada um
marchava para a frente, cada vez mais depressa, até que, sobre os campos de
beterraba, e, através das charnecas, começou a luta corpo a corpo. De longe,
porém, chegavam aos nosso ouvidos os sons de uma canção, que, cada vez mais se
aproximava, passando, de companhia a companhia, e, enquanto a morte dizimava as
nossas fileiras, a canção chegava a nós e nós a passávamos adiante:
"Deutschland, Deutschland, über alles, über alles in der
Welt!"
Passados quatro dias, voltamos. Até a
maneira de andar dos soldados se tinha modificado. Rapazes de dezessete anos
pareciam homens feitos. Os voluntários do regimento de List talvez não tivessem
aprendido bem a lutar, o que é certo é que sabiam morrer como velhos
soldados
Esse foi o
começo.
Assim continuou a luta, ano a ano. Ao
romantismo das batalhas tinha sucedido o horror. O entusiasmo se arrefecera aos
poucos e o júbilo transbordante foi abafado pelo pavor da morte. Chegou a época
em que cada um tinha de lutar entre o instinto de conservação e o imperativo do
dever. Também eu não escapei a essa luta. Cada vez que a morte rondava algo
indeterminado procurava se revoltar, baseado na razão, e, no entre. tanto, isso
nada mais era do que a covardia que, assim disfarçada, procurava envolver cada
um. Começou uma luta pró e contra, e o último resto de consciência decidia
definitivamente. Entretanto quanto mais claro se ouviam essas vozes que
recomendavam cautela, quanto mais elas procuravam atrair e falar alto, tanto
mais violenta era a resistência, até que, enfim, após longa luta interior, a
consciência do dever vencia. Já no inverno de 1915 a 1916 eu tinha decidido essa
luta. A vontade tinha finalmente conseguido se impor. Nos primeiros dias, eu
tinha avançado com júbilo e alegria nos lábios; agora me encontrava calmo e
decidido. Assim devia permanecer até o fim. Só agora o destino podia caminhar
para as últimas provas, sem que os meus nervos se rompessem ou a minha razão
falhasse.
O jovem voluntário tinha se
transformado num soldado experimentado.
Essa
transformação tinha se operado no exército inteiro. As lutas constantes o tinham
envelhecido e ao mesmo tempo, enrijado. Os que não puderam resistir à tempestade
foram por ela vencidos. Somente agora é que se poderia julgar esse exército. Só
agora depois de dois a três anos em que uma batalha se seguia a outra, em que
ele combatera contra inimigos superiores em número e em armas, sofrendo fome e
necessidades, só agora é que se podia avaliar o valor desse exército, único no
mundo.
Durante milhares de anos ninguém poderá
falarem heroísmo sem se lembrar do exército alemão na guerra mundial. Só então,
do véu do passado, a fronte de aço do capacete cinzento, firme e inabalável,
aparecerá como monumento imortal. Enquanto houver alemães na face da terra, eles
terão de se lembrar que aqueles homens eram dignos filhos da
Pátria.
Eu era soldado naquela ocasião e não
queria me meter em política. A época na verdade não era para isso. Até hoje sou
da opinião que o último cocheiro prestou ao país serviços maiores do que o
primeiro, digamos assim, "parlamentar". Nunca odiei tanto estes palradores como
no tempo em que cada indivíduo decidido que tinha alguma coisa a dizer, ou
berrava-a na cara de seus inimigos ou então calava-se oportunamente e cumpria
silenciosamente o seu dever, fosse onde fosse. De fato, naquela época, eu odiava
esses "políticos", e se fosse por mim, teria mandado formar imediatamente um
batalhão parlamentar de sapadores. Só assim eles poderiam, inteiramente à
vontade, expandir entre si a sua verborragia, sem incomodar ou prejudicar o
resto da humanidade honesta e decente.
Naquela
época eu não queria saber de política; entretanto não tinha outro remédio senão
tomar partido em certos acontecimentos que diziam respeito à nação inteira,
sobretudo a nós soldados.
Havia duas coisas que
então me aborreciam intimamente e eram por mim consideradas prejudiciais à causa
da nação.
Logo após as primeiras notícias de
vitórias, uma certa imprensa começou a deixar cair sobre o entusiasmo geral
algumas gotas de entorpecente, e isso devagar e desapercebidamente para muitos.
Agia, essa mesma imprensa, sob a máscara de boa vontade, de boas intenções e até
mesmo de zelo pela sorte do soldado. Receava-se um excesso no festejar das
vitórias. Além disso, havia o pensamento de que essa forma de celebrar os
triunfos militares não era digna de uma grande nação. Achava-se que a bravura e
o heroísmo do soldado alemão deveriam ser naturais, sem espetaculosidades. Os
alemães não se deviam deixar empolgar por manifestações de contentamento
irrefletidas, que iriam repercutir no estrangeiro, o qual apreciaria a forma
calma e digna de alegria mais do que uma exaltação desmedida, etc. Nós alemães,
acrescentavam, não deveríamos esquecer que a guerra não estava no nosso
programa, e, por isso, não deveríamos nos envergonhar de confessar abertamente
que, em qualquer época, contribuiríamos com o nosso esforço para a
confraternização da humanidade. Não era, pois, conveniente empanar a pureza dos
leitos do exército com uma gritaria demasiado espetaculosa. O resto do mundo
compreenderia muito mal essa maneira de agir. Nada é mais admirado do que a
modéstia com que um verdadeiro herói esquece, silenciosa e calmamente, os seus
maiores feitos.
Em vez de pegar esses camaradas
pelas orelhas, amarrá-los a um poste e puxá-los por uma corda, a fim de que a
nação em festas não mais pudesse ofender a sensibilidade estética de tais
escrevinhadores, começou-se a proceder na realidade contra a maneira
"inadequada" de celebrar as vitórias.
Não se
tinha a mais pálida idéia de que o entusiasmo, uma vez abafado, não mais pode
ser provocado quando se deseja. Ele é uma embriaguez e deve ser mantido nesse
estado. Como, porém, se poderia manter uma luta sem essa força do entusiasmo,
principalmente tratando-se de uma luta que iria pôr à prova, de uma maneira
inédita, as qualidades morais da nação?
Eu
conhecia o bastante sobre a psicologia das grandes massas para saber que com
sentimentalismo estético não se poderia manter aceso esse ardor cívico. No meu
modo de ver, era rematada loucura não atiçar o fogo dessa paixão. O que eu ainda
menos compreendia é que se procurasse destruir o entusiasmo existente. O que me
irritava também era a atitude que se tomava em relação ao marxismo. Para mim
essa atitude era uma prova de que não se tinha a mínima idéia do que fosse essa
calamidade. Acreditava-se seriamente ter reduzido à inação o marxismo, com a
simples declaração de que agora não existiam mais
partidos.
Não se percebia absolutamente que, no
caso, não se tratava de um partido e sim de uma doutrina que tende a destruir a
humanidade inteira. Compreende-se isso, considerando-se que, nas Universidades
sujeitas a influências semíticas, nada se dizia a respeito, e que muitos,
sobretudo nossos altos funcionários, acham, por uma questão de tola pretensão,
inútil o aprender algo que não figure entre as matérias lecionadas nas escolas
superiores. As transformações sociais mais radicais passam despercebidas a essas
cabeças ocas, razão pela qual as instituições do governo são em muito inferiores
às instituições particulares. Àquelas calha bem o provérbio: "O que o camponês
não conhece, não come". Algumas poucas exceções só servem para confirmar a
regra.
Foi tolice rematada identificar o
trabalhador alemão com o marxismo, nos dias de agosto de 1914. O trabalhador
alemão tinha-se livrado, justamente naquela época, desse veneno. Se assim não
fosse, ele nunca teria se apresentado para a guerra. Pensou-se estupidamente que
o marxismo tinha-se tornado "nacional". Essa suposição só serve para mostrar
que, nesses longos anos, nenhum dos dirigentes do Estado se tinha dado ao
trabalho de estudar a essência dessa doutrina, pois, se assim fosse,
dificilmente se teria propalado semelhante
tolice.
O marxismo, cuja finalidade última é e
será sempre a destruição de todas as nacionalidades não judaicas, teve de
verificar com espanto que, nos dias de julho de 1914, os trabalhadores alemães,
já por eles conquistados, despertaram, e cada dia com mais ardor se apresentavam
ao serviço da pátria. Em poucos dias, estava destruída a mistificação desses
embusteiros infames dos povos. Solitária e abandonada, encontrava-se essa corja
de agitadores judeus, como se não restasse mais um traço das loucuras
inculcadas, durante mais de 60 anos, ao operariado alemão. Foi um mau momento
para esses mistificadores. Logo que tais agitadores perceberam o grande perigo
que os ameaçava, em conseqüência de suas constantes mentiras, disfarçaram-se e
trataram de fingir que acompanhavam o entusiasmo
nacional.
Tinha chegado agora o momento
oportuno de proceder contra a traiçoeira camarilha de envenenadores do povo.
Dever-se-ia ter agido sumariamente, sem consideração para com as lamentações que
provavelmente se desencadeariam. Em agosto de 1914 tinham desaparecido, como por
encanto, as idéias ocas de solidariedade internacional e, no lugar delas, já
poucas semanas depois, choviam, sobre os capacetes das colunas em marcha, as
bênçãos fraternais dos shrapnell americanos. Teria sido dever de um governo
cuidadoso exterminar sem piedade os destruidores do nacionalismo, uma vez que os
operários alemães se tinham integrado de novo na
Pátria.
Em um tempo em que os melhores
elementos da nação morriam no front, os que ficaram em casa, entregues aos seus
trabalhos, deviam ter livrado a nação dessa piolharia
comunista.
Ao invés disso, sua Majestade o
Kaiser estendia a mão a esses conhecidos criminosos, dando, assim, oportunidade
a esses pérfidos assassinos da nação de voltarem a si e de recuperarem o tempo
perdido.
A víbora podia, pois, recomeçar o seu
trabalho, com mais cautela do que antes, porém de maneira mais perigosa.
Enquanto os honestos sonhavam com a paz, os criminosos traidores organizavam a
revolução.
Senti-me intimamente desgostoso com
essas meias medidas. O que eu nunca poderia imaginar, porém, era que o fim fosse
tão horroroso.
Que se deveria fazer? Pôr os
dirigentes do movimento nos cárceres, processá-los e deles livrar a nação.
Ter-se ia de empregar com a máxima energia todos os meios de ação militar, a fim
de destruir essa praga. Os partidos teriam de ser dissolvidos, o Reichstag teria
de ser chamado à. razão pela força convincente das baionetas. O melhor até teria
sido dissolvê-lo. Assim como a República, hoje, tem meios de dissolver os
partidos, naquela época, com mais razão, devia-se ter apelado para tal recurso,
pois se tratava de uma questão de vida ou de morte de toda uma
nação.
É verdade que nesses momentos surge
sempre a pergunta: Será. possível destruir idéias a ferro e a fogo? Será
possível combater concepções universais empregando a força
bruta?
Já naquele tempo, por mais de uma vez,
me fiz a mim mesmo essas perguntas. Meditando sobre casos análogos,
principalmente sobre aqueles casos da história universal que se baseiam em
fundamentos religiosos, chega-se à seguinte conclusão
básica:
As idéias, assim como os movimentos que
têm uma determinada base espiritual, seja ela certa ou errada, só podem, depois
de ter atingido um certo período de sua evolução, ser destruídos por processos
técnicos de violência, quando essas armas são elas mesmas portadoras de um novo
pensamento flamejante, de uma idéia, de um princípio
universal.
O emprego exclusivo da violência,
sem o estímulo de um ideal preestabelecido, não pode jamais conduzir à
destruição de uma idéia ou evitar a sua propagação, exceto se essa violência
tomar a forma de exterminação irredutível do último dos adeptos do novo credo e
da sua própria tradição. Isto significa, entretanto, na maioria dos casos, a
segregação de um tal organismo político do círculo das atividades, às vezes por
tempo indefinido e até para sempre. A experiência tem mostrado que um tal
sacrifício de sangue atinge em cheio a parte mais valiosa da nacionalidade, pois
toda perseguição que tem lugar sem prévia preparação espiritual, revela-se como
moralmente injustificada, provocando protestos veementes dos mais eficientes
elementos do povo, protesto esse que redunda geralmente em adesão ao movimento
perseguido. Muitos assim procedem por um sentimento de repulsa a todo combate a
idéias, pela força bruta.
O número dos adeptos
cresce então proporcionalmente à intensidade da perseguição. Entretanto, o
extermínio sem tréguas da nova doutrina só poderá ser possível à custa de grande
e crescente dizimação dos que a aceitam, dizimação que, em última análise,
conduzirá o povo ou o governo ao depauperamento. Tal processo será, desde o
princípio, inútil, quando a doutrina a ser combatida já tenha ultrapassado certo
círculo restrito.
É por isso que aqui, como em
todo processo de crescimento, o período da infância é o que está mais exposto à
destruição, enquanto que, com o correr dos anos, a força de resistência aumenta,
para só ceder lugar à nova infância com a aproximação da fraqueza senil, se bem
que sob outra forma e por outros motivos.
De
fato, quase todas as tentativas de, por meio da força, e sem base espiritual,
destruir uma doutrina, conduzem ao insucesso e não raras vezes ao contrário do
desejado, e isso pelos seguintes motivos:
A
primeira de todas as condições para uma luta pela força bruta é a persistência.
Isto quer dizer que só há possibilidade de êxito no combate a uma doutrina
quando se empregam métodos de repressão uniformes e sem solução de continuidade.
Fazendo-se, entretanto, indecisamente, alternar a força com a tolerância,
acontecerá que, não só a doutrina a ser destruída conseguirá fortificar-se mas
também ela ficará em situação de tirar novas vantagens de cada perseguição, pois
que, passada a primeira onda de compressão, a indignação pelo sofrimento lhe
trará novos adeptos, enquanto que os já existentes se conservarão cada vez mais
fiéis. Mesmo aqueles que tinham abandonado as fileiras, passado o perigo,
voltarão a elas. A condição essencial do sucesso é a aplicação constante da
força. A continuidade é, porém, sempre o resultado de uma convicção espiritual
determinada. Toda força que não provém de uma firme base espiritual torna-se
indecisa e vaga. A ela faltará a estabilidade que só poderá repousar em certo
fanatismo. Emana da energia e decisão bruta de um indivíduo. Está, porém,
sujeita a modificações de acordo com as personalidades que a aceitam, isto é,
com a força e o modo de ser de cada um.
Além
disso, há a considerar outra coisa: toda concepção universal, seja ela religiosa
ou política - às vezes é difícil estabelecer a linha divisória - luta menos pela
destruição negativa do mundo de idéias contrário do que pela vitória positiva de
suas próprias idéias. A luta consiste assim, menos na defensiva, do que na
ofensiva. Entretanto, ela ainda leva uma vantagem, pois tem o seu objetivo
determinado, isto é a vitória da própria idéia, enquanto que, inversamente, é
difícil determinar quando está atingido o fim negativo da destruição da doutrina
inimiga. Aqui também a decisão pertence ao ataque e não à defesa. A luta contra
uma força espiritual por meios violentos só é uma defesa enquanto as armas não
são elas mesmas portadoras e disseminadoras de uma nova
doutrina.
Resumindo, pode-se estabelecer o
seguinte: Toda tentativa de combater pelas armas um princípio universal tem de
ser mal sucedida, enquanto a luta não tomar rigorosamente forma de ofensiva por
novas idéias. É somente na luta de dois princípios universais que a força bruta,
empregada, persistente e decididamente, pode provocar a decisão favorável ao
lado por ela sustentado. Por isso é que até então tinha fracassado a luta contra
o marxismo.
Este foi o motivo pelo qual a
legislação socialista de Bismarck acabou falhando e tinha de falhar. Faltou a
plataforma de uma nova doutrina universal por cuja vitória se deveria ter
lutado. De fato, estimular uma luta de vida e morte com expressões vazias, tais
como "autoridade do Estado", "paz e ordem", é algo que só poderia mesmo ocorrer
a altos funcionários de secretaria, sabidamente ocos de idéias. Faltando, como
faltou, nessa luta, uma verdadeira base espiritual, teve Bismarck de contar, a
fim de poder introduzir a sua legislação socialista, com uma instituição que
nada mais era do que um aborto do
comunismo.
Confiando o destino de sua guerra ao
marxismo à complacência da democracia burguesa, o chanceler de ferro queria
fazer da ovelha, lobo.
Entretanto, tudo isso
era a conseqüência forçada da falta de um princípio geral básico e de grande
poder conquistador. que fosse oposto ao marxismo. O resultado final da luta de
Bismarck redundou, pois, numa grande
desilusão.
Eram, porém, as condições, durante a
guerra, ou mesmo no seu começo, diferentes? Infelizmente,
não.
Quanto mais eu me preocupava com a idéia
de uma modificação de atitude do governo com relação à social-democracia -
partido esse que no momento, representava o marxismo - tanto mais eu reconhecia
a falta de um sucedâneo para essa doutrina.
Que
se ia oferecer às massas, na hipótese da queda da social-democracia? Não havia
um movimento ao qual fosse lícito esperar que pudesse atrair as massas de
operários, nesse momento, mais ou menos, sem guias. Seria rematada ingenuidade
imaginar que o fanático internacional, que já havia abandonado o partido de
classe, se decidisse a entrar num partido burguês, portanto em uma nova
organização de classe. Isso é inegável, embora não seja do agrado das várias
organizações que parece acharem muito natural uma cisão de classes, até o
momento em que essa cisão não comece a lhes ser desfavorável sob o ponto de
vista político. A contestação desse tato só serve para provar a insolência e a
estupidez dos mentirosos.
De um modo geral, é
um erro julgar que a grande massa seja mais tola do que parece. Em política não
é raro o sentimento decidir mais acertadamente do que a
razão.
A alegação de que a massa erra,
deixando-se levar pelo sentimento,
alegação que
se procura evidenciar com a sua ingênua atitude na política internacional -
pode-se rebater vigorosamente observando-se o fato de não ser menos insensata a
democracia pacifista, cujos lideres, no entanto, provêm exclusivamente da
burguesia.
Enquanto milhões de cidadãos rendem
culto, todas as manhãs, à sua imprensa democrática, ficará muito mal a estes
senhores rirem das tolices do companheiro que, no final das contas, engole as
mesmas asneiras, se bem que com outra encenação. Nos dois casos, o fabricante
desses raciocínios é sempre judeu.
Deve-se,
portanto, evitar a negação de fatos que existem na realidade. O fato de que há
uma questão de classe (não se trata exclusivamente de problemas ideais, conforme
se costuma fazer crer, sobretudo em épocas de eleições) não pode ser contestado.
O sentimento de classe de grande parte de nosso povo, bem como o menosprezo do
trabalhador manual, é um fenômeno que não provém da fantasia de um
lunático.
Não obstante, ele mostra a pequena
capacidade de raciocínio dos nossos chamados intelectuais, quando, justamente
nesses círculos, não se compreende que um estado de coisas, o qual não pode
evitar o desenvolvimento de uma calamidade como o marxismo, agora não está mais
em condições de reconquistar o perdido.
Os
partidos "burgueses", como eles mesmos se denominam, não poderão jamais contar
com o apoio das massas proletárias, pois aqui temos dois mundos antagônicos, em
parte naturalmente, em parte artificialmente cindidos, e cuja atitude recíproca
só pode ser a de luta. O vencedor neste caso só poderia ser o mais jovem, e esse
seria o marxismo.
De fato, em 1914, seria
possível imaginar uma luta contra a social-democracia. Agora, predizer o tempo
da duração deste embate seria duvidoso, uma vez que faltava um sucedâneo prático
para ela.
Aqui havia uma grande
lacuna.
Eu possuía essa opinião já muito antes
da Guerra e, por isso, nunca pude me decidir a me aproximar de um dos partidos
existentes. No correr dos acontecimentos da guerra mundial tive essa minha
opinião reforçada pela impossibilidade visível de começar a luta sem tréguas
contra a social-democracia, já que faltava um movimento que fosse mais do que um
partido "parlamentar>. Muitas vezes me externei a esse respeito com os meus
camaradas mais íntimos. Apareceram-me então as primeiras idéias de, mais tarde,
tomar parte na política.
Justamente foi esse o
motivo que fez com que eu muitas vezes comunicasse ao pequeno círculo de meus
amigos a minha intenção de, passada a Guerra, combinar o meu trabalho
profissional com a atividade política, como
orador.
Creio que isso estava resolvido, no meu
espirito, com toda a seriedade.
CAPÍTULO VI - A PROPAGANDA DA
GUERRA
Observador cuidadoso dos
acontecimentos políticos, sempre me interessou vivamente a maneira por que se
fazia a propaganda da guerra. Eu via nessa propaganda um instrumento manejado,
com grande habilidade, justamente pelas organizações sociais comunistas.
Compreendi, desde logo, que a aplicação adequada de uma propaganda é uma
verdadeira arte, quase que inteiramente desconhecida dos partidos burgueses.
somente o movimento cristão social, sobretudo na época de Lueger, aplicou este
instrumento com grande eficiência e a isso se devem muitos dos seus
triunfos.
A que resultados formidáveis uma
propaganda adequada pode conduzir, a guerra já nos tinha mostrado. Infelizmente
tudo tinha de ser aprendido com o inimigo, pois a atividade, do nosso lado,
nesse sentido, foi mais do que modesta. Justamente o insucesso total do plano de
esclarecimento do povo do lado alemão, foi para mim um motivo para me ocupar
mais particularmente da questão de
propaganda.
Não nos faltava oportunidade para
pensar sobre essa questão. Infelizmente as lições práticas eram fornecidas pelo
inimigo e custaram-nos caro. O adversário aproveitou, com inaudita habilidade e
cálculo verdadeiramente genial, aquilo de que nos havíamos descuidado. Aprendi
imensamente nessa propaganda de guerra feita pelo inimigo. Aqueles que da mesma
se deviam ter servido, como lição eficiente, deixaram-na passar despercebida;
julgavam-se espertos demais para aprender dos outros. Por outro lado, não havia
vontade honesta para tal.
Haveria entre nós uma
propaganda?
Infelizmente, só posso responder
pela negativa. Tudo o que, na realidade, foi tentado nesse sentido era tão
inadequado e errôneo, desde o princípio, que em nada adiantava. Às vezes era até
prejudicial. Examinando atentamente o resultado da propaganda de guerra alemã,
chegava-se à conclusão de que ela era insuficiente na forma e psicologicamente
errada, na essência.
Começava-se por não se
saber claramente se a propaganda era um meio ou um
fim.
Ela é um meio e, como tal, deve ser
julgada do ponto de vista da sua finalidade. A forma a tomar deve consentir no
meio mais prático de chegar ao fim que se colima. É também claro que a
importância do objetivo que se tem em vista pode se apresentar sob vários
aspectos, tendo-se em vista o interesses social, e que, portanto, a propaganda
pode variar no seu valor intrínseco. A finalidade pela qual se lutava durante a
guerra era a mais elevada e formidável que se pode imaginar. Tratava-se da
liberdade e da independência de nosso povo, da garantia da vida, do futuro e, em
uma palavra, da honra da nação. Estávamos em face de uma questão que, não
obstante opiniões divergentes de muitos, ainda existe ou melhor deve existir,
pois os povos sem honra costumam perder a liberdade e a independência, mais
tarde ou mais cedo. Isso, por sua vez, corresponde a uma justiça mais elevada,
pois gerações de vagabundos sem honra não merecem a liberdade. Aquele, porém,
que quiser ser escravo covarde não deve ter o sentimento de honra, pois, do
contrário, esta cairia muito rapidamente no desprezo
geral.
O povo alemão lutava por sua existência
e o fim da propaganda da guerra devia ser o de apoiar essa luta. Levá-la à
vitória, eis o seu objetivo.
Quando, porém, os
povos lutam neste planeta por sua existência, quando se trata de uma questão de
ser ou não ser, caem por terra todas as considerações de humanidade ou de
estética, pois todas essas idéias não estão no ambiente, mas originam-se na
fantasia dos homens e a ela estão presas. Com a sua partida desse mundo
desaparecem também essas idéias, pois a natureza não as conhece. Mesmo entre os
homens, elas só são próprias a alguns povos ou melhor a certas raças, na medida
que elas provém do sentimento desses mesmos povos ou raças. O sentimento
humanitário e estético desapareceria, até mesmo de um mundo habitado, uma vez
que este perdesse as raças criadoras e portadoras dessa
idéia.
Todas essas idéias têm uma significação
secundária na luta de um povo pela sua existência, chegam mesmo a desaparecer,
uma vez que possam contrariar o seu instinto de
conservação.
Quanto à questão do sentimento de
humanidade já Moltke afirmava que ele residia no processo sumário da guerra, e
que, portanto, a maneira mais incisiva de combate, é a que conduz a esse
fim.
Aqueles que procuram argumentar nesses
assuntos com palavras, tais como estética, etc., pode-se responder da seguinte
maneira: As questões vitais da importância da luta pela vida de um povo anulam
todas as considerações de ordem estética. A maior fealdade na vida humana é e
será. sempre o jugo da escravidão. Será possível que esses decadentes considerem
"estética" a sorte atual do povo alemão? É verdade que, com os judeus, que são
os inventores modernos dessa cultura perfumada, não se deve discutir sobre esses
assuntos. Toda a sua existência é um protesto vivo contra a estética da imagem
do Criador.
Se, na luta, esses pontos de
humanidade e beleza são excluídos, eles também não poderão servir de orientação
para a propaganda.
A propaganda durante a
guerra era um meio para um determinado fim, e esse fim era a luta pela
existência do povo alemão. Portanto, a propaganda só poderia ser encarada sob o
ponto de vista de princípios conducentes àquele
objetivo.
As armas mais terríveis seriam
humanas, desde que conduzissem a vitória mais rapidamente. Belos seriam somente
os métodos que ajudassem a assegurar a dignidade à Nação: a dignidade da
liberdade. Essa era a única atitude possível na questão da propaganda de guerra,
numa luta de vida e de morte.
Fossem esses
pontos conhecidos daqueles que os deviam conhecer, nunca se teriam verificado
vacilações quanto à forma e aplicação dessa arma verdadeiramente terrível na mão
de um conhecedor.
A segunda questão de
importância decisiva era a seguinte: a quem se deve dirigir a propaganda, aos
intelectuais ou à massa menos culta? A. propaganda sempre terá de ser dirigida à
massa!
Para os intelectuais, ou para aqueles
que, hoje, infelizmente assim se consideram, não se deve tratar de propaganda e
sim de instrução científica. A propaganda, porém, por si mesma, é tão pouco
ciência quanto um cartaz é arte, considerado pelo seu lado de apresentação. A
arte de um cartaz consiste na capacidade de seu autor de, por meio da forma e
das cores, chamar a atenção da massa. O cartaz de uma exposição de arte só tem
em vista chamar a atenção sobre a arte da exposição; quanto mais ele consegue
esse desideratum tanto maior é a arte do dito cartaz. Além disso, o cartaz deve
transmitir à massa uma idéia da importância da exposição, nunca, porém, deverá
ser um sucedâneo da arte que se procura oferecer. Assim, quem desejar se ocupar
da arte mesma, terá de estudar mais do que o próprio cartaz, e não lhe bastará
por exemplo, um simples passeio pela exposição. Dele se espera que se aprofunde
nas várias obras, observando-as com todo cuidado, acabando por fazer delas um
juízo justo.
Semelhantes são as condições do
que hoje designamos pela palavra propaganda.
O
fim da propaganda não é a educação científica de cada um, e sim chamar a atenção
da massa sobre determinados fatos, necessidades, etc., cuja importância só assim
cai no círculo visual da massa.
A arte está
exclusivamente em fazer isso de uma maneira tão perfeita que provoque a
convicção da realidade de um fato, da necessidade de um processo, e da justeza
de algo necessário, etc. Como ela não é e não pode ser uma necessidade em si,
como a sua finalidade, assim como no caso do cartaz, é a de despertar a atenção
da massa e não ensinar aos cultos ou àqueles que procuram cultivar seu espírito,
a sua ação deve ser cada vez mais dirigida para o sentimento e só muito
condicionalmente para a chamada razão.
Toda
propaganda deve ser popular e estabelecer o seu nível espiritual de acordo com a
capacidade de compreensão do mais ignorante dentre aqueles a quem ela pretende
se dirigir. Assim a sua elevação espiritual deverá ser mantida tanto mais baixa
quanto maior for a massa humana que ela deverá abranger. Tratando-se, como no
caso da propaganda da manutenção de uma guerra, de atrair ao seu círculo de
atividade um povo inteiro, deve se proceder com o máximo cuidado, a fim de
evitar concepções intelectuais demasiadamente
elevadas.
Quanto mais modesto for o seu lastro
científico e quanto mais ela levar em consideração o sentimento da massa, tanto
maior será o sucesso. Este, porém, é a melhor prova da justeza ou erro de uma
propaganda, e não a satisfação às exigências de alguns sábios ou jovens estetas.
A arte da propaganda reside justamente na compreensão da mentalidade e dos
sentimentos da grande massa. Ela encontra, por forma psicologicamente certa, o
caminho para a atenção e para o coração do povo. Que os nossos sabidos não
compreendam isso, a causa está na sua preguiça mental ou no seu orgulho.
Compreendendo-se, a necessidade da conquista da - grande massa, pela propaganda,
segue-se daí a seguinte doutrina: É errado querer dar à propaganda a variedade,
por exemplo, do ensino científico.
A capacidade
de compreensão do povo é muito limitada, mas, em compensação, a capacidade de
esquecer é grande. Assim sendo, a propaganda deve-se restringir a poucos pontos.
E esses deverão ser valorizados como estribilhos, até que o último indivíduo
consiga saber exatamente o que representa esse estribilho. Sacrificando esse
princípio em favor da variedade, provoca-se uma atividade dispersiva, pois a
multidão não consegue nem digerir nem guardar o assunto tratado. O resultado é
uma diminuição de eficiência e consequentemente o esquecimento por parte das
massas.
Quanto mais importante for o objetivo a
conseguir-se, tanto mais certa, psicologicamente, deve ser a tática a
empregar.
Por exemplo, foi um erro fundamental
querer tornar o inimigo ridículo, como o fizeram os jornais humorísticos
austríacos e alemães.
Este sistema é
profundamente errado, pois o soldado, quando caia na realidade, fazia do inimigo
uma idéia totalmente diferente, o que, como era de esperar, acarretou graves
conseqüências. Sob a impressão imediata da resistência do inimigo, o soldado
alemão sentia-se ludibriado por aqueles que o tinham orientado até então, e, em
vez de um aumento de sua combatividade ou mesmo resistência, dava-se o oposto. O
homem desanimava.
Em contraposição, a
propaganda de guerra dos americanos e ingleses era psicologicamente acertada.
Apresentando ao povo os alemães como bárbaros e Hunos, ela preparava o espírito
dos seus soldados para os horrores da guerra, ajudando assim a preservá-los de
decepções. A mais terrível arma que fosse empregada contra ele, parecer-lhe-ia
mais uma confiança no que lhe tinham dito e aumentaria a crença na 'Veracidade
das afirmações de seu governo como também, por outro lado, servia para fazer
crescer o ódio contra o inimigo infame. O cruel efeito da arma do adversário que
ele começava a conhecer parecia-lhe aos poucos uma prova da brutalidade feroz do
inimigo "bárbaro" de que ele já tinha ouvido falar, sem que, por um segundo,
tivesse sido levado a pensar que as suas próprias armas fossem, muito
provavelmente, de ação mais terrível.
Assim é
que, sobretudo o soldado inglês, nunca se sentiu mal informado pelos seus, o que
infelizmente se dava com o soldado alemão, Este chegava a rejeitar as noticias
oficiais como falsas, como verdadeiro
embuste.
Tudo isso era a conseqüência de se
entregar esse serviço de propaganda ao primeiro asno que se encontrava, em vez
de compreender que para este serviço é necessário um profundo conhecedor da alma
humana.
A propaganda de guerra alemã serviu de
exemplo inexcedível em efeitos negativos, em virtude da falta absoluta de
raciocínio psicologicamente certo.
Muito se
poderia ter aprendido do inimigo, sobretudo aquele que, de olhos abertos e com o
sentido alerta, observasse a onda da propaganda inimiga durante os quatro anos e
meio de guerra.
O que menos se compreendia era
a condição primeira de toda atividade propagandista, a saber: a atitude
fundamentalmente subjetiva e unilateral que a mesma deve assumir em relação ao
objetivo visado. Neste terreno cometeram se erros tão grandes, logo no começo da
guerra, que se tinha o direito de duvidar se tanta asneira podia ser atribuída
só à pura ignorância.
Que se diria, por
exemplo, de um cartaz anunciando um novo sabão e que, no entanto, aponta como
"bons" outros sabões? A única coisa a fazer diante disso seria levantar os
ombros, e passar.
O mesmo se dá em relação à
propaganda política.
Foi um erro fundamental,
nas discussões sobre a culpabilidade da guerra, admitir que a Alemanha não podia
sozinha ser responsabilizada pelo desencadeamento dessa catástrofe. Deveria
ter-se incessantemente atribuído a culpa ao adversário, mesmo que esse fato não
tivesse correspondido exatamente à marcha dos acontecimentos, como na realidade
era o caso. Qual, porém, foi a conseqüência dessa
indecisão?
A grande massa de um povo não se
compõe de diplomatas ou só de professores oficiais de Direito, mesmo de pessoas
capazes de ajudar com acerto, e sim de criaturas propensas à dívida e às
incertezas. Quando se verifica, em uma propaganda em causa própria, o menor
indício de reconhecer um direito à parte oposta, cria-se imediatamente a dúvida
quanto ao direito próprio. A massa não está em condições de distinguir onde
acaba a injustiça estranha e onde começa a sua justiça própria. Ela, num caso
como esse, torna-se indecisa e desconfiada, sobretudo quando o adversário não
comete a mesma tolice, mas, ao contrário, lança toda e qualquer culpa sobre o
inimigo. Nada mais natural, pois que, finalmente, o povo acabe acreditando mais
na propaganda inimiga do que na própria, dada a uniformidade coerência desta.
Esse efeito é, então, inevitável quando se trata de um povo como o alemão que já
por si sofre de tão grande mania de objetivismo, e está sempre preocupado em
evitar injustiças ao inimigo, mesmo ante o perigo do seu próprio
aniquilamento.
A massa não chega a compreender
que não é assim que se imaginam essas coisas nos postos de
comando.
O povo, na sua grande maioria, é de
índole feminina tão acentuada, que se deixa guiar, no seu modo de pensar e agir,
menos pela reflexão do que pelo
sentimento.
Esses sentimentos, porém, não são
complicados mas simples e consistentes. Neles não há grandes diferenciações. São
ou positivos ou negativos: amor ou ódio, justiça ou injustiça, verdade ou
mentira. Nunca, porém, o meio termo.
Tudo isso
foi compreendido, sobretudo pela propaganda inglesa e por ela aproveitado, de
uma maneira verdadeiramente genial. Lá não havia indecisões que pudessem
provocar dúvidas.
A prova do conhecimento que
tinham os ingleses do primitivismo do sentimento da grande massa foi as
divulgações das crueldades do nosso exército, campanha que se adaptava a esse
estado de espírito do povo.
Essa tática serviu
para assegurar, de maneira absoluta, a resistência no front, mesmo na ocasião
das maiores derrotas. Além disso, persistiu-se na afirmação de que o inimigo
alemão era o único culpado pelo rompimento de hostilidades. Foi essa mentira
repetida e repisada constantemente, propositadamente, com o fito de influir na
grande massa do povo, sempre propensa a extremos. O desideratum foi atingido.
Todos acreditaram nesse embuste.
O quanto foi
eficiente essa maneira de fazer propaganda ficou patenteado claramente no fato
de ter ela conseguido, após quatro anos, não só assegurar a resistência ao
inimigo como começar a influir nocivamente no modo de ver do nosso próprio
povo.
Não é de espantar que à nossa propaganda
estivesse reservado um tal insucesso. Ela trazia a semente da ineficácia na sua
própria dubiedade. Além disso, era pouco provável, a julgar pelo seu conteúdo,
que ela fosse capaz de causar o efeito necessário no seio da multidão
anônima.
Só mesmo os nossos "estadistas" falhos
de espírito poderiam imaginar que, com esse pacifismo anódino e cheirando a flor
de laranja, se conseguisse despertar o entusiasmo de alguém ao ponto de
arrastá-lo ao sacrifício até da vida. Foi, pois, inútil essa miserável tática e
até mesmo perniciosa. Qualquer que seja o talento que se revele na direção de
uma propaganda não se conseguirá sucesso, se não se levar em consideração sempre
e intensamente um postulado fundamental. Ela tem de se contentar com pouco,
porém, esse pouco terá de ser repetido constantemente. A persistência, nesse
caso, é, como em muitos outros deste mundo, a primeira e mais importante
condição para o êxito.
Em assuntos de
propaganda, justamente, é que não se pode ser guiado por estetas, nem por
blasés. Os primeiros dão, pela forma e pela expressão, um tal cunho à propaganda
que, dentro em pouco, ela só tem poder de atração nos círculos literários; os
segundos devem ser cuidadosamente evitados, pois a sua falta de sensibilidade
faz com que procurem constantemente novos atrativos. Essas criaturas de tudo se
fartam com facilidade; o que eles desejam é variedade e são incapazes de uma
compreensão das necessidades de seus concidadãos ainda não contaminados pelo seu
pessimismo. Eles são sempre os primeiros críticos da propaganda, ou, melhor, de
seu conteúdo, o qual lhes parece demasiado arcaico, demasiado batido, etc. Só
querem novidades, só procuram variedade e tornam-se dessa maneira inimigos
mortais de uma conquista eficiente das massas sob o ponto de vista político.
Logo que uma propaganda, na sua organização e no seu conteúdo, começa a se
dirigir pelas necessidades deles, perde toda a unidade e se dispersa
inteiramente.
A propaganda, entretanto, não foi
criada para fornecer a esses senhores blasés uma distração interessante e sim
para convencer a massa. Esta, porém, necessita - sendo como é de difícil
compreensão - de um determinado período de tempo, antes mesmo de estar disposta
a tomar conhecimento de um fato, e, somente depois de repetidos milhares de
vezes os mais simples conceitos, é que sua memória entrará em
funcionamento.
Qualquer digressão que se faça
não deve nunca modificar o sentido do fim visado pela propaganda, que deve
acabar sempre afirmando a mesma coisa. O estribilho pode assim ser iluminado por
vários lados, porém o fim de todos os raciocínios deve sempre visar o mesmo
estribilho. Só assim a propaganda poderá agir de uma maneira uniforme e
decisiva.
Só a linha mestra, que nunca deve ser
abandonada, é capaz de, guardando a acentuação uniforme e coerente, fazer
amadurecer o sucesso final. Só então poder-se-á, com espanto, constatar que
formidáveis e quase incompreensíveis resultados tal persistência é capaz de
produzir.
Todo anúncio, seja ele feito no
terreno dos negócios ou da política, tem o seu sucesso assegurado na constância
e continuidade de sua aplicação.
Também aqui
foi modelar o exemplo da propaganda de guerra inimiga, restrita a poucos pontos
de vista, exclusivamente destinada à massa e levada avante com tenacidade
incansável.
Durante toda a guerra empregaram-se
os princípios fundamentais reconhecidos certos, assim como as formas de
execução, sem que se tivesse nunca tentado a menor modificação. No princípio
essa tática parecia louca no atrevimento de suas afirmações. Tornou-se mais
tarde desagradável, e finalmente acreditada. Quatro e meio anos após, estalou na
Alemanha uma revolução cujo leit-motiv provinha da propaganda de guerra
inimiga.
Na Inglaterra, entretanto,
compreendeu-se mais uma coisa, a saber:
Essa
arma espiritual só tem o seu sucesso garantido na aplicação às massas e esse
sucesso cobre regiamente todas as despesas.
Lá,
a propaganda valia como arma de primeira ordem, enquanto que entre nós era
considerada o último ganha-pão dos políticos desocupados, e fornecia pequenas
ocupações para heróis modestos.
O seu sucesso
era, pois, de modo geral, igual a zero.
CAPÍTULO VII - A REVOLUÇÃO
A
propaganda inimiga tinha começado entre nós, no ano de 1915; desde 1916
tornou-se cada vez mais intensa, para finalmente se transformar, no começo de
1918, numa onda avassaladora. Podia se. então, a cada passo, reconhecer os
efeitos desta conquista de almas. O exército alemão aprendia aos poucos a pensar
conforme o inimigo desejava.
A nossa reação, no
entanto, falhava inteiramente.
Entre os
dirigentes responsáveis pela direção do exército, havia a intenção de aceitar a
luta também para esse desideratum. Sob o ponto de vista psicológico, cometeu-se
um erro, deixando que esses esclarecimentos se processassem no seio da própria
tropa. Para ser eficiente elas deveriam ter vindo da nação. Só então poder-se-ia
contar com o seu sucesso, entre homens que há quatro anos escreviam para a
história de sua Pátria páginas imorredouras, de inigualáveis feitos heróicos,
alcançados no meio das maiores dificuldades e
privações.
No entanto, o que, da Pátria,
chegava às linhas da frente?
Era isso estupidez
ou crime?
Em pleno verão de 1918, após a
evacuação da margem sul do Mama, a imprensa, sobretudo, a imprensa alemã se
portava de modo tão miseravelmente inábil, mesmo criminosamente imbecil, que,
diariamente, a par do ódio crescente, ocorria-me perguntar se, na realidade, não
haveria mesmo ninguém capaz de pôr um fim a esse desperdício do heroísmo do
exército.
Que aconteceu em França quando, em
1914, de vitória em vitória, varríamos o solo
francês?
Que fez a Itália nos dias da derrocada
de seu front do Isonzo? Que fez a França na primavera de 1918, quando o ataque
das divisões alemãs parecia abalar as suas posições nos seus fundamentos e
quando as baterias de longo alcance começaram a fazer sentir os seus efeitos em
Paris? Como lá se soube tirar partido da paixão nacional levada ao paroxismo,
lançada em rosto aos regimentos em retirada desabalada! Como trabalhou a
propaganda na influenciação da massa, no sentido de inculcar a fé na vitória
final no coração dos soldados dos fronts
rompidos!
Que aconteceu entre
nós?
Nada ou pior do que
isso.
Naquela ocasião subiam-me à cabeça a
raiva e a indignação quando, ao ler os jornais, tinha de analisar, sob o ponto
de vista psicológico, aquela matança em
massa.
Mais de uma vez me atormentou a idéia de
que, se a Providência me tivesse colocado no lugar desses ignorantões ou mal
intencionados incompetentes ou criminosos de nosso serviço de propaganda, talvez
outro tivesse sido o desfecho da luta.
Senti,
pela primeira vez, nesses meses, a maldade da sorte que me mantinha no front, ao
alcance do tiro de qualquer negro, enquanto, no seio da Pátria, eu poderia
prestar serviços mais eficientes.
Já naquela
ocasião, tinha bastante confiança em mim mesmo para acreditar que teria levado a
cabo tal empresa.
Eu não passava, porém, de um
desconhecido, um entre oito milhões! Assim sendo, o melhor era calar a boca e
tratar de cumprir, na posição em que estava, o meu dever, da melhor
maneira.
No verão de 1915. caíram em nossas
mãos os primeiros boletins inimigos.
Seu
conteúdo era quase sempre o mesmo, se bem que com algumas variantes na forma da
exposição. Todos afirmavam que a miséria na Alemanha aumentaria cada vez mais;
que a duração da guerra seria infinita, que as probabilidades de vitória seriam
cada vez menores, que o povo em casa cada vez mais desejava a paz, que só o
"militarismo" e o "Kaiser" queriam a continuação da guerra; que o mundo inteiro
- que bem sabia disso - não fazia a guerra ao povo alemão e sim exclusivamente
ao único culpado que era o Kaiser, que a luta não teria fim antes do afastamento
desse inimigo da humanidade pacífica; que as nações liberais e democráticas
aceitariam a Alemanha, uma vez acabada a guerra, na liga eterna da paz mundial,
aceitação essa que seria garantida, desde o momento em que estivesse aniquilado
o "militarismo prussiano", etc., etc.
Para
melhor ilustrar o exposto não raras vezes eram então transcritas "cartas de
casa", isto é, das famílias dos soldados, cujo conteúdo parecia apoiar essas
afirmações.
No primeiro momento, os soldados,
na sua maioria, levavam na troça essas tentativas do inimigo. Os boletins eram
lidos, em seguida enviados para a retaguarda aos estados-maiores e, na maioria
dos casos, olvidados até que o vento trouxesse novo carregamento para dentro das
trincheiras. Geralmente eram aeroplanos que distribuíam esses
boletins.
Nesse processo de propaganda,
evidenciava-se, à primeira vista, o fato de atacarem com veemência a Prússia,
justamente nos setores do front, onde havia bávaros. Asseverava-se que a Prússia
era o verdadeiro culpado e responsável pela guerra e que, por outro lado, não
havia, especialmente contra a Baviera, a menor animosidade. É verdade, diziam,
que nada se podia fazer em seu favor, enquanto ela se encontrasse a serviço do
militarismo prussiano, auxiliando-o a "tirar as castanhas do
fogo".
Esta maneira de persuadir começou na
realidade já em 1915 a produzir certos efeitos. No seio da tropa, a má vontade
contra a Prússia crescia visivelmente, sem que as autoridades tomassem quaisquer
providências. Evidentemente, isso foi mais do que uma simples negligência que
mais cedo ou mais tarde se faria sentir, de maneira terrível, não só contra a
"Prússia" mas também contra o povo alemão, no seio do qual, a Baviera ocupa
lugar de destaque.
Desde o ano de 1916, a
propaganda inimiga começou a alcançar triunfos completos, nesse
sentido.
Além disso, as queixas que se
continham nas cartas das famílias- dos soldados vinham produzindo, há muito, os
seus naturais efeitos. Já não era nem mais necessário que o inimigo as
transmitisse ao front, por meio de boletins, etc. Contra esse estado de coisas
também não se tomaram providências "por parte do governo", salvo algumas
"exortações", psicologicamente asnáticas. O front continuou a ser inundado com
esse veneno fabricado em casa por mulheres ingênuas, as quais, naturalmente, não
suspeitavam que esse era o meio de reforçar ao extremo, no espírito do inimigo,
a confiança na vitória e que assim prolongavam e agradavam os sofrimentos dos
seus parentes em luta nas trincheiras. As cartas levianas das mulheres alemãs
custaram a vida a centenas de milhares de
homens.
Assim, já em 1916, começaram a aparecer
sintomas alarmantes. O front vociferava e mostrava-se descontente com muitas
coisas, e, às vezes, com razão, se
indignava.
Enquanto os soldados, pacientemente
passavam fome nas linhas da frente e os seus parentes sofriam grandes privações
em casa, em outros lugares havia abundância e
dissipação.
Mesmo no campo da luta, nem tudo, a
esse respeito, se passava, como seria de
esperar.
Assim, já naquela ocasião, murmurava
se contra esse estado de coisas. Essas reclamações não passavam, porém, de
questões "domésticas". O mesmo homem que, pouco antes, tinha vociferado e
resmungado, poucos minutos depois cumpria silenciosamente o seu dever, com a
máxima naturalidade. A mesma companhia, que pouco antes se manifestara
descontente, agarrava-se a um pedaço de trincheira, cuja defesa lhe tinha sido
confiada, como se o destino da Alemanha dependesse exclusivamente desses 100
metros de buracos de lama. Esse era ainda o front do velho e maravilhoso
exército de heróis.
A diferença entre eles e a
Pátria iria eu conhecer em uma mutação
brusca.
Em fins de setembro de 1916, a minha
divisão se deslocou para a batalha do Somme. Essa foi para nós a primeira das.
formidáveis batalhas materiais que se seguiram, e a impressão, difícil de
descrever, era mais de inferno do que de
guerra.
Semanas a fio, sob o furacão do fogo de
barragem resistia o front alemão, às vezes comprimido um pouco para trás, às
vezes avançando de novo, porém nunca
recuando.
A 7 de outubro de 1916 fui
ferido.
Consegui ser levado para a retaguarda e
devia voltar para a Ale. manha em um trem de
ambulância.
Dois anos se haviam passado sobre a
última vez que eu vira a Pátria, período de tempo, quase infinito, em tais
circunstâncias.
Eu mal podia imaginar a
existência de alemães que não estivessem metidos em uniforme. Quando, em
Hermies, no hospital de feridos, quase estremeci de susto ao ouvir a voz de uma
mulher alemã enfermeira que tinha dirigido a palavra a um meu vizinho de
cama.
Ouvir um tal som pela primeira vez após
dois anos!
Quanto mais o trem, que nos devia
conduzir à Pátria, se aproximava da fronteira, tanto mais inquieto cada um se
sentia intimamente. Sucediam-se as localidades pelas quais, há dois anos atrás,
tínhamos passado como jovens soldados:- Bruxelas, Louvam, Liége, e finalmente
acreditamos reconhecer a primeira casa alemã com a sua cumeeira alta e suas
lindas janelas.
A
Pátria!
Era outubro de 1914, ardíamos de
entusiasmo ao atravessar a fronteira; agora reinavam o silêncio e a comoção Cada
um se sentia feliz por ter o destino lhe permitido rever ainda uma vez o solo
pátrio que tivera de defender com sua vida; e quase que se envergonhava de se
sentir observado pelos outros. Quase no dia de completar um ano da minha
partida, fui internado no hospital de Beelitz, perto de
Berlim.
Que mudança! Da lama da batalha do
Somme às camas brancas dessa construção maravilhosa! No princípio quase não
ousávamos nos deitar nesses leitos. Só lentamente poderíamos rios acostumar a
esse novo mundo, tão diferente das trincheiras!
Infelizmente, porém, este
mundo era também novo noutro sentido.
O
espírito do exército no front parecia não encontrar acolhida aqui. Algo, ainda
desconhecido no front, ouvi aqui pela primeira vez:- o elogio da própria
covardia!
Lá fora seria possível maldizer e
ouvir vociferar, porem nunca com a intenção de faltar com o dever ou de
glorificar o covarde. Não! O covarde era sempre considerado covarde e mais nada;
e o desprezo que o atingia era sempre geral, assim como geral era a admiração
que se dedicava ao verdadeiro herói. No hospital, entretanto, dava-se já em
parte o inverso: Os mais deslavados instigadores é que tinham a palavra e
procuravam, com todos os recursos da sua verborragia lamentável, tornar
ridículos os conceitos do soldado decente e proclamar como virtude a falta de
caráter do covarde. Eram sobretudo alguns miseráveis rapazolas que davam o tom.
Um deles se vangloriava de ter ele mesmo passado a mão pelo arame farpado, a fim
de ir para o hospital. Ele parecia, não obstante esse ferimento ridículo, já
estar ali há muito tempo, e que, só por um embuste, tinha vindo num trem de
transporte para a Alemanha. Este sujeito venenoso ia tão longe, a ponto de
colocar a própria covardia num pé de igualdade com a valentia superior ou a
morte heróica de um soldado decente. Muitos ouviam silenciosos, outros se
afastavam, outros, porém, concordavam.
Eu
estava enojado; no entanto o instigador era tolerado no estabelecimento. Que se
devia fazer? A direção devia saber e sabia quem e o que ele era. Entretanto nada
acontecia.
Logo que pude andar de novo,
consegui licença para ir a Berlim.
A miséria
áspera, mais negra, era visível por toda a parte. A cidade de milhões estava
faminta. O descontentamento era grande. Em muitas casas visitadas por soldados,
o tom era semelhante ao do hospital. Tinha-se a impressão de que esses
indivíduos procuravam justamente esses lugares, a fim de espalhar aí o seu modo
de pensar.
Muito e muito pior era, porém, a
situação em Munique! Quando me restabeleci e tive alta do hospital e fui
transferido para o batalhão de reserva pensei não reconhecer mais a cidade.
Descontentamento, desânimo, imprecações por toda a parte. Mesmo no batalhão de
reserva, o moral era abaixo da critica. Para isso contribuía aqui a maneira
grandemente inábil como os antigos oficiais instrutores tratavam os soldados
vindos do front. Eles ainda não tinham estado uma hora sequer no front e, por
esse motivo, sã em parte conseguiam estabelecer relações cordiais com os velhos
soldados Estes possuíam certas particularidades oriundas dos serviços de
campanha, as quais eram inteiramente incompreensíveis para os dirigentes dessas
tropas de reserva e que só o oficial vindo do front poderia compreender. Este
último naturalmente era considerado pelos soldados, doutra maneira que não o era
pelo comandante de etapas". Abstraindo disso tudo, porém, a impressão geral era
péssima. Ser reacionário era considerado sinal de superioridade; a perseverança
no cumprimento do dever tomava-se como fraqueza ou estreiteza de espírito. Os
escritórios estavam repletos de judeus. Quase todo escriturário era judeu e
quase todo judeu era escriturário. Eu ficava abismado ante essa massa de
lutadores do povo eleito e não podia deixar de compará-la com os poucos
representantes no front.
No mundo dos negócios,
pior ainda era o estado de coisas. Nesse ponto, o povo judeu tinha se tornado na
realidade "indispensável". O morcego tinha começado a lentamente chupar o sangue
do povo. Pelos caminhos Indiretos das sociedades de guerra, tinha-se achado uma
maneira de eliminar aos poucos a economia nacional
livre.
Pregava-se a necessidade de uma
centralização sem limites.
Assim é que, na
realidade, já no ano de 1916 para 1917, quase toda a produção se achava sob o
controle dos financistas judeus.
Contra quem,
porém, se dirige o ódio do povo? Nessa época, eu via com pavor aproximar-se uma
calamidade que, se não fosse desviada em tempo oportuno, teria de provocar a
debacle.
Enquanto o judeu roubava a nação
inteira e a oprimia sob o seu jugo, instigava-se o povo contra os "Prussianos".
Como no front, também aqui não se tomavam providências contra essa propaganda
venenosa. Parecia não passar pela cabeça de ninguém que o colapso da Prússia
estava longe de provocar o soerguimento da Baviera. Ao contrário, a queda de um
teria de arrastar o outro para o abismo,
impiedosamente.
Sentia-me infinitamente mal
ante essa atitude. Nela eu via o mais genial manejo dos judeus, que desejavam
afastar de si a atenção geral para dirigi-la para outros assuntos. Enquanto
brigava o bávaro com o prussiano, ele roubava aos dois a existência; enquanto se
falava mal, na Baviera, do prussiano, o judeu organizava a revolução e destruía
ao mesmo tempo a Prússia e a Baviera.
Eu não
podia tolerar essa maldita luta entre filhos do mesmo povo; por isso, sentia-me
contente por voltar ao front, para onde, ao chegar em Munique, tinha pedido
minha transferência.
No princípio de março de
1917, encontrava-me de novo no meu
regimento.
Lá para os fins do ano de 1917,
parecia ter atingido o máximo o desânimo no exército. O exército inteiro, após o
colapso russo, estava animado de nova esperança e de nova coragem. A tropa
começava cada vez mais a se convencer de que a luta havia de acabar com a
vitória da Alemanha. Ouvia-se, novamente cantar, e os agourentos cada vez eram
mais raros. Tinha-se de novo fé no destino da
Pátria.
Sobretudo o colapso italiano, no outono
de 1917, tinha produzido um efeito maravilhoso. Via-se nessa vitória a prova da
possibilidade de romper o front, mesmo abstraindo o teatro de operações russas.
Uma fé maravilhosa invadia novamente o coração de milhões, e fazia com que
aguardassem com confiança a primavera de 1918. O inimigo, porém, estava
visivelmente abatido. Nesse inverno houve mais calma do que de costume; era a
calma que precede a tempestade.
Justamente
enquanto o front fazia os últimos preparativos para o término final da luta,
enquanto transportes de homens e material rolavam para as linhas do oeste, e a
tropa recebia instruções para o grande ataque, arrebentou na Alemanha a maior
patifaria de toda a guerra.
A Alemanha não
devia vencer. A última hora, quando a vitória começava a se decidir pelas
bandeiras alemãs, lançou-se mão de um meio que parecia adequado a sufocar, de um
golpe, no nascedouro, a ofensiva alemã da primavera, tornando a vitória
impossível.
Organizou-se a greve de munições.
Caso ela vingasse, o front alemão teria de se esfacelar e seria realizado o
desejo, manifestado pelo "Vorwärts" de que a vitória desta vez não fosse das
cores alemãs. A linha da frente teria de ser rompida, em poucas semanas, por
falta de munição. A ofensiva seria assim evitada, a Entente estaria salva e o
capital internacional se teria tornado dono da Alemanha. A finalidade Intima do
marxismo, isto é, a mistificação dos povos, teria sido atingida. A destruição da
economia nacional, em beneficio do capital internacional, é um fim que foi
atingido graças à tolice e à boa fé de um lado e a uma covardia inominável do
outro.
É verdade que a greve de munição, que
visava anular o front pela falta de armas, não teve o sucesso esperado. Ele
desmoronou cedo demais para que a falta de munição, conforme estava planejado,
pudesse ter condenado o exército à destruição. Tanto mais terrível, porém, foi o
dano moral provocado.
Em primeiro lugar, todos
se perguntavam: Para que, afinal de contas, lutava o exército, se a própria
Pátria não desejava a vitória? Para que os enormes sacrifícios e privações? O
soldado tem de lutar pela vitória e a Pátria faz
greve!
Em segundo lugar, qual teria sido o
efeito desses acontecimentos sobre o
inimigo?
No inverno de 1917 a 1918, pela
primeira vez, nuvens tenebrosas surgiram no firmamento do mundo aliado. Durante
quase quatro anos. tinha-se investido contra o gigante alemão, sem se ter podido
derrubá-lo e, no entanto, este só tinha um escudo para se defender, enquanto a
espada tinha de distribuir golpes, ora para o oeste, ora para o sul. Finalmente
o gigante estava com as costas livres. Rios de sangue tinham corrido até ele
abater definitivamente um inimigo. Era chegado o momento de, no oeste, juntar a
espada ao escudo e se, até então, o inimigo não tinha conseguido romper a
defensiva, a ofensiva ia atingi-lo em
cheio.
Ele era temido e receava-se a sua
vitória.
Em Londres e Paris sucediam se as
conferências. Até a propaganda inimiga já se fazia com dificuldade. Já não era
tão fácil demonstrar a improbabilidade da vitória alemã. O mesmo se dava nas
frentes de batalha, onde reinava silêncio absoluto, até nas tropas aliadas.
Esses senhores tinham perdido de repente a insolência. Também para eles, as
coisas começaram lentamente a aparecer sob uma luz desagradável. A sua atitude
interna com relação ao soldado alemão tinha-se modificado. Até então, os nossos
soldados eram vistos como loucos a quem uma derrota certa esperava. Agora,
porém, estava diante deles o destruidor do aliado russo. A restrição das
ofensivas alemãs do oeste. provindas da necessidade, pareciam entretanto tática
genial. Durante três anos os alemães tinham investido contra a Rússia, no
princípio aparentemente sem o menor sucesso. Quase que se tinha rido desse
começo de luta. No final das contas, o gigante russo teria de sair vencedor
graças à superioridade numérica. A Alemanha, porém, estava fadada a esvair-se em
sangue. A realidade parecia justificar essas
esperanças.
Desde os dias de setembro de 1914,
quando. pela primeira vez, começaram a rolar para a Alemanha, pelas ruas e
estradas, os magotes Infinitos dos prisioneiros russos da batalha de Tennenberg,
a avalanche parecia não ter fim. Entretanto, cada exército batido e destruído
era substituído por um novo. O Império colossal fornecia ao Czar cada vez novos
soldados e à guerra suas novas vítimas e isso inesgotavelmente. Quanto tempo
poderia a Alemanha resistir a essa corrida? Não chegaria o dia em que, após uma
última vitória alemã, não aparecessem os últimos exércitos para a última
batalha? E mais! Na medida das possibilidades humanas, a vitória da Rússia
poderia ser postergada, porém, teria de
vir.
Agora tinham acabado todas essas
esperanças. O aliado que tinha trazido ao altar dos interesses comuns os maiores
sacrifícios em sangue, tinha chegado ao fim de suas forças e jazia no chão à
mercê do inimigo inexorável. O medo e o pavor se infiltravam nos corações dos
soldados, que até então eram animados de uma crença quase cega. Temia-se a
primavera próxima. Pois, se até então não se tinha conseguido derrubar o alemão,
que, só em parte, tinha podido atender ao front ocidental, como se poderia ainda
contar com a vitória, agora que parecia se reunir a força toda do Estado heróico
nessa frente?
A imaginação era trabalhada pelas
sombras das montanhas do sul do Tirol. Até na névoa do Flandres se projetavam as
fisionomias sombrias dos exércitos batidos de Cadorna, e a fé na vitória cedia o
lugar ao medo da próxima derrota.
Quando já se
pensava ouvir o rolar uniforme das divisões de ataque do exército alemão em
marcha, e quando já se esperava o juízo final, eis que irrompe da Alemanha uma
luz vermelha que projeta a sua sombra até o último buraco de trincheira inimiga.
No momento em que as divisões alemãs recebiam as últimas instruções para a
grande ofensiva, declarava-se na Alemanha a greve
geral.
A primeira impressão do mundo foi de
estupefação. Em seguida, porém, a propaganda inimiga, tomando novo alento,
atirou-se a essa tábua de salvação da décima segunda hora. De um golpe se tinham
encontrado os meios de 1-eviver a confiança arrefecida dos soldados aliados, de
apresentar a probabilidade de vitória como sendo uma certeza e de transformar a
pavorosa depressão com relação aos acontecimentos vindouros em confiança
absoluta. Podia-se agora inculcar aos regimentos, até então na expectativa do
ataque alemão, a convicção, na maior batalha de todos os tempos, de que a
decisão final dessa guerra não ia depender do arrojo da ofensiva alemã e sim de
sua persistência na defensiva. Os alemães podiam obter quantas vitórias
quisessem, na sua pátria esperava-se uma revolução e não o exército
vitorioso.
Os jornais ingleses, franceses e
americanos começaram a semear essa convicção no coração de seus leitores,
enquanto uma propaganda imensamente hábil era utilizada com o fim de elevar o
moral das tropas.
"A Alemanha às vésperas da
revolução! A vitória dos aliados inevitável!" Este foi o melhor remédio para pôr
o indeciso Tommy e o Poilu de novo firmes sobre as pernas. Podiam agora fazer
funcionar de novo os fuzis e os fuzis-metralhadoras e, no lugar de uma fuga em
pânico, estabeleceu-se resistência cheia de
esperanças.
Foi esse o resultado da greve das
munições. Ela reavivou entre os povos inimigos a fé na vitória e pôs termo à
paralisaste depressão no front aliado. Em conseqüência disso, milhares de
soldados alemães tiveram que pagar com seu sangue esse desatino. Os promotores
desse mais que infame golpe eram aqueles que esperavam obter os mais elevados
postos administrativos na Alemanha
revolucionária.
Do lado alemão poder-se-ia
talvez ter reagido com sucesso, do lado do inimigo entretanto as conseqüências
eram inevitáveis. A resistência tinha deixado de ser aquela oferecida por um
exército que considerava tudo perdido e foi substituída por uma luta de vida e
de morte pela vitória.
A vitória tinha de vir.
Bastava para isso que o front ocidental resistisse alguns meses à ofensiva
alemã. Nos parlamentos da Entente reconheceram-se as possibilidades do futuro, e
foram concedidos créditos imensos para a continuação da propaganda com o fim de
destruir a unidade alemã.
Eu tive a felicidade
de poder tomar parte nas duas primeiras ofensivas e na
última.
Estas se tornaram a mais tremenda
impressão de toda minha vida; tremenda porque, pela última vez, a luta perdeu o
seu caráter de defensiva e tornou-se uma ofensiva, como em 1914. Pelas
trincheiras dó exército alemão passou um novo alento quando, finalmente, depois
de três anos de espera no inferno inimigo, tinha chegado o dia da "revanche".
Mais uma vez exultaram os batalhões vitoriosos e as últimas coroas de louro
entrelaçaram-se às bandeiras vitoriosas. Mais uma- vez retumbaram as canções à
Pátria, ao longo das colunas em marcha, e, pela última vez, a misericórdia
divina sorria a seus filhos ingratos.
Em pleno
verão de 1918, pairava uma atmosfera pesada sobre o front. Na Pátria havia
dissenções. Qual era a causa? Muita coisa se contava entre as diversas unidades
do exército. Dizia-se que a guerra agora se tornara sem finalidade, pois,
somente loucos poderiam acreditar na vitória. Não era mais o povo, e sim os
capitalistas e a monarquia que estavam interessados em continuar a guerra. Todas
essas notícias vinham da Pátria e eram discutidas no
front.
No princípio o soldado pouco reagia
contra isso. Que nos importava o sufrágio universal? Era por ele que nós
vínhamos combatendo há quatro anos? Foi um golpe infame esse de roubar dessa
maneira, no túmulo, a finalidade da guerra ao herói morto. Há tempos os jovens
regimentos não tinham marchado, em Flandres, para a morte, com o grito "Viva o
sufrágio universal secreto" e sim bradando "Deutschland über alles". Pequena,
porém, não totalmente- insignificante diferença! Aqueles que gritavam pelo
direito de voto, na sua grande maioria, não tinham estado lá para lutar por essa
conquista. O front não conhecia essa canalha política. Lá- onde se encontravam
os alemães decentes que permaneceriam, enquanto sentissem um sopro de vida, só
se via uma fração diminuta dos senhores
parlamentares.
O front, na sua primitiva
situação, tinha muito pouco interesses pelo novo alvo de guerra dos senhores
Ebert, Scheidmann, Barth, Liebknecht. etc. Não se podia compreender porque esses
reacionários se arrogavam o direito de, passando por cima do exército, controlar
o Estado.
Minhas noções políticas pessoais
estavam fixadas desde o começo. Eu odiava essa corja de miseráveis partidários
traidores da nação. Há muito tempo eu tinha compreendido que para esses
tratantes não se- tratava do bem da nação e sim de encher os seus bolsos vazios.
E o fato de eles estarem dispostos a sacrificar a Nação inteira por esse fim e
de permitir, se necessário fosse, a destruição da Alemanha, fez com que perante
meus olhos merecessem a forca. Tomar em consideração os seus desejos significava
sacrificar os interesses do povo trabalhador em favor de alguns batedores de
carteira. Só se poderia satisfazer os seus desejos no caso de se estar decidido
a abrir mão da sorte da Alemanha. Assim pensava a maioria do exército
combatente. Mas o reforço vindo da Pátria se tornava cada vez menos eficiente,
de sorte que a sua vida, em vez de produzir um aumento de combatividade, tinha o
efeito contrário. Sobretudo o reforço constituído pelos novos soldados era na
maior parte inútil. Dificilmente se poderia acreditar que esses eram filhos do
mesmo povo que tinha mandado a sua juventude para a luta em
Ypres.
Em agosto e setembro, aumentaram cada
vez mais os sintomas de decadência, embora o efeito do ataque inimigo não
pudesse ser comparado com o pavor produzido pelas nossas batalhas defensivas de
outrora. Comparadas a elas, as batalhas do Somme e de Flandres eram coisas do
passado, de horripilante memória.
Em fins de
setembro, a minha divisão, pela terceira vez, chegava às posições que tínhamos
tomado de assalto, quando éramos ainda um regimento de voluntários, recentemente
formado.
Que reminiscências! Em outubro e
novembro de 1914, tínhamos ali recebido nosso batismo de fogo. Com o coração
ardendo de patriotismo e com canções nos lábios, tinha o nosso novo regimento
seguido para a batalha, como para uma festa. O sangue mais caro era dado com
prazer à Pátria, pensando cada um com isso garantir à Nação a sua independência
e a sua liberdade.
Em julho de 1917, pisamos,
pela segunda vez, o solo tão sagrado para nós todos, pois nele repousavam nossos
melhores camaradas que, quase ainda crianças, tinham se lançado à morte, de
olhos fixos na Pátria querida! Nós, os velhos, que outrora ali passamos com
nosso regimento, quedávamo-nos respeitosamente comovidos diante desse lugar
sagrado, onde tínhamos jurado "fidelidade e obediência até à morte". Esse
terreno, há três anos atrás tomado de assalto pelo nosso regimento, tinha agora
de ser defendido numa tremenda batalha
defensiva.
O Inglês preparava a grande ofensiva
do Flandres com um fogo de barragem que já durava três semanas. Parecia então
que o espírito dos mortos revivia; o regimento se agarrava com unhas e dentes à
lama imunda, apagava-se aos buracos e às fendas do solo, sem se abalar nem ceder
um palmo, e ia se tornando, como já uma vez, cada vez mais desfalcado, até que,
finalmente a 31 de julho de 1917, se desencadeou o ataque dos
ingleses.
Nos primeiros dias de agosto fomos
substituídos. O regimento tinha se transformado em algumas companhias; estas
marchavam para a retaguarda, recobertas de lama, mais se assemelhando a
espectros do que a criaturas. Fora algumas centenas de metros de buracos de
granadas, o inglês só tinha conseguido encontrar a
morte.
Agora no outono de 1918, estávamos, pela
terceira vez, no terreno da ofensiva de 1914. A nossa cidadezinha, Comines,
outrora tão sossegada, tinha se transformado em campo de batalha. É verdade que,
embora o terreno da luta fosse o mesmo, as criaturas tinham mudado: fazia-se
agora política entre a tropa. O veneno da Pátria começou, como em toda parte, a
trazer até aqui os seus efeitos. Os reforços mais novos falharam inteiramente -
eles tinham vindo da Pátria, já
contaminados.
Na noite de 13 a 14 de outubro,
começou o bombardeio a gás na frente sul de Ypres. Empregava-se um gás cujo
efeito ignorávamos ainda. Nessa mesma noite, eu devia conhecê-lo por experiência
própria. Estávamos ainda numa colina ao sul de Werwick, na noite de 13 de
outubro, quando caímos sobre um fogo de granadas que já durava horas e que se
prolongou pela noite a dentro, de maneira mais ou menos violenta. Lá por volta
de meia-noite, já uma parte de nossos companheiros tinha sido posta fora de
combate, alguns para sempre. Pela manhã senti também uma dor que de 15 em 15
minutos se tornava mais aguda e, às 7 horas da manhã, trôpego e tonto, com os
olhos ardendo, eu me retirava levando comigo a minha última mensagem da
guerra.
Já algumas horas mais tarde, os meus
olhos tinham se transformado em carvão incandescente. Em torno de mim tudo
estava escuro.
Foi assim que eu vim para o
hospital de Pasewalk na Pomerânia e ali tive de assistir a
revolução!
Já há algum tempo pairava no ar algo
de incerto e desagradável. Dizia-se que, dentro de algumas s